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Idosos

21/06/2013 - Por Marcos Salomão
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Eles chegaram cedo ao cartório. Queriam falar diretamente comigo. Um casal de idosos. Aparentavam mais de 70 anos e muito lúcidos. Ele com a voz engasgada, chateado, ela puxava a frente, querendo conhecer "seus diretos".
- O sr. que é o Salomão?
- Sim senhora. Posso ajudar?
- Meu marido tem câncer e teve que ir a Santa Rosa algumas vezes. O genro sempre acompanhou ele com o carro da prefeitura. Eu sempre queria ir, mas o genro disse que iria acompanhá-lo. Foram umas 15 vezes. Daí a gente quis pagar alguma coisa para o genro, mas ele não quis receber. Agora, passado uns dias, ele quer nos cobrar, e quer cobrar bem. Ele quer uma parte das nossas terras. Está certo isso?
- Calma. Deixa eu entender. Ele é casado com a filha de vocês e...
- Isso! Mas ela não fala nada. Vai falar o que. É marido dela. Só que o vô tá doente e sempre quis acertar. Nós temos outra filha que mora longe daqui, casada, ela está vindo semana que vem para nos levar embora, morar com ela, mas o genro diz que nós temos que pagar ele antes de ir e quer parte da nossa terra. E se a gente for, tem que pagar a outra filha também?
- É dever dos filhos cuidar dos pais na velhice. Isso está na Constituição.
(Silêncio)
- O que a gente faz? Nós podemos trazer o genro aqui, junto com as minhas filhas e resolver isso. Colocar no papel o que a gente tem que acertar. O sr. nos ajuda?
- Vamos marcar para segunda-feira 14h30. Venham todos. Genro, filhas e vocês.
- Nós temos 3 genros.
- Traz todos!
O idoso então começou a chorar. Talvez jamais tivesse imaginado que na velhice teria que passar por uma situação dessas. Ela puxou um lenço e lhe enxugou as lágrimas. Pegou ele pelo braço e disse que retornariam na segunda.
Aquilo não saiu da minha mente todo o final de semana. Pensava sozinho: todos vamos envelhecer. E precisaremos de cuidados. O que o futuro nos prepara?
Na segunda-feira, no horário marcado todos estavam lá. Os idosos vieram com seu próprio carro. Ele dirigindo. Admirável. Os outros familiares vieram, cada um com seu carro. Trouxeram dois netos juntos. Sentamos para conversar e ouvi todos. Ao final, com muito jeito, fizemos um acordo e documentamos tudo. Se abraçaram e saíram todos satisfeitos. Após o acerto financeiro entre eles e sobre quem cuidaria dos idosos dali para frente encerrei desta forma:
- Eles cuidaram de vocês na infância e agora precisam de cuidados. A Constituição Federal e o Estatuto do Idoso preveem que os filhos devem cuidar dos pais na velhice. Vocês todos envelhecerão, assim como eu, e precisarão de cuidados. Se não cuidarem direito, o idoso pode reclamar ao Ministério Público e inclusive, se passar necessidades, pedir pensão para vocês. Portanto, assumam suas responsabilidades e cuidem de quem cuidou de vocês. É o mínimo, como filhos, que vocês devem fazer.
Antes de ir embora ambos os velhinhos me abraçaram e ele disse que não sabia que o idoso tinha estes direitos. Cheguei em casa, abracei Elis e disse:
- Hoje eu ganhei meu dia. E agradeço ao Universo por me colocar nestas situações. Segue a vida. Amanhã é outro dia...




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