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"Otimista é aquele que vê oportunidade diante da dificuldade, porque desafia-se a ser melhor"

28/03/2020 - Por Jornal Semanal
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Psicóloga Arlete Salante fala sobre a importância da flexibilidade e de se reinventar em tempos de pandemia
A quarentena voluntária, em que muitas pessoas estão afastadas do trabalho, ou trabalhando de casa para evitar o coronavírus, tem proporcionado mais tempo para pensar na vida, coisa que pouco se faz na correria do dia a dia. As preocupações com o futuro, com o trabalho, com a empresa tendem a ocupar o pensamento, ainda mais com o cenário que se desenha com a economia do Brasil e do mundo. 
O Jornal Semanal conversou com a psicóloga, psicoterapeuta, e consultora empresarial, Arlete Salante, sobre como aproveitar e enfrentar o momento que estamos vivendo. Arlete é doutoranda em Psicologia na UCES - Buenos Aires/AR; pós-graduanda em Ontopsicologia - pela Antonio Meneghetti Faculdade/RS; tem MBA - Business Intuition, pela Antonio Meneghetti Faculdade/RS e é especialista em Psicologia Clínica pelo Instituto de Gestalt-Terapia de Brasília/DF e em Política e Gestão de ONGs pela UNB - Brasília/DF. 
Ela explica que estamos vivendo um momento de mudanças rápidas, onde a capacidade de adaptação vai fazer a diferença. "Tudo está mudando para todos nós humanos. Todas as pessoas, profissões, empresas e instituições estão diante da necessidade de lidar com essa mudança planetária, que está muito além da covid-19. Está nitidamente ocorrendo uma expansão de consciência, uma ruptura com modelos obsoletos e desfocados da realidade e do tempo atual", explica.

Neste tempo de pandemia onde se vê problemas agora e no futuro, como manter-se otimista e com saúde mental?
Este é um momento complexo que abre muitas questões até então não resolvidas ou precariamente arranjadas, seja por comodismo, falta de posicionamento, empenho ou mesmo clareza sobre como resolver os próprios problemas. 
A situação da pandemia provoca mudanças rápidas, criatividade, flexibilidade, adaptação e aceitação daquilo que é impensável.
Provoca em todos a necessidade de reorganização para evitar danos físicos e econômicos. Porque é preciso lucidez e proatividade. Isso significa relação com o real sem fantasias ou justificativas, antecipação e responsabilização pelas próprias escolhas diante de situações que o meio coloca.
Há muito tempo já se fala em inovação e quem resiste terá mais problemas, porque o mundo mudou e não é possível criar um mundo próprio. Vivemos em sociedade e para a sociedade humana, ou se adapta às mudanças ou está fora do jogo e da vida como ela é, e avança, evolui diante do caos.
Manter-se otimista e com saúde mental é uma condição para quem já vêm em processo de transformação e autoconhecimento, quem é mais flexível se adapta ao novo, sem reclamar ou achar culpados. Otimista é aquele que vê oportunidade diante da dificuldade, porque desafia-se a ser melhor.
Em outras palavras, quem usa a inteligência, uma vez que este conceito dentro da Psicologia remete a capacidade de adaptação, de ler dentro de si o que o meio pede, depois age conforme.
Se a ameaça de pandemia coloca todos para dentro de casa, o que simbolicamente é muito significativo, temos a oportunidade de olhar para dentro, onde muitos problemas relacionais e familiares, precisam ser tratados e transformados para o desenvolvimento de todos.
Mas, antes de otimismo, eu desejo profundamente que cada pessoa seja honesta consigo mesma. Porque este é um tempo altamente propício a atenção ao autoconhecimento, a rever comportamentos, formas de pensar e de como a vida está sendo conduzida. Se trata de dar valor à própria existência e não apenas sobreviver. Toda ameaça à vida serve como oportunidade para reavaliar o modo de vida que cada pessoa adotou, o quanto é útil e funcional à própria identidade.
O quanto cada um está fazendo valer a oportunidade de estar neste planeta, como contribui de verdade para a sociedade, e só podemos fazer isso se antes houver um desenvolvimento próprio, porque ninguém pode dar o que não têm.

Como os indivíduos respondem a essas restrições? Quais os efeitos psicológicos à mudança da rotina e a restrição da mobilidade que estamos enfrentando? 
Vejo que as restrições estão sendo bem aproveitadas por pessoas que se abriram e estão entendendo que pode haver mais ganho que perda, muitas pessoas estão trabalhando mais porque ocupam o tempo para reorganizar a casa, desapegar-se do que não têm uso, cozinhar, ler, estudar, atender aos filhos com mais qualidade, viver com mais qualidade os laços afetivos, dando atenção, brincando com os filhos, se divertindo, conversando mais sobre a organização da casa e da vida, dividindo as tarefas domésticas... Nos atendimentos em psicoterapia (na quarentena somente online) tenho trabalhado a reflexão sobre o ponto de evolução que elas estão vivenciando. As respostas são excelentes, e isso confirma a grande oportunidade de mudança e transformação.
Mas vejo pelas redes sociais, as quais utilizo para divulgar meu trabalho e levar mensagens de desenvolvimento humano, que muitas pessoas estão para fora, perdendo a oportunidade de resolver questões pessoais, ainda numa perspectiva alarmista, ou negando a realidade e fechadas para o problema mundial. Há muito sofrimento, certo desespero e uma desorganização emocional. Porque tudo aquilo que estava apenas precariamente 'arranjado', num momento em que é necessário lidar com o real, desmorona. Falta uma ordem de si, falta um propósito existencial maior, e também, falta a muitas pessoas resolver, ressignificar seus conflitos... Os sintomas que surgem como ansiedade, medo, pânico, raiva, apatia, tristeza, obsessão por notícias, compulsão alimentar ou por redes sociais, dentre outros sintomas, são efeitos da falta de condições internas de adaptação a uma nova realidade que a vida coloca. É algo inimaginável, assim como, quando perdemos alguém repentinamente e tudo muda.

Em sua opinião, qual será o resultado de tudo que estamos vivendo?
Tudo está mudando para todos nós humanos. Todas as pessoas, profissões, empresas e instituições estão diante da necessidade de lidar com essa mudança planetária, que está muito além da covid-19. Está nitidamente ocorrendo uma expansão de consciência, uma ruptura com modelos obsoletos e desfocados da realidade e do tempo atual. O reflexo direto de viver 'fora de si' é a desconexão, por isso voltar à casa interna, se rever é fundamental. Porém, isso faz com que se mude os comportamentos, as formas de relacionamento, de negócio, mas sem neurose ou paranoia, o momento pede inteligência, inovação, criatividade...
Há oportunidade de ganho a quem está preparado para viver o mundo digital, ou também de perda para aqueles negócios que resistem em se colocar online. Querendo ou não, novas linguagens se desenvolvem via inteligência artificial e cada pessoa lidará com isso daqui para frente cada vez mais.
Espero que seja de grande evolução humana, na medida em que as escolhas pessoais sejam assertivas, porque elas refletem no social. A sociedade é formada por pessoas que escolhem ficar fixas no que já conhecem com medo ou preguiça, e por pessoas que transcendem os obstáculos, pagam o preço de se desenvolver e abandonar os paradigmas ultrapassados, por isso cada pessoa precisa se rever.

Sugestões Práticas:
- Invista no seu desenvolvimento psicológico, procure uma psicóloga, porque só fazendo psicoterapia se vai na origem dos sintomas ou problemas e usa isso para se melhorar e retomar a própria força para assertividade;
- seja prudente e tome medidas plausíveis conforme SUA saúde pede;
- Evite o alarmismo e disseminar o 'vírus do medo', este baixa a imunidade física;
- Evite ficar ligado no noticiário buscando se alimentar de tragédias, porque dá espaço para viver mais e mais o medo;
- Evite discutir sobre o CERTO e o ERRADO neste momento, porque é mais funcional investir esta energia em olhar para si e evoluir, do que olhar para opinião dos outros e discordar ou achar que mudará a opinião dos outros. Quando cada pessoa se responsabiliza por si a sociedade flui melhor.
- Aproveite a quarentena para se ocupar de atividades saudáveis, que agreguem valor à sua existência, que faça ela valer a pena, e torne-se um HUMANO melhor para si, mais generoso consigo e com as pessoas a sua volta.





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