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O metalúrgico e o juiz

01/06/2018 - Por Jornal Semanal
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Era uma vez um metalúrgico. Que saiu do anonimato. Virou presidente da República. Tirou muitos da pobreza com programas sociais. Colocou muitos pobres na universidade. Criou carreira para muitos professores. Foi condenado por participar de esquemas criminosos envolvendo propinas, que não ficaram comprovados por meio de provas e sim indícios.
Era uma vez um juiz. Que ia ao trabalho de bicicleta. Que também saiu do anonimato. Condenou o presidente da República. Agora não pode mais ir ao trabalho de bicicleta.
Fim. Ou melhor, o começo de tudo.
As carreiras demoraram para se cruzar. Mas se cruzaram. Um juiz, o politicamente correto que recebe auxílio-moradia mesmo tendo imóvel próprio (ok, a desculpa deles é que é uma forma de perceberem um aumento de salário de forma disfarçada já que não ocorre aumento real), e o metalúrgico, que diz não ser culpado pelo que é acusado, mesmo tudo voltando-se para ele. No dia do interrogatório a Lula, um paradoxo se formou. O juiz saiu de casa com gravata vermelha e quentinha na mão. O metalúrgico possivelmente chegou em comitiva com gravata verde-amarela. Tornou-se o primeiro presidente da República Federativa do Brasil a ser preso. Penso em como deve ser difícil explicar isso. Alguém chamado de "o cara" pelo presidente dos EUA, postulante ao Nobel da Paz por conta dos programas sociais, preso. Com a palavra, os historiadores.
Deltan Dallagnol, procurador da República, da força tarefa da Lava Jato, famoso por aquele PowerPoint que colocava Lula no centro de um criminoso esquema de corrupção da Petrobras, disse que se desvia do Brasil por conta da corrupção 200 bilhões de reais por ano. Deltan, em uma palestra, contou que uma senhorinha disse para ele que tudo isso que estavam fazendo não iria dar certo. Eu entendo ela. Se mexe com gente muito poderosa quando se para para investigar os mandatários de nosso País. Na calada de uma madrugada que o Brasil chorava a queda do avião da Chapecoense, o congresso enterrou o projeto das 10 medidas contra a corrupção, de iniciativa popular, mais exatamente de assinaturas de dois milhões de brasileiros. E quem é que chega no Congresso e no Senado e derruba um projeto desses? Gente de dinheiro. Gente que foi apresentador de televisão, jogador de futebol, latifundiário. Gente que quer continuar no poder. E com dinheiro.
A corrupção está nas pequenas coisas. Quando se vai consertar algo na casa de alguém, mas deixa-se outra parte estragada para poder voltar e cobrar mais uma visita. Quando se diz que foi feita uma revisão do carro, mas deixa-se o cliente em perigo pois não foi uma revisão geral e sim algo simples para rodar o básico. Quando se joga uma bituca de cigarro no chão. Quando se joga algo pela janela do auto. Quando se faz uma ultrapassagem perigosa colocando em risco a sua e a vida de outras pessoas para chegar cinco minutos antes ao destino. A corrupção está nisso. Que este jeitinho brasileiro um dia termine. Eu torço.
Moro não é herói. Lula não é herói. Deltan não é herói. Apenas estão fazendo o seu trabalho. Herói é aquele que levanta de madrugada e só volta para casa de noite. Herói é aquele que segura a mão da criança para desenhar a volta da letra O. De heróis estamos cheios em nossos dias, mas esses tipos de heróis passam longe da política. Não querem pelo simples fato de não concordarem com o sistema e terem de tornarem-se corruptíveis.

Gustavo Griebler - Doutorando em Educação em Ciências - UNIPAMPA. 
Professor do Instituto Federal Farroupilha - Campus Avançado Uruguaiana



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