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A escolha de permanecer no campo

29/07/2019 - Por Jornal Semanal
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O amor pela agricultura que passa por gerações
A decisão do jovem Juliano, 25 anos, de permanecer no campo foi fundamental para a atividade rural ter continuidade na propriedade da família de Hilário Roberti, em Esquina Pértile
Casal de namorados Alana Rost e Juliano Roberti mora em Esquina Pértile, interior de Três de Maio, na propriedade dos pais dele, Hilário e Carmen Roberti


Aos 25 anos, Juliano Roberti, técnico em Agropecuária, está convicto em seguir a vocação familiar. Embora o mundo aqui fora, na cidade, possa oferecer oportunidades diferentes das quais já está acostumado, a sua decisão é dar continuidade ao trabalho na agricultura; um legado que vem desde a geração dos avós e ainda perpetua entre os pais, Hilário e Carmen Roberti, agricultores da localidade de Esquina Pértile, interior de Três de Maio.
Ao terminar o curso técnico na Setrem, tendo mais qualificação, ele decidiu aplicar a teoria na prática e permanecer no meio rural, pois percebeu que os pais não dariam conta de tudo sozinhos. Ou ele ajudava nos negócios da família ou poderia estar contribuindo para que os pais abandonassem o campo de vez.
A paixão pelo meio onde Juliano viveu a vida toda falou mais alto e ele decidiu permanecer na agricultura. "Gosto daqui, minha raiz é no interior. Fiz o curso para me qualificar e mesmo surgindo proposta para trabalhar na cidade, optei por ficar no interior."
Há um ano, o trabalho na propriedade ganhou reforço da namorada de Juliano, que veio morar com ele. Alana Rost, 21 anos, que é da cidade de Horizontina, não tinha nenhum contato ou experiência com a atividade rural. Aos poucos, ela foi aprendendo e garante que hoje já está adaptada. O jovem casal sorri, contente, ao planejar o futuro. "Pensamos na qualidade de vida que o interior proporciona; a simplicidade, os bons costumes; o contato com a terra, o meio ambiente e os animais. Pensamos em criar nossos filhos aqui e permanecer no meio rural", afirmam.

Homens cuidam das lavouras; mulheres ficam com a atividade leiteira
No dia 28 de julho é comemorado o Dia do Agricultor, profissão que une trabalho, amor, dedicação e luta. Como é o caso da família de Hilário e Carmen Roberti, ambos com 55 anos e casados há 35 anos.
Oriundos de famílias de agricultores, eles nunca moraram na cidade. Juntos, criaram os filhos Juliano e Juniara, 32, na propriedade rural. "A filha foi estudar na cidade e ficou morando lá", conta Carmen, revelando que já é avó de Arthur Gabriel Wisneski, de nove meses, filho de Juniara, que é casada com Ronaldo Wisneski. 
Carmen diz ainda que ela e o esposo estão bastante felizes que o filho optou por permanecer no meio rural. "Se ficasse só a gente, não ia ter como dar continuidade, principalmente com o leite", informa.
Atualmente, a renda da família provém da atividade leiteira e das lavouras de grãos. No total, são 52 vacas leiteiras. Nas lavouras, são cultivados 75 hectares de terras. As tarefas da casa são divididas: os homens cuidam das lavouras; as mulheres da atividade leiteira.
Mesmo com os recursos tecnológicos, o leite demanda serviço e Carmen ensina (e ajuda) a nora a desempenhar as tarefas diárias com as vacas. "Ela aprendeu rápido, mesmo vindo da cidade, em que realidade era bem outra", afirma a sogra.
Sobre a atividade leiteira, Juliano ressalta que muitos não tem ideia de como ela é desenvolvida; "é muito mais que comprar um litro de leite no supermercado". "É um trabalho contínuo". O pai completa: "o ponto negativo do leite é que não existe um dia de folga durante o ano. Fazemos o serviço de manhã e de tarde tem que ser feito de novo".
Hilário cita, ainda, uma realidade bastante preocupante da agricultura. Muitos abandonam o campo por falta de mão de obra. Os filhos não ficam e os pais acabam indo morar na cidade".


O Censo Agropecuário de 2017, o último realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que a representatividade dos jovens com idade entre 25 anos e 35 anos em áreas rurais caiu de 13,56% para 9,48% entre 2006 e 2017. O percentual correspondente ao grupo entre 35 anos e 45 anos nos campos também diminuiu: de 21,93% para 18,29%, no mesmo período.

Plantar, ver crescer e colher os resultados do trabalho
Aos 55 anos, Hilário já vivenciou várias fases no meio rural. Ele segue a tradição, mas ressalta que viu muitos agricultores saindo do interior, abandonando as propriedades, porque não deixaram sucessores. "É muito difícil. E isso gera preocupação, porque o que vai ser daqui uns anos, a questão dos alimentos, do leite, da agricultura e pecuária", questiona.
Juliano aborda outra questão, a de que, na atualidade, revela que já se observa uma tendência de propriedades maiores, mais tecnificadas e com menos pessoas trabalhando. "Mas a nossa região tem tradição do agricultor familiar, mas não sabemos o futuro. Vamos torcer para que mais pessoas permaneçam no meio rural."
Para a família, é unânime o sentimento de amor pelo que se faz. Eles falam com orgulho de viver e sobreviver da agricultura. "A gente planta, vê crescer e vai colher os resultados do nosso esforço, do nosso trabalho. Isso é muito bom, é gratificante", destaca Juliano. 
Com a renda na agricultura, os Roberti conciliam os compromissos e com o que sobra, investem em melhorias na propriedade, visando maior rendimento das atividades e uma melhor qualidade de vida para a família. 
Atualmente, eles recebem em torno de R$ 1,35 o litro de leite. É considerado um preço razoável, segundo Hilário. E, a média de produção por dia é de 550 litros. 
Com um sorriso no rosto, Carmen relata que a maior riqueza que eles têm é a família, o amor pela agricultura e pela história que construíram e continuam construindo. "Esperamos que as novas gerações permaneçam na agricultura, valorizem o campo, pois apesar das dificuldades, vale a pena", aconselha. 
E a alegria é maior ainda ao ver a filha Juniara, levar o pequeno Arthur Gabriel, visitar a propriedade. "Quando ela vem, é lindo ver a alegria do nenê olhando os bichos, as vacas; cachorro, gato; tudo ele adora. É uma realidade diferente da cidade. Quanta história temos para contar para o nosso neto e para os outros que virão", conclui Carmen.

Os namorados Alana Rost e Juliano Roberti; e os pais dele, Carmen e Hilário Roberti, moram em Esquina Pértile, interior de Três de Maio

Pesquisa realizada pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) - com 743 filhos de agricultores no Estado, com idades entre 13 e 21 anos -, aponta os fatores pelos quais os jovens desejam permanecer ou não na agricultura
FATORES DE INFLUÊNCIA
Entre os que decidiram ficar na propriedade rural
- Quantidade de terra que os pais têm
- Boa remuneração das atividades
- Investimentos feitos pelos pais na propriedade (tecnologia e melhorias em geral)
- Incentivo de políticas públicas
- Autonomia dada pelos pais para participar das decisões
- Relações de confiança com vizinhos e comunidades
- Possibilidade de alimentação e moradia barata

Entre os que decidiram sair da propriedade dos pais
-Baixo investimento dos pais na propriedade (tecnologia e melhorias em geral)
- Vergonha de ser agricultor
- Falta de incentivo de políticas públicas
- A ideia de que a a agricultura não dá dinheiro
- Presenciar reclamações constantes dos pais sobre a atividade
- Não gostar da agricultura, não se identificar com a profissão
- Herdeiros precisam se profissionalizar

O levantamento, realizado no ano passado em todas as regiões gaúchas, mostra os determinantes do interesse e da falta de vontade em serem sucessores familiares na atividade agrícola.

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