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Falta um mundo mais gentil para o autismo, diz especialista

19/07/2019 - Por Jornal Semanal
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Neuropsicopedagoga e ortopedagoga Katrien Van Heurck, de Campinas, esteve em Três de Maio na última semana a convite da Apae

A Apae de Três de Maio promoveu na última semana, na noite de quinta, 11, uma palestra com a neuropsicopedagoga, ortopedagoga e especialista em autismo e deficiência intelectual Katrien Van Heurck, de Campinas (SP). O tema da palestra, realizada na Câmara de Vereadores, foi "Autismo: e agora?".
Natural da Bélgica, Katrien, em 1990, desenvolveu em seu país natal um trabalho para pessoas com autismo e outras deficiências. Ela veio ao Brasil pela primeira vez em 2005 e se mudou para o país em 2011, passando a morar, na época, em Poços de Caldas (MG), onde começou a trabalhar como coordenadora em atividades para crianças e jovens com autismo.
Para a palestrante, o que falta hoje é um mundo mais gentil para o autismo, em que as pessoas comecem a conhecer o outro. "Tem muito preconceito. Falta respeito para ser diferente. Não somos perfeitos e devemos aceitar o outro como ele é, aceitar as diferenças. Nós temos que nos adaptar a eles para depois sermos capazes de educá-los", disse.
"Não podemos ter medo e ficar presos em preconceitos. Vamos conseguir vencer isso conhecendo mais sobre autismo e saindo da zona de conforto. Pergunte, tente ajudar, mas não ignore essas pessoas e suas famílias. Abra seus olhos e comece a enxergar o autismo como algo normal. Será difícil, mas não impossível", acrescentou.
Ela ainda avaliou que "falta, também, capacitação para profissionais e professores, conhecimento dos pais em relação ao autismo e médicos mais humanos que explicarão melhor o que é o autismo".

Natural da Bélgica, Katrien (d) passou a trabalhar com o autismo na década de 90 e reside no Brasil desde 2011


'Autismo não é agressividade, não é comportamento inadequado'
O autismo, cientificamente conhecido como Transtorno do Espectro Autista (TEA), é caracterizado por problemas na comunicação, na socialização e no comportamento, sendo geralmente diagnosticado entre os dois e os três anos de idade.
"Autismo não é agressividade, não é comportamento inadequado nem pessoas mal-educadas. Autismo é amor e carinho. Mas, para conseguir isso, é necessário conhecer a pessoa autista e se vincular a ela, criando laços amorosos e a acolhendo", ressaltou Katrien.
Ela lembrou que o autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento e que, por isso, o cérebro do autista não funciona como o de outras pessoas. O transtorno já aparece durante a gravidez, uma vez que o cérebro é o primeiro que começa a se desenvolver.
"As causas do transtorno ainda são uma incógnita. É uma disfunção neurológica, que pode ocorrer por questão genética, mas hoje os fatores ambientais também podem ser causadores."

'Precisamos começar a usar as qualidades que eles têm'
A profissional destacou que crianças com autismo têm potencialidades e habilidades diferentes, mas que demoram a ser demonstradas. Porém, frisou Katrien, autistas são caixinhas de surpresas. "Precisamos começar a usar as qualidades que eles têm. Todos têm potencial; por isso, não vamos nos focar nas limitações."
Katrien diz que temos a sensação de corrigir, falar o que não pode, mas que a negação para o autista não surte tanto efeito.
"Eles não sabem o que têm que fazer porque precisam enxergar o que fazer. O mundo atual para eles é difícil, porque as pessoas falam demais, querem explicar tudo por meio da fala, mas isso só cria mais caos na cabeça deles. O autista não consegue captar todas as palavras na hora. Por mais que falemos, palavras são abstratas. Autistas precisam de exemplos e não de palavras", disse.
"Autista precisa de firmeza, regras e limites. Não podemos tratá-los com dó, porque eles não são coitadinhos, apenas precisam de nós para podermos mostrar do que são capazes", reforçou.

Profissional se reuniu com pais de alunos
Na manhã de sexta, 12, pais de alunos com autismo da Apae participaram de uma roda de conversa com Katrien sobre o tema "A percepção autista: uma percepção sensorial".
Participaram do encontro 20 pais, que puderam se apresentar e também falaram de seus filhos, trocando experiências e sanando dúvidas com a profissional. Também estiveram presentes profissionais da saúde da Apae e a diretora pedagógica da instituição, Simone Rossi Tiecher.
Katrien explicou aos pais que o autismo não é algo de outro planeta, mas sim que se trata de pessoas com habilidades diferentes. "Temos que descobrir quais são essas habilidades e trabalhar em cima disso. E não é somente na escola, mas também na família, já que é com vocês que o filho fica a maior parte do tempo."
Outro ponto abordado pela profissional foi em relação ao exemplo dos pais. A ortopedagoga comentou que muitos autistas são agitados porque não entendem o que é para fazer em determinadas situações. Logo, os pais precisam ensinar e mostrar.
"O autista precisa do exemplo dos pais. Ao fazerem as refeições, vocês precisam comer junto com o filho para que ele veja. Digo que 'ver comer faz comer'. Muitas crianças com autismo só comem determinados alimentos. Por isso, a introdução de novos alimentos precisa ser aos poucos", detalhou.



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