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Uma ligação ao CVV pode mudar o rumo da história de alguém em sofrimento

21/09/2018 - Por Jornal Semanal
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90% dos suicídios poderiam ser evitados, afirma a Associação Psiquiátrica da América Latina (Apal)  
Para a entidade, as mortes poderiam ser evitadas se as pessoas tivessem acesso a tratamento e pudessem tratar a doença que leva ao suicídio 

De 2010 a julho de 2018, 307 pessoas foram a óbito por suicídio na área de ação da 14ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS) de Santa Rosa, que abrange 22 municípios. Entre estes números, está o caso da jovem moradora de Três de Maio, Tamara Luísa Andrade Dorneles, de apenas 19 anos.
 "Tamara era uma menina linda, cheia de sonhos e objetivos. Muito querida por todos que tiveram a oportunidade de conviver com ela", assim é a lembrança que os familiares guardam com carinho da jovem. 
Natural de Santa Rosa, mas que veio morar em Três de Maio aos três anos de idade, a jovem de 19 anos, tirou a própria vida na madrugada de 29 de junho de 2017. 
A morte prematura de Tamara provocou perplexidade para a família e amigos. Uma das tias dela, Jaqueline Andrade, diz que o processo do luto ainda não terminou. "Sentimos saudade dela, todos os dias. Por ser uma menina tão especial e querida, o tempo que esteve com nossa família só nos trouxe felicidade e amor. Nada substitui a falta que ela faz; o amor por ela só aumenta", diz a tia, emocionada, ao Semanal. Para ela, falar sobre o assunto é muito importante, no sentido de prevenir novos casos.
Assim como a família de Jaqueline, milhares de famílias pelo país e mundo afora sofrem a perda de seus entes queridos pela morte por suicídio. 
Diante dos efeitos da tragédia, os familiares e amigos precisam sobreviver. Não é à toa que as pessoas que ficam são chamadas de sobreviventes, pois a cada dia seguinte ao suicídio é uma verdadeira superação; e uma luta contra o sofrimento, o sentimento de culpa e os questionamentos dos motivos pelos quais levaram o seu familiar ou amigo a uma atitude tão extrema de acabar com a própria vida.

Maior parte das pessoas que comete suicídio sofre de algum transtorno psicológico
Há quatro anos a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), promove a campanha nacional Setembro Amarelo. Ao site Agência Brasil, o presidente da Associação Psiquiátrica da América Latina (Apal) e superintendente técnico da ABP, Antônio Geraldo da Silva, destacou a importância da campanha para prevenção e conscientização. 
O caminho, segundo Silva, é adotar medidas preventivas de ajuda e auxílio. "É uma maneira de a gente salvar vidas porque 90% dos suicídios poderiam ser evitados se as pessoas tivessem acesso a tratamento e pudessem tratar a doença que leva ao suicídio", afirmou. 
Ele ainda afirmou que estudos indicam que a maior parte das pessoas que tenta colocar fim à própria vida sofre de algum tipo de transtorno psicológico, entre eles ansiedade e depressão.

Entre 2010 a julho de 2018 foram 307 óbitos por suicídio na região da 14ª CRS. Em Três de Maio, houve 41 suicídios e 166 lesões autoprovocadas (que podem ser tentativas de suicídio) foram notificadas. 
E neste ano, no município, de janeiro a julho, foram 5 suicídios.

Total de óbitos por suicídio na região da 14ª CRS 
Abrangência - 22 municípios. 
Período de 2010 a julho de 2018

Os números 
- 32 suicídios que ocorrem diariamente no Brasil, média de 1 morte a cada 45 minutos.
- No mundo, ocorre uma tentativa a cada três segundos e um suicídio a cada 40 segundos. No total, chega-se a 1 milhão de suicídios por ano no mundo. 
- A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu que a data de 10 de Setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. 
- Segundo a Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), estima-se que 60 pessoas sejam diretamente afetadas em cada morte por suicídio, incluindo família, amigos, conhecidos e colegas de classe. 

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CVV é um importante aliado na 
prevenção ao suicídio
Em muitos países é comum ter linhas telefônicas de prevenção de suicídio para que as pessoas considerando a alternativa possam se abrir com alguém e falar abertamente sobre medos, anseios e os problemas que as levaram a escolher esse caminho. No Brasil, este trabalho é realizado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) - associação civil sem fins lucrativos, fundada em São Paulo, em 1962. 
Atualmente, no país, existem em torno de 100 postos de atendimento do CVV e 2,3 mil voluntários. As ligações - através do número 188 - são gratuitas e funcionam 24 horas. A assistência, oferecida por voluntários - devidamente treinados -, visa dar apoio emocional para quem quer e precisar conversar. A discrição também faz parte do serviço, portanto, todas as ligações são sigilosas.
Pessoas em situação de alto risco de suicídio têm no CVV um importante aliado para evitar o ato extremo. O serviço, mantido por voluntários, foi formalizado em Três de Maio em 30 de janeiro de 2017, com um posto de atendimento - mantido pelo Navit - Núcleo de Apoio à Vida de Três de Maio. O município é o único da região a ter um posto do CVV. 
A coordenadora local do posto, Cláudia Regina Demo destaca que o atendimento não é presencial, mas somente pelo fone 188, sob sigilo absoluto. "A sua ligação pode ser atendida por qualquer um dos 2,3 mil voluntários, em um dos cerca de 100 postos localizados, em vários estados do país". 
O posto de Três de Maio conta com 12 voluntários (incluindo moradores de Boa Vista do Buricá e de Independência), número considerado bom, mas que pode melhorar.  Conforme Cláudia, o número aumentou após a realização de  um curso de preparação para selecionar mais pessoas para trabalhar. "O voluntário doa seu tempo (quatro horas por semana) e sua atenção, para quem precisa conversar", informa.
São apoiadores do CVV Três de Maio o Hospital São Vicente de Paulo - que cede, gratuitamente, a sala para o funcionamento do posto; Câmara de Vereadores; Associação Comercial e Industrial (ACI) e Escritório Contábil Ullmann. 

10 mil ligações por dia no Brasil; 714 no mês de agosto no CVV em Três de Maio
Os voluntários do CVV não precisam ter formação específica na área da psicologia, por exemplo, mas é necessário passar por um treinamento para nortear e preparar para o atendimento. 
Segundo Cláudia, no CVV não são dados conselhos. "A gente não direciona a pessoa para tratamento médico ou hospital. Não falamos o que a pessoa deve fazer. A gente ouve, conversa, dá apoio, mas é a pessoa que decide o que fazer da sua vida."
Todos podem fazer parte do grupo de voluntários do CVV. "Basta doar um tempo para quem precisa. A gente ganha muito mais do que dá. É gratificante ajudar na valorização da vida, prevenindo o suicídio."
Os postos do CVV no Brasil atendem, por dia, em torno de 10 mil ligações. Em Três de Maio, houve um aumento bem significativo de abril a agosto, pelo aumento dos voluntários (12 plantonistas e cinco apoios). Dobrou o número de ligações, passando de 327 em abril para 714 em agosto.
Para o voluntário Diogo Springer, o trabalho no CVV auxilia até mesmo no seu dia a dia. "É um aprendizado; hoje sei escutar muito mais as pessoas sem ficar dando palpite, julgando, ou falando mais do que ouvindo. Trabalhar no CVV faz um bem enorme para o voluntário. Automaticamente, chego preparado para o plantão e para atender as pessoas."
Cláudia e Diogo são voluntários desde o início da implantação do posto no município. "Foi uma soma de esforço de várias pessoas, de uma equipe. No ano de 2016 tivemos esse anseio de trazer o posto do CVV para Três de Maio porque ocorreram vários casos de suicídio no município. Percebemos que algo tinha que ser feito", diz Cláudia.
Diogo reforça a importância do trabalho. "Naquele momento da ligação, você é o amigo que a pessoa precisa, que está ali ouvindo, prestando a sua ajuda", avalia. 

CVV presta importante serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato. Com 12 voluntários, posto do CVV local atendeu 714 ligações em agosto deste ano

'Solidão é o que mais machuca. É o maior mal do ser humano. As pessoas precisam de um abraço, de um carinho'
Afirmação é da coordenadora do CVV de Três de Maio, 
Cláudia Regina Demo 
Ao ligar 188, algumas vezes, a sua ligação pode cair na fila de espera; pela falta de voluntários disponíveis para atender naquele momento. Mas isso não é motivo para que a pessoa desista de falar com algum dos atendentes. "Permaneça na linha, logo você será atendido", garante Cláudia.
O maior número de ligações ocorre durante à noite e a maioria das pessoas se queixa de solidão. "Tem pessoas que demonstram desespero, que já estão no nível máximo de estresse. Mas o maior problema é solidão. Pessoas que não tem ninguém para conversar. Às vezes, o atendente do CVV é a única pessoa que ela conversa durante o dia", relata o voluntário Diogo.
Cláudia compartilha o sentimento do colega. "Solidão é o que mais machuca. É o maior mal do ser humano. As pessoas precisam de um abraço, de um carinho", observa, e complementa. "Às vezes você está falando com a pessoa e ela diz que precisa de um abraço, e você diz, estou te dando esse abraço. É como se eu realmente estivesse abraçando a pessoa. Em alguns momentos a gente chora junto. Somos seres humanos; é normal".
Porém, a coordenadora pondera que o CVV faz esse apoio emocional através de uma escuta solidária, uma conversa; mas que o voluntário tem que ter a consciência que vai sair dali (do atendimento) e deixar tudo ali. "Eu não posso, como voluntária, ir para casa e ficar pensando naquela situação. Tenho que pensar que fiz a minha parte e ponto final. Por isso temos que ter essa preparação, para ver se temos esse perfil." 
Para ambos os voluntários, ao final do atendimento, eles saem do posto sabendo que fizeram o melhor que podiam; "disponibilizamos nosso tempo e atenção para a pessoa, que é o que podemos fazer". "É um trabalho importante, porque naquele momento, a pessoa está sendo ouvida e de repente, não vai tomar uma atitude extrema. Vai pensar melhor. Esse atendimento pode vir a ser decisivo para a pessoa mudar de ideia."
Cláudia alerta que a questão do suicídio é o momento; aquele impulso. "A pessoa pensa, planeja, geralmente tem isso, mas a ação, se dá num momento ali; e a grande maioria das pessoas que consegue sobreviver diz que se arrependeu no momento em que tentou.

Próximo passo: a criação do CVV GASS - Grupo de Apoio aos Sobreviventes de Suicídio
Se existem ligações de pessoas desesperadas, por outro lado, também existem aquelas de gratidão ao trabalho do CVV. 
Diogo conta que já escutou algumas pessoas agradecendo a ligação e dizendo que conseguiram forças para caminhar mais um dia; um recomeço a cada dia. 
Cláudia também lembra que muitos ligam e dizem que "que bom, hoje só estou vivo por causa do CVV; foi uma grande ajuda que eu consegui quando eu precisei, obrigada".
Além disto, eles relatam casos de pessoas que ligam várias vezes por dia, ou por semana; cujas vozes são conhecidas dos atendentes. "Elas sabem que podem ligar e sempre vai ter alguém para ouvi-las, para conversar, que vai passar aquele momento de angústia e de dor, e elas vão se sentir melhor."
A ligação não tem uma duração pré-estabelecida. "Dura o tempo que for necessário. Já tivemos ligações de 3 a 4 horas. O normal é entre 30 minutos a 1 hora, porque a pessoa precisa desabafar, ela está em sofrimento. Outras vezes a pessoa liga contando a sua história - isso acontece muito, de você se identificar com a história da pessoa, e isso te faz pensar em muitas coisas", avalia Cláudia.
Dentre os maiores "sonhos" dos voluntários do posto do CVV local, a criação do CVV GASS - Grupo de Apoio aos Sobreviventes de Suicídio é uma prioridade. "Seria um local para acolher os familiares, amigos e conhecidos de pessoas que cometeram suicídio. Onde as pessoas pudessem vir e conversar umas com as outras, compartilhar suas histórias e experiências. Porque sabemos que, um suicídio atinge pelo menos 10 pessoas - da família e amigos -, que são chamados de sobreviventes."

Posto de Atendimento do CVV Três de Maio - somente pelo fone 188 - funciona em sala cedida, gratuitamente, pelo Hospital São Vicente de Paulo 

FOTO: ALINE GEHM




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