Domingo, 19 de novembro de 2017
Ano XXIX - Edição 1484
(55) 3535-1033
jsemanal@jsemanal.com.br
diagramacao@jsemanal.com.br

Prevenção ao suicídio

15/09/2017 - Por Jornal Semanal
Tweet Compartilhar
'Quanto menos discutirmos o assunto, acreditando que ao falarmos estaremos estimulando o suicídio, mais ocultas ficarão as situações que cumulativamente levam a ele', avalia voluntário do posto local do CVV

Para Vinícius Serafim, 'devemos passar a falar abertamente com todos os públicos'. Posto local iniciou atendimentos 
no final de janeiro e reúne 26 voluntários, dos quais 20 são plantonistas

Quando se abre o site da campanha Setembro Amarelo (setembroamarelo.org.br), de prevenção ao suicídio, logo salta aos olhos o logotipo da campanha - o qual traz uma fita amarela e uma pessoa de braços abertos - e, junto dele, bem grande, a frase "Falar é a melhor solução".
Esse é um lema do Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade sem fins lucrativos fundada em 1962 e que atua gratuitamente na prevenção ao suicídio.
Ou seja, a avaliação é de que não se deve enxergar o tema como tabu - e é desse pensamento, de que falar é a melhor solução, que parte o trabalho do CVV.
Isso fica evidente no próprio modo de atuação da entidade - a qual reúne, Brasil afora, voluntários que, por meio de telefone, chat, Skype e e-mail, prestam apoio emocional e estão ali justamente para ouvir o que as pessoas em situação de angústia têm a dizer, a desabafar.
Três de Maio é um dos municípios que contam com voluntários. "Quanto menos discutirmos o assunto, acreditando que ao falarmos estaremos estimulando o suicídio, mais ocultas ficarão as situações que cumulativamente levam a ele", afirma, em entrevista ao Semanal, o voluntário do posto local do CVV Vinícius Serafim, que atua na formação de voluntários e na divulgação - como em palestras e no contato com a imprensa.

Média de 400 atendimentos mensais
O dia 10 de setembro, último domingo, foi o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Localizado em anexo ao Hospital São Vicente de Paulo, na Rua Osvaldo Cruz, o posto local do CVV tem atualmente 20 voluntários plantonistas, mais seis voluntários de apoio. Após o treinamento e formação dos voluntários, iniciou os atendimentos em 31 de janeiro.
A coordenadora é Cláudia Regina Demo. Hoje, o posto local - que ainda não tem atendimentos presenciais - faz atendimento somente por telefone, e os horários são cobertos de acordo com a disponibilidade dos voluntários.
Mensalmente, o posto local realiza uma média de 400 atendimentos. Ligações de qualquer lugar do Brasil podem cair no posto local - no entanto, não se tem a informação da origem delas, uma vez que os números dos telefones, incluindo o próprio DDD, não ficam registrados.
O serviço de atendimento do CVV funciona 24 horas - o posto de Três de Maio faz parte de uma rede nacional, ou seja, sempre há alguém para atender ao telefone, mesmo que exista algum horário não coberto pelo posto local.
"Para que o posto de Três de Maio funcione 24 horas, sete dias por semana, necessitamos de 45 voluntários treinados e com disponibilidade de tempo", observa Vinícius, em entrevista que você confere a seguir. O posto é mantido com a contribuição mensal dos próprios voluntários, além de receber alguns auxílios eventuais - a exemplo do seu local de funcionamento, cedido sem custos.

Entrevista
Pensamentos suicidas, depressão profunda, "apenas" um momento difícil por que a pessoa está passando - sem maior gravidade aparente -, necessidade de desabafar por conta de um fato isolado: uma vez que o CVV presta apoio emocional, independentemente de a situação da pessoa envolver pensamentos suicidas ou não, como as ligações recebidas se dividem quanto "à motivação" para as pessoas ligarem?
É difícil fazer uma estimativa dos atendimentos, pois todos eles são sigilosos e o único registro que temos é a quantidade geral de ligações. Mas as motivações são as mais variadas possíveis: solidão, necessidade de desabafar, situações difíceis que estão sendo enfrentadas, pensamentos suicidas.
É importante destacar que o voluntário do CVV nunca fará nenhum juízo de valor ou julgamento da pessoa que liga ou da situação que é relatada. O voluntário do CVV é treinado para acolher, ouvir sem julgar.

Na sua visão, o que precisa ser mudado na sociedade quanto à forma como se discute, se debate, se encara o suicídio?
"Falar é a melhor solução": esta é uma frase lema do CVV. Quanto menos discutirmos o assunto, acreditando que ao falarmos estaremos estimulando o suicídio, mais ocultas ficarão as situações que cumulativamente levam a ele. Devemos derrubar o tabu que determina que este não é um assunto a ser discutido e devemos passar a falar abertamente com todos os públicos.

Para você, quanto às pessoas que demonstram tendências suicidas, há comportamentos que a sociedade adota na tentativa de ajudar mas que, na verdade, podem não contribuir e, pior, em alguns casos, agravar a situação?
Eu diria que o maior erro está em não falar sobre o assunto para "não estimular" o suicídio. Mas, ainda, posso citar alguns comportamentos da nossa sociedade, e portanto de todos nós, que contribuem para o suicídio: os preconceitos de todos os tipos; ignorar o sofrimento alheio (por exemplo, crianças que sofrem abusos); apontar o auxílio psicológico (terapia) como um tratamento para pessoas com problemas mentais; distanciamento emocional; substituição dos laços sentimentais pelos laços materiais nas relações; e, por fim, não estarmos disponíveis uns para os outros.

E, na sua visão, qual é o atual papel da sociedade na prevenção ao suicídio? O que está ao alcance dela fazer e qual é a importância de uma atuação forte e presente?
Há diversas entidades, de diversos setores, atuando no combate ao suicídio. Todas essas entidades dependem do apoio da sociedade como um todo. No entanto, elas estão em posição análoga à de médicos que atuam apenas depois da doença já manifesta. E aí está um papel crucial da sociedade: em seus núcleos (por exemplo, familiares, profissionais, educacionais, religiosos, etc.), mora a possibilidade da prevenção das situações que levam ao pensamento suicida.

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Quer falar? Precisa falar? Saiba como contatar o CVV
O 188, número de telefone para receber atendimento do CVV, é gratuito tanto de celular quanto de telefone fixo e funciona 24 horas em todos os dias da semana - as outras formas de atendimento são chat, Skype e e-mail. Não é preciso se identificar para receber atendimento.
Em vários estados ainda funciona o número 141, que tem custo na ligação, mas todos serão migrados para o 188. O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado a passar para o 188. Para mais informações, o site do CVV é www.cvv.org.br.

FOTO: ARQUIVO/JS





Indicar a
um Amigo

Comentários

Deixe a sua opinião

Veja Também

10/11/2017   |
29/09/2017   |
29/09/2017   |
08/09/2017   |
01/09/2017   |




Todos os direitos reservados - Jornal Semanal - Três de Maio - RS