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Resposta natural à dor da perda de um ente querido, o luto precisa ser vivido

01/11/2018 - Por Jornal Semanal
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 'Não há forma de passar pelo luto sem sofrimento', avalia a psicóloga 
"Basicamente, o luto é uma resposta natural à dor da perda de um ente querido, de algo muito importante, trabalho, relacionamento, etc. Quando ele se desenvolve de uma forma saudável, implica na capacidade de expressão da sua dor, com comportamentos típicos, como choro, pensamentos de culpa, raiva, isolamento, depressão, ansiedade, posterior aceitação, reajuste de papéis familiares e investindo em novos tipos de vínculos", define a psicóloga clínica Marjana Thomé Damm.
Nessa entrevista, por ocasião do Dia de Finados, ela explica que o luto é um processo natural e necessário para preenchermos o vazio deixado por qualquer perda significativa, pelo qual todos nós passamos - e passaremos - algum dia, e é comum a todos nós, nos mais diversos contextos.

Quais as fases/etapas do luto?
Podemos falar de distintas formas de compreender o luto, mas geralmente citamos algumas fases ou etapas para que este luto se encaminhe de forma saudável, com um curso natural. Destaco que geralmente são listadas 5 fases mais comuns e de fácil identificação, são elas:  1ª - Negação; 2ª - Raiva; 3ª - Negociação\Barganha; 4ª - Depressão e 5ª Aceitação. 
É importante ressaltar que um processo natural de luto pode levar até dois anos, dentro de um contexto saudável. Porém, o tempo ainda é bastante relativo, pois cada pessoa precisa de um tempo determinado para elaborar e passar por todas estas etapas. A primeira etapa, é uma defesa mental que faz com que a pessoa não entre em contato com a realidade dos fatos, caracterizada pela negação, é quando nos deparamos de imediato com a perda de alguém, do emprego, do relacionamento, etc., ou seja, é quando não conseguimos acreditar que determinado evento\fato tenha acontecido conosco. Negamos, não acreditamos, dizemos que é impossível, que é brincadeira, etc, e logo também não queremos falar sobre o fato. Em seguida, nos deparamos com a raiva, aquela energia que não cabe dentro de nós, raiva da pessoa que faleceu, de quem nos demitiu, do ex-companheiro(a), raiva de que é injusto aquilo ter acontecido, de revolta com o mundo. 
Quando a raiva cede, começamos a negociar, a barganhar, e começa conosco, quando prometemos que "se" passarmos por esta situação seremos uma pessoa melhor, fazemos promessas a Deus, de como seremos,etc. Nesta etapa é muito comum as pessoas buscarem um alento, um conforto, que geralmente encontram dentro de uma crença religiosa, que nos traz uma explicação para o acontecido, em como superar entre outros, o que também é bastante saudável. Após a barganha e a negociação, acabamos nos voltando para o nosso próprio mundinho, e é aí que a fase depressiva entra em vigor. Nesta fase, nos tornamos mais melancólicos, nos isolando mais, evitando muito contato social com outras pessoas, há um sentimento de impotência frente ao ocorrido, este período assim como os outros, deve ser transitório.
A última fase do processo de luto, a mais rica, aquela que opera transformações reais em nossa vida é a aceitação. É quando nos vemos humildes frente ao que nos aconteceu, e começamos a aceitar o fato, começamos a traçar estratégias de como seguir com a vida, como iremos "passar por cima" do que nos aconteceu. O perdão é uma ferramenta importantíssima para que o processo de luto se desenrole de uma forma saudável, e não quer dizer que você não irá sofrer, quer dizer que mesmo no sofrimento da perda você terá uma perspectiva de futuro mais positiva, que você fará algo com a sua perda.

É importante passar pelo luto?
É fundamental passarmos pelo processo de luto, quando isso não ocorre temos um luto complicado, que é quando acabamos "congelando" em uma destas etapas e isso nos causa sofrimento intenso e constante e acaba se refletindo em distintas áreas da nossa vida. Por exemplo: quando um ente querido se vai, passam-se anos e da mesma forma a família ou alguém da família continua fazendo planos e incluindo o ente querido neles. Pode ser sutil e não é loucura, é uma forma de conseguir lidar com a perda, mesmo que não seja saudável. O nosso cérebro busca se adaptar as situações que somos acometidos, algumas pessoas se adaptam bem e outras tem uma adaptação disfuncional, gerando prejuízos.

Muitos tentam 'evitar' o luto, não demonstrando sofrimento, tristeza, choro... isso é prejudicial?
Quando fazemos de conta que nada aconteceu, em algum momento iremos viver esse luto. Algumas pessoas seguem a vida como se nada tivesse acontecido, como se aquela pessoa nunca houvesse existido. O que é bastante prejudicial, pois em algum momento todas estas fases irão retornar com força total, gerando sentimentos de desesperança e de desespero. Falar de uma perda significativa é sempre doloroso, mas é importante, muitas pessoas não conseguem passar da fase inicial do luto, da negação, podem passar uma vida inteira nesta etapa. O luto é a expressão da dor; você não precisa gritar aos quatro ventos a sua dor, basta vivê-la, senti-la e assim você encontrará um significado próprio para ela e conseguirá após isso, seguir com a vida de forma saudável. Não quer dizer que você esqueceu a pessoa, quer dizer a dor da perda tornou-se algo menor, gerando um sentimento de saudade, de carinho, mas não impedindo de seguir com a sua vida.

Psicóloga clínica Marjana Thomé Damm
(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Porque muitas pessoas não respeitam o luto do outro?
O luto é um processo solitário, por mais que outras pessoas possam viver a mesma coisa que você. Você mesmo dará  um significado próprio para a perda, a vivenciará de uma forma única, que é diferente da forma com que outras pessoas veem esse momento e o sentem. Para tanto, cada pessoa vive o luto de uma forma diferente. Precisamos respeitar a dor e o tempo do outro, quando você perceber que a pessoa não está lidando de uma forma saudável com a perda, ou que está estagnada em uma das etapas, tente ajudá-la, não julgá-la, pois a dor assume significados diferentes para pessoas diferentes. Aquilo que dói em mim, o outro necessariamente não sentirá na mesma proporção.

Há um tempo padrão para o luto?
O luto normal ou saudável, pode ser um processo que dure aproximadamente dois anos, podendo haver um tempo menor ou maior para que se desenvolva de uma forma saudável. Quando não ocorre de forma saudável, assim como a depressão, as pessoas tendem a esconder a dor, mas alguns comportamentos são bastante característicos do tipo: ficar inconformado com a perda do ente querido, não conseguir passar pela fase de depressão e de raiva, quando a pessoa fica extremamente irritadiça, brava, possui alterações no sono e alimentação. Como é uma vivência única, quando há o passar de aproximadamente dois anos e a pessoa continua vivendo intensamente algumas fases é indicativo de um luto mal elaborado. 

Quando um luto demora a passar, o que se deve fazer? 
O importante quando o luto demora a passar é verificarmos em que condições este luto aconteceu. É diferente quando a causa da morte é repentina (acidente automobilístico, suicídio, complicações médicas, etc.), de causas naturais ou esperadas (no caso de doenças debilitantes, por exemplo). Em situações diferentes, existem exigências diferentes dos sobreviventes, logo, é importante oferecermos ajuda da forma que está disponível como: conversar, visitar o túmulo ou algum local que lembre a pessoa, falar sobre as circunstâncias da perda, da dor e quando ainda assim se tornar persistente é importante uma avaliação especializada.  Para superarmos de forma saudável o luto, é necessário um acompanhamento psicológico, onde você irá compreender o motivo pelo qual ainda não conseguiu resolver bem a situação, o que te levou a este estado, bem como sair desta fase dolorosa, através dos seus próprios recursos internos.

Porque dói tanto a perda de quem amamos, mesmo sabendo que isso é inevitável?
Não há forma de passar pelo luto sem sofrimento, o luto precisa ser vivido. Claro, a minha forma de sofrer é diferente da sua, que é diferente do seu familiar, amigo, cônjuge ou vizinho, logo, não devemos generalizar o que é sofrer, cada pessoa tem comportamentos únicos que o ajudam a superar este sofrimento. A perda de alguém que amamos é tão dolorosa pois geralmente ficamos repassando a última conversa, o cheiro, o abraço, a risada, os momentos que vivemos juntos sem sabermos que eram os últimos. Repassamos o que deveríamos e poderíamos ter dito e não foi falado, se algo que fizéssemos poderia ter mudado a situação.  Muitas pessoas vivem um luto antecipatório, que é quando a pessoa ainda está viva, mas não é a pessoa que amamos e conhecemos, o que geralmente ocorre nos casos de doenças debilitantes, como o Alzheimer, doenças degenerativas, entre outras.

E como falar de morte para as crianças?
Muitas pessoas questionam sobre a presença de crianças em velórios. O velório e os rituais fúnebres são para os vivos, não para os mortos. É tempo de nos despedirmos, de relembrarmos o que vivemos de positivo com a pessoa, o quanto ela é importante para cada um de nós. E para as crianças não é diferente. As crianças possuem uma percepção distinta da nossa em relação aos que já se foram, elas questionam o motivo pelo qual tal pessoa está "dormindo", o que aconteceu, porque estão chorando, o que é difícil para os adultos responderem. Mas é muito importante explicações simples e curtas para as crianças, não tente explicar a morte para a criança de uma forma complexa e cheia de "voltas", o importante é desde cedo lidarmos com a perda, que é inevitável. Muitos pais tentam evitar o sofrimento das crianças, mas leva-los a participar dos rituais fúnebres dá um lugar para o sofrimento da perda da pessoa querida assim como nos adultos, leva-las ao cemitério, expressar a elas que está tudo bem em sentir saudades da pessoa que partiu. Ajudar a criança a entender o sofrimento também faz parte do processo dela de luto, levar flores, rezar, falar sobre a pessoa falecida é um processo importante tanto para adultos como crianças.
Assim como nos adultos, as crianças também podem sofrer  de luto complicado, então, é sempre importante prestar atenção em quem está a nossa volta, as crianças ficam irritadiças, choram sem motivo relevante e aparente, acabam tendo baixo rendimento escolar, falta de atenção, resistência na alimentação, o brincar é diferente, joga e quebra objetos, entre outros. 
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'Na madrugada que ele faleceu, ele me disse: mãe vou desmaiar. 
A morte foi apenas um 'desmaio'... Porque nunca falamos em perdas, falamos em esperança, em fases ruins', diz Mara Conte, mãe de Adriel Augusto, que faleceu recentemente aos 24 anos

Na ordem natural da vida, ninguém espera que um filho morra antes dos pais. Mas quando isso acontece, sentimentos de dor e saudade pela perda podem prevalecer durante um longo período. 
Mara e Marcos Vinícios Conte, de Três de Maio, são pais de Adriel Augusto, que faleceu no último dia 23 de outubro, aos 24 anos. O jovem lutava contra um câncer descoberto no mês de abril deste ano.
Para os pais, embora a saudade seja grande, não cabe questionar a Deus. "Não é momento também de achar que poderíamos ter mudado algo, pois estivemos no melhor hospital, com equipe de médicos experientes, melhores equipamentos, mas o tempo dele estava escrito", avaliam.
Os pais  falam com carinho do filho. "Quando você sabe que se dedicou, que amou e cuidou, você entende que deve continuar e deixar a pessoa descansar e seguir seu plano. Somos pais e irmã (Duane Maísa) orgulhosos e iremos falar com alegria de todos os feitos de Adriel Augusto Conte."
Nessa entrevista, conheça um pouco da trajetória do jovem Adriel e como os pais encaram a morte e o luto pela perda do filho.

Adriel Augusto Conte, 24 anos, gostava de fazer grafite em paredes e desenhar. 
Também fez curso para ser tatuador: se tatuou, tatuou a mãe e a tia
(FOTO: ÁLBUM DE FAMÍLIA)

A descoberta da doença
Adriel Augusto Conte, 24 anos, era tenente do Exército Brasileiro. Em abril deste ano, numa competição de natação, nas Olimpíadas do Quartel em Uruguaiana, onde ele estava servindo, o jovem teve um mal-estar. Ele já estava em tratamento para gastrite desde janeiro e na época, tinha feito, inclusive, uma endoscopia.
Nesta competição, ele achou que o mal-estar era normal, devido à exaustão. Porém, durante à noite, ele ficou ruim e na manhã seguinte teve o abdômen destendido, "parecendo uma bola". Foi para emergência do quartel e ficou em observação. Tomou medicamento e foi liberado.
Voltou a ficar ruim e foi conduzido a Santa Casa de Uruguaiana. Após, foi encaminhado para cirurgia no Hospital Militar de Área, em Porto Alegre.
No hospital militar, ele realizou vários exames, incluindo biópsia de uma linfa do pescoço. Após 23 dias internado, ele retornou para casa para aguardar o resultado da biópsia.
Os resultados vieram por e-mail direto para Adriel. "Ele teve uma crise de pânico, pois confirmou ser tumor desmoplásico de pequenas células redondas. O câncer era raro, de difícil tratamento, muito agressivo, com poucas expectativas de vida. Seis meses no máximo".
O tratamento foi iniciado com quimioterapia. Inicialmente, ele respondeu bem; estava forte, se alimentava. "Estávamos todos apostando que seria fácil."

A progressão do câncer
Após a confirmação do câncer, Adriel deixou Uruguaiana e voltou a morar com os pais, em Três de Maio. Ele reagiu bem até a quinta quimioterapia, quando começou sentir muitas dores. "Foi feito um exame (scan) para verificar o que estava acontecendo e como a química estava agindo no corpo dele. Mas, infelizmente, o exame verificou que a doença havia progredido e tinha metástases."
A mãe conta que quando o filho recebeu a notícia, ficou muito abatido. " As dores aumentaram. Veio a falta de apetite e ele foi decaindo."
Por várias vezes ele internou, fez exames, medicamentos para dor, e voltava para casa novamente. "As linfas aumentaram. As dores eram frequentes e passou a usar morfina."
No domingo (21/10), a família levou Adriel para Porto Alegre. Imediatamente internado, no Hospital Militar de Área de Porto Alegre, ele fez paracentese e tratamento com antibióticos. Mas estava consciente e aparentando melhora.
Na segunda-feira, 22 de outubro, passou bem o dia. "Mas à tarde, a médica passou para vê-lo e  nos falou que a situação se agravou... e que devíamos nos preparar para dar conforto a ele."
O falecimento veio na madrugada de 23 de outubro.

'Adriel  lutou e nunca perdeu a vontade de viver'
A mãe conta que Adriel era a pessoa mais saudável da família. Era esportista, tinha faculdade de Educação Física; havia feito curso de Crossfit em Buenos Aires, tinha acompanhamento com nutricionista. "Ele falava - vou vencer, pois estou na melhor fase do meu organismo."
Para  a mãe, Adriel sempre lutou e conseguiu tudo o que quis. Fez carreira, comprou seu carro, a tão sonhada moto Harley, viajou bastante, fez muitos amigos e viveu muito, intensamente. "Durante sua doença ele reagiu bravamente, até onde lhe foi permitido. Quando o corpo começou a ficar cansado, ele foi se aquietando. Na última semana, pediu pra não ficar sozinho", lembra Mara.

Todo o possível foi feito
"O luto está no coração. A gente nunca está preparado para perder um filho, ainda mais um filho que nos trouxe tantas alegrias. Hoje, temos momentos de riso com as boas lembranças; outros de dores, com a saudade."
A família teve oportunidade de ficar com Adriel durante os seis meses da doença. "Todo o possível foi feito. A gente teve momentos bons durante o tratamento; fomos na Arena do Grêmio, olhamos jogos do timão; fomos ao shopping, cinema, no Gasômetro.. Aproveitamos todos os momentos para passear, estar juntos; quando estávamos na Capital, fazendo o tratamento, para amenizar aquela imagem de doença."

'Adriel virou lenda'
"Durante o tratamento, sempre mantivemos a esperança e falávamos que era apenas uma fase. E foi por isso, que na madrugada que ele faleceu, ele me disse: mãe, vou desmaiar... A morte foi apenas um desmaio... Porque nunca falamos em perdas, falamos em esperança, em fases ruins. Ele sentiu dores, estava cansado, mas teve uma passagem leve."
A mãe fala que Adriel, desde pequenino queria ser lenda; queria deixar um legado. "E ele se tornou lenda: primeiro lugar no NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva), entrou para o Quartel, fez carreira, queria fazer faculdade de Educação Física e se formou ano passado."
Também fez muitos amigos; entrou para o Moto Clube de Uruguaiana; fez viagens; teve artigos de Educação Física divulgados em revistas de esporte; queria tatuar, fez curso - se tatuou, tatuou a mãe e a tia. "Ele também gostava de fazer grafite em paredes e desenhar. Desenhou o câncer sendo morto pela quimioterapia; que iria tatuar quando ficasse curado."
Para a mãe, o filho  cumpriu sua trajetória.  "Tivemos a honra de ser seus pais. É um exemplo, e ídolo da irmã, Duane."
Mara conforta as famílias que também perderam seus entes queridos e vivem a fase do luto. "Nem toda distância é ausência. Nem todo silêncio é esquecimento... Te amamos para todo o sempre, Adriel".

Adriel desenhou o câncer sendo morto pela quimioterapia; que iria tatuar quando ficasse curado

(FOTO: ÁLBUM DE FAMÍLIA)






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