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'O envelhecimento, antes de tudo, não é sinônimo de doença', afirma médico geriatra

30/11/2018 - Por Jornal Semanal
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Alex Pritzel dos Santos, geriatra do Hospital São Vicente de Paulo de Três de Maio, aponta que reinventar atividades e rotinas é o maior desafio dessa fase 

Geriatria é a especialidade médica que atua na prevenção e no tratamento de doenças relacionadas ao idoso. 
Em Três de Maio, o Hospital São Vicente de Paulo oferece o atendimento do médico geriatra Alex Pritzel dos Santos, que concedeu entrevista ao Semanal sobre os aspectos que envolvem o envelhecimento, e como esta importante fase da vida pode ser saudável, tanto no aspecto físico como mental, e ter mais qualidade de vida.
Segundo Alex, o geriatra - em virtude da alta complexidade que envolve o tratamento desse tipo de paciente, que tende a ter muitas doenças e utilizar múltiplos medicamentos - adapta os tratamentos propostos por inúmeros especialistas às necessidades e peculiaridades dessa faixa etária. "Nesse aspecto, apoia-se na Avaliação Geriátrica Ampla para garantir excelência no atendimento. Essa abordagem permite a avaliação do idoso como um todo e o diagnóstico de doenças que passam despercebidas por apresentarem manifestação clínica  diferente do padrão nessa faixa etária."
Além de lidar com doenças como as demências, a hipertensão arterial, o diabetes e a osteoporose, o geriatra também trata de problemas com múltiplas causas, como tonturas, incontinência urinária e tendência a quedas. "O especialista na área também promove a reabilitação de pacientes frágeis que tendem a perder peso e tornaram-se acamados. Ele também fornece cuidados paliativos aos pacientes portadores de doenças sem possibilidade de cura. Ao final da vida, cabe ao geriatra garantir conforto para familiares e pacientes durante a evolução para a morte. Essa última atribuição é recente e vem ganhando força nos últimos anos", destaca Alex.

Médico geriatra, Alex Pritzel dos Santos

'Essa fase da vida envolve incertezas e, principalmente, readequação. É quando o idoso 
precisa modificar sua rotina de vida e se readaptar a novas possibilidades. Afinal de contas, talvez já não consiga ser tão rápido e forte como antes. Talvez o raciocínio esteja mais lento. Por outro lado, a experiência de vida também o permite discernir o que realmente importa' , diz médico geriatra
 

O que é envelhecimento?
O envelhecimento, antes de tudo, não é sinônimo de doença. Decorre de disfunção progressiva do organismo quando em contato com o meio ambiente. Dessa forma, difere entre todos os indivíduos. Em resumo, os órgãos vão perdendo capacidades até redundar em morte. É como uma vela que vai se apagando ao longo do tempo. 

Quais as principais características que definem essa fase da vida? 
Essa fase da vida envolve incertezas e, principalmente, readequação. É quando o idoso precisa modificar sua rotina de vida e se readaptar a novas possibilidades. Afinal de contas, talvez já não consiga ser tão rápido e forte como antes. Talvez o raciocínio esteja mais lento. Por outro lado, a experiência de vida também o permite discernir o que realmente importa. A aposentadoria tende a tornar a vida com menos atividades, e muitas das tarefas que antes eram facilmente executadas, agora são realizadas com dificuldades. Reinventar atividades e rotinas é o maior desafio dessa fase. 

Com quantos anos a pessoa é considerada idosa? Porque essa definição de idade? 
O envelhecimento começa ao nascimento. Não há uma definição fisiológica que delimita o conceito de idoso.  A caracterização de idoso com idade acima de 60 anos ou 65 anos (como pela OMS) é meramente teórica, para facilitar a avaliação do grupo e garantir seus direitos, por exemplo.  

Porque tantas pessoas ainda têm medo de envelhecer, mesmo sabendo que essa fase faz parte da vida? 
O medo de envelhecer é justificado pela desorganização social que acomete os países em desenvolvimento como o nosso. Contrariamente aos países europeus que tiveram um envelhecimento populacional mais lento e, portanto, prepararam-se para melhor cuidar dos idoso, o Brasil e os demais países congêneres envelhecem rapidamente em meio ao caos. Sistemas de saúde voltados a doença aguda, falta de cuidadores preparados para atender a necessidade dos idosos, emergências superlotadas e pouca adequação dos lugares públicos as necessidades dos idosos são realidade. Além disso, o envelhecimento significa proximidade com o fim. Isso tudo pode ser angustiante. 

Como ter um envelhecimento saudável, tanto no aspecto físico e mental? 
O segredo para o envelhecimento saudável envolve equilíbrio. Acredito que o excesso ou a escassez, seja do que for, contribui para um envelhecimento com dificuldades. Excesso de trabalho pode redundar em maior risco de doenças articulares. O sedentarismo, por outro lado, favorece a obesidade e todas as suas consequências. O excesso de sal favorece hipertensão e seus malefícios. Por outro lado, dietas com pouco sal tornam-se menos palatáveis ao idoso favorecendo a diminuição da ingesta alimentar e perda de peso. Equilíbrio em tudo parece ser a chave para o envelhecimento saudável. Um bom suporte familiar também garante o carinho e o suporte necessário para lidar com as dificuldades que aparecem com a idade. 

O que é preciso para chegar ao envelhecimento com saúde, especialmente no quesito emocional e no aspecto da memória? 
Os fatores de risco mais importantes para o desenvolvimento de demência e alterações de memória são hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, sedentarismo, entre outros; todos fatores de risco para doenças cardiovasculares. A prevenção de fatores e risco cardiovasculares diminui o risco de alterações de memória. No aspecto emocional, é preciso distinguir depressão de sintomas depressivos causados por quadros demenciais. É muito comum quadros demenciais iniciarem por sintomas depressivos, sem que as alterações de memória sejam percebidas. Interação social com atividades diárias são pedra fundamental para o bem emocional do paciente idoso. Vários são os casos de pacientes com sintomas depressivos decorrentes do isolamento social. A diminuição da acuidade visual e auditiva, por dificultarem o contato com outras pessoas tem um peso importante neste quesito. 

O que as famílias precisam fazer para evitar a depressão de seus idosos? 
Muitos dos casos tidos como de depressão, são na verdade, sintomas depressivos de quadros demenciais. Há uma diferença importante nisso. Idosos depressivos, geralmente, possuem um passado com depressão, ou seja, já tiveram depressão quando mais jovens. O isolamento social e a falta de atividades diárias colaboram para o alto índice de depressão em idosos como afirmado anteriormente. Estimulação social com atividades e grupos de idosos são fundamentais. 

E sobre casos de demência, perda de memória, Alzheimer, que cada vez acometem mais os idosos? Há como prevenir ou evitar, ainda na juventude? 
Os casos de demência tornam-se cada vez mais evidentes na medida em que a expectativa de vida vai aumentando. O maior fator de risco para demência é a idade avançada. Apesar do aumento do número de casos, estima-se que metade dos idosos com demência como doença de Alzheimer não são diagnosticados. A prevenção dos casos de demência envolve atividade física, controle da pressão, da glicose e evitar a obesidade. Existe também uma predisposição genética e, uma vez iniciada a doença, não há medidas para conter sua evolução. Existem tratamentos que trazem pouco benefício em termos de memória, muito mais em controle das alterações comportamentais que também aparecem e podem trazer muito mais prejuízo.  

O que você diria para os idosos que se preocupam - excessivamente - com a idade e a aparência? 
A aparência passa muito pela autoestima. Aceitar que a idade vem chegando e as alterações físicas são progressivas é o ponto de partida. Entender o envelhecimento como algo inevitável e procurar adaptar-se as novas alterações é essencial para o bem-estar. Cirurgias plásticas modeladoras podem ser indicadas para idosos que pretendem uma aparência jovial. Pode ser justificada desde que o procedimento estético tenha mais benefícios do que riscos. O importante é sentir-se feliz com a aparência. E isso passa muito pela autoestima. Mente saudável reflete no modo como percebemos nossa aparência. 

Porque muitos dizem que essa é a Melhor Idade? O que, de fato, os idosos podem fazer para viver essa fase? Se divertir, namorar, viajar? Qual a sua orientação? 
Com o aumento da expectativa de vida, é cada vez maior a proporção de idosos ditos robustos. Tal termo refere-se a idosos com saúde suficiente para serem independentes, ativos e com força suficiente para viajar, namorar, enfim, viver. Isso explica a Melhor Idade: são idosos independentes economicamente e com boa saúde para desfrutar da nova fase de vida. São indivíduos aposentados, que já educaram os filhos e que têm todo o tempo para atividades que julguem benéficas. Aí está a maior justificativa para a prevenção de doenças. Plantar atitudes saudáveis e prevenção para colher a Melhor Idade como acima descrito. 

E sobre o medo da morte, comum a muitos idosos. Como lidar com isso? 
O medo da morte tem muito a ver com sintomas de ansiedade. Transtornos de ansiedade são comuns nessa fase da vida. As incertezas quanto ao futuro e a existência são comuns, mas não podem afetar o dia a dia do idoso. Nesse caso representa doença, devendo ser tratada. 

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HSVP conta com programa Mais Vida 
No final de agosto deste ano, o HSVP e o médico geriatra Alex Pritzel dos Santos lançaram o Programa Mais Vida, voltado à saúde dos idosos.
De acordo com o médico, o programa vem sendo realizado em turno único semanal, com boa aceitação do público.
"Ao todo foram avaliados 27 pacientes nesse período. Houve também atendimentos em domicílio. Chamou a atenção a procura de idosos robustos (aqueles idosos com autonomia e que gozam de boa saúde), refletindo uma maior preocupação com a saúde". 
Ele destaca que o ponto alto do período foi um show de violino de idoso familiar de paciente que estava em atendimento. "O programa está em fase inicial; mas observa-se que o seguimento do paciente idoso ainda não é realidade em nosso meio. Os pacientes tendem a procurar uma abordagem que resolva o problema de maneira instantânea, mas as doenças crônicas apresentadas nessa faixa etária requerem continuidade, força de vontade e, principalmente, adesão a proposta terapêutica". 
No momento, os grupos de trabalho, bem como cursos para cuidadores de idosos ainda estão em fase de preparação. Interessados podem buscar informações pelo fone 3535-9710 ou diretamente na tesouraria do hospital. 

Confira a matéria completa no jornal impresso

FOTO: ARQUIVO JS




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