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Produtor de leite que estiver fora dos padrões não terá produção recolhida

14/06/2019 - Por Jornal Semanal
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Produtores e indústrias devem se adequar às novas regras estabelecidas pelo Ministério da Agricultura

Normas entraram em vigor no dia 30, após seis meses de sua publicação no Diário Oficial da União
As novas regras para produção e padrão de qualidade do leite cru refrigerado, do pasteurizado e do tipo A (não sofre contato manual, com a retirada do produto sendo feita por meio de ordenha mecânica, e ele é imediatamente pasteurizado e envasado na própria fazenda), determinadas pelas Instruções Normativas (INs) 76 e 77, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), entraram em vigor no último dia 30.
Publicadas no Diário Oficial da União em 30 de novembro, as normas previam sua entrada em vigor em 180 dias, resultando na data de 30 de maio, quando também foram revogadas as instruções 51/2002, 22/2009, 62/2011, 07/2016 e 31/2018.
A Instrução Normativa 76 trata das características e da qualidade do produto na indústria, enquanto na IN 77 foram estabelecidos critérios para obtenção de leite de qualidade e seguro ao consumidor. Eles englobam as etapas de acondicionamento, conservação, transporte, seleção e recepção do leite cru em estabelecimentos.
As regras abrangem desde a organização da propriedade rural, suas instalações e equipamentos até a formação e capacitação dos responsáveis pelas tarefas cotidianas e o controle sistemático de mastites, da brucelose e da tuberculose.

Principais regras previstas nas novas Instruções Normativas

Contagem bacteriana
Os limites estabelecidos na propriedade, de 300 mil de contagem bacteriana total (CBT) e 500 mil de contagem de células somáticas (CCS), foram mantidos.
Na indústria, o limite de CBT no recebimento do leite cru é de 900 mil unidades por mililitro - o limite leva em conta o máximo exigido nas propriedades, considerando que o produto pode aumentar esse valor em até três vezes no trajeto.
Na Instrução Normativa 76, também são estabelecidos parâmetros físico-químicos para os diferentes tipos de leite, em questões como os teores de gordura, proteína total, lactose, sólidos não gordurosos e sólidos totais.

Armazenamento
Em relação ao armazenamento de leite na propriedade, as normas estabelecem que o produto deve ser coado antes de ser conduzido ao resfriador.
Os resfriadores de imersão podem ser aposentados, uma vez que a IN 77 permite apenas dois tipos de sistemas: os resfriadores de expansão direta e/ou os resfriadores a placas.
Os tanques comunitários continuam válidos, mas, com a IN 22 revogada, todas as condições são regulamentadas na IN 77, que detalha todo o registro, instalação, responsabilidades e análises que devem ser feitas antes da mistura dos leites de diferentes produtores.

Temperatura do leite
As condições de armazenamento do leite na propriedade são as mesmas: temperatura máxima de 4ºC por períodos que não devem ultrapassar 48 horas.
Os sistemas de refrigeração devem ser dimensionados de modo a atingir 4ºC em até três horas - ou seja, o equipamento deve possibilitar que o leite atinja esta temperatura em até três horas depois da ordenha.
A temperatura de receptação do leite cru na plataforma da indústria tem de ser de 7ºC, podendo chegar a 9ºC em episódios excepcionais. Pelas normais anteriores, o leite podia chegar à indústria a até 10ºC. Também continua permitida a entrega de leite sem refrigeração desde que seja feita em até duas horas após a ordenha.

Produtores podem ter produto não recolhido
O leite cru coletado nas propriedades (tenha sido ele refrigerado em tanque individual ou de uso comunitário) deve apresentar médias geométricas trimestrais de contagem padrão em placas (CPP) de no máximo 300 mil unidades formadoras de colônia por mililitro (UFC/ml) e de contagem de células somáticas (CSS) de no máximo 500 mil células por mililitro (CS/ml).
A indústria deve interromper a coleta do leite na propriedade que apresentar por três meses consecutivos um resultado de média geométrica da CPP fora do padrão estabelecido. No entanto, fazendo adequações, o estabelecimento poderá ter o recolhimento de leite retomado.

'À medida que evoluirmos para os patamares estabelecidos, seremos mais competitivos nos mercados interno e internacional', diz o gestor do APL Leite Fronteira Noroeste, Diórgenes Albring
O gestor do APL Leite Fronteira Noroeste (Arranjo Produtivo Local), Diórgenes Albring, considera que, em virtude de investimentos que serão necessários nas propriedades, alguns produtores terão dificuldades em se adequar às novas normas estabelecidas pelo Mapa, mas vê as regras como de fundamental importância.
Para ele, que também é produtor de leite, "jamais podemos esquecer que estamos falando de um alimento, que deve apresentar características mínimas de qualidade". O gestor lembra que o leite é um alimento de grande importância e matéria-prima para diversos produtos que estão no cotidiano das famílias.
"Os novos critérios têm uma importância estratégica para a cadeia produtiva do leite de todo o país", afirma o gestor. "À medida que evoluirmos para os patamares estabelecidos, seremos mais competitivos nos mercados interno e internacional", ressalta.

O gestor do APL Leite Fronteira Noroeste (Arranjo Produtivo Local), Diórgenes Albring

Propriedade que estiver fora dos padrões não terá recolhimento do produto, independentemente do volume de leite, alerta Diórgenes
Diórgenes recorda que por meados de 2002 se iniciou um aceno do Mapa de que a cadeia produtiva deveria ser mais eficiente quanto a implementações de práticas que viessem a oportunizar maior qualidade no leite, com a criação da Instrução Normativa 51.
Desde então, os produtores e todos os agentes da cadeia produtiva no Brasil estão evoluindo, avalia. "Mas, com a vigência das novas normativas, o Mapa está dizendo que, apesar de ter havido evolução, não foi na velocidade esperada para tornar o leite brasileiro competitivo ao mercado internacional", considera.
Por meio da fiscalização nas indústrias, explica ele, o Mapa quer garantir que as indústrias que não atendam aos critérios estabelecidos sejam parceiras dos produtores e transportadores na adoção de práticas que garantam a qualidade exigida, caso contrário as indústrias estarão impedidas de comercializar e os transportadores estarão impedidos de recolher o leite no produtor que estiver fora do padrão de qualidade, independentemente do volume de leite que estiver em jogo.
"Isto quer dizer que, se o produtor tiver 2 mil litros de leite por dia e não atender à qualidade, ele estará proibido de vender o leite até que resolva o seu problema. Já o produtor de cem litros por dia que está com a qualidade de acordo com as exigências poderá vender o leite tranquilamente", finaliza.

Regras abrangem aspectos como a organização da propriedade rural, suas instalações e equipamentos

'Para se produzir um leite de qualidade, é preciso entender o que é um leite de qualidade e como avaliar esta qualidade', frisa engenheira agrônoma, associada da Unitec, Patrícia Simon
A engenheira agrônoma Patrícia Simon considera que, "para se produzir um leite de qualidade, é preciso entender o que é um leite de qualidade e como avaliar esta qualidade".
Patrícia, associada da Unitec (Cooperativa de Técnicos do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul), também é pós-graduanda em Produção de Bovinos de Leite e mestranda em Desenvolvimento Rural, e atua no projeto Assistência Técnica e Gerencial de Bovinocultura Leiteira do Senar-RS.
"Cada análise realizada tem uma razão para ser feita e fornece informações importantes que devem ser utilizadas para tomar decisões. A dica é monitorar sempre os resultados obtidos, avaliar o que deu certo e o que não deu e agir o mais rápido possível", enfatiza.
A engenheira agrônoma Patrícia Simon

'A dica é monitorar sempre os resultados obtidos, avaliar o que deu certo e o que não deu e agir o mais rápido possível', analisa a profissional
Em relação à contagem bacteriana total (CBT) nas propriedades, que é um dos temas das novas normas do Mapa, as primeiras recomendações de Patrícia quanto à obtenção de índices satisfatórios são o manejo da ordenha e a limpeza da sala de ordenha.
Ordenhar tetos limpos, secos e bem estimulados e fazer uma boa higiene antes da retirada do leite são ações que diminuem as chances de contaminação - a contaminação do aparelho mamário pode ser fator determinante para resultados insatisfatórios de contagem bacteriana total.
Outro ponto que merece atenção é a limpeza dos utensílios e equipamentos de ordenha e organização das instalações, e também devem ocorrer uma manutenção e a revisão periódica do equipamento de resfriamento do leite.
Entre as causas para o aumento da contagem de células somáticas (CSS), outro tema das normativas, podem ser citadas as mastites clínica e subclínica. Patrícia explica que a infecção da glândula mamária é o fator que mais afeta a CCS do leite. Vacas livres de infecção apresentam CCS significativamente menor do que as vacas infectadas.
A engenheira agrônoma destaca que higiene na ordenha é essencial para a diminuição da CCS. "Seguir uma rotina adequada no momento da ordenha poderá garantir a obtenção de um leite seguro e de qualidade, além de prevenir a ocorrência de mastite", diz ela, mencionando também que devem-se fazer manutenções dos equipamentos conforme as instruções do fabricante, como a regulagem de vácuo e do sistema de pulsação.

O que são CBT e CCS?
CBT é a sigla para contagem bacteriana total. Os níveis de CBT são reflexo das condições de higiene na ordenha e do armazenamento do leite. A CBT indica a contaminação do leite por bactérias: quanto menor a contagem, maior rigor higiênico existiu nas etapas de obtenção do leite.
Já CCS é a sigla para contagem de células somáticas, uma ferramenta que indica a saúde da glândula mamária de vacas leiteiras. Essas células aumentam em quantidade no leite em casos de inflamação e infecção, como, por exemplo, na ocorrência de mastite (que é uma inflamação da glândula mamária).
A CCS apura a quantidade de células presentes no leite, sendo uma parte proveniente do tecido interno do úbere e outra de células de defesa do animal: quando as bactérias causadoras da mamite atacam o úbere, as células de defesa passam do sangue para o úbere para combater essas bactérias.
Quanto mais intenso for o ataque destas bactérias, causadoras de mastite, maior será a contagem de células somáticas no leite.



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