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Os venenos nossos de cada dia

23/09/2013 - Por Jornal Semanal
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 *Jorge João Lunardi
Usar venenos faz bem para alguém? Com certeza qualquer pessoa equilibrada e que preze a vida, dirá que não! Mas, então por que se usa muito veneno, dentro de casa? Nas lavouras? Nas criações? Nas ruas? Nas cabeças de crianças? Nos pátios para matar os cães?
Obviamente, a resposta é porque existe necessidade de combater algum ser vivo que anda incomodando e trazendo doenças ou prejuízos econômicos, por exemplo, fungos, insetos, ervas nocivas, na lavoura de soja, de milho, de trigo, na horta, no pomar... ou nos animais atacados por carrapatos, bernes, moscas, piolhos, pulgas... ou crianças com piolhos na cabeça...ou os mosquitos da dengue que precisam ser controlados por venenos (pasmem! Pulverizam  ruas, casas, pátios com presença de seres vivos, inclusive pessoas como mulheres grávidas, que amamentam, idosos, crianças, doentes), ou porquê tem inço na rua, ou por que dentro de casa existe os pernilongos, as moscas, as baratas, os borrachudos...ou porque tem um cão que anda incomodando alguém... Aliás, sempre tem um por que para aplicar veneno!
E aí, a maioria quer combater estas "pragas" e passa a usar venenos (que são tratados como biocidas, agrotóxicos, antiparasitários, defensivos agrícolas, pesticidas...), de forma abusiva, indiscriminada, permanente, em grandes rebanhos ou milhares de hectares de lavouras na mesma época, sem controle, sem receituário profissional, com compra em qualquer boteco, sem ler bula, sem observar cuidados ambientais, sem proteção individual... E a fara do veneno continua!
Mas alguém pode dizer! - Os venenos são legalizados pelo MAPA, ANVISA, o ex-presidente Lula viabilizou através de lei o uso dos questionados e suspeitos transgênicos (Ah! Ele talvez só come os produtos orgânicos e o povão que se lixe!).
Aí poderia dizer, mas quem controla seu uso? E, os venenos "contrabandeados" como ficam? Existe fiscalização permanente para coibir a entrada destas substâncias que aqui no Brasil já existem em demasia? Quantos mil litros ou toneladas de venenos/ano não entram, ilegalmente, num mercado negro de agrotóxicos, pela costa do Rio Uruguai, ou vem de outros países limítrofes com o Brasil, a exemplo do Uruguai, Paraguai, Argentina?
E quem é que está preocupado com a Saúde Pública? Será que veneno gera problema de doença?
Olha, pela forma que se usa e se abusa desta tecnologia até dá a impressão que os venenos são substâncias que nada tem a ver com câncer, suicídio e depressão (três pragas que temos na região e que muitos levam na flauta), alterações metabólicas, hormonais, mentais, emocionais, teratogênicas, liquidam células, órgãos, tecidos dos corpos humanos... Até a ciência tem demonstrado preocupações, mas que o povo e suas representações estruturadas nada ou pouco fazem para diminuir o uso, já que o fator produção/produtividade impera e, tem valor maior que a preservação e sustentabilidade da vida.
Dá para considerar fato normal usar na nossa região, em torno de cinco milhões de litros de veneno/ano na cultura da soja? Ou em torno de 200 mil litros de venenos/ano, em vacas de leite? A exemplo do Fipronil (detona a glândula tireoide e dá problemas de reprodução humana e animal); o Clorpirifós (dá problemas cognitivos nas pessoas como alterações de comportamento, aprendizagem e memória); o Amitraz (convulsões); piretróides (alergias, pulmonares e nervosos).
Colocar brincos com venenos nas orelhas de vacas e que atuam por cinco meses, sem ter um dia de carência para consumo do leite? Perguntem para os colonos se deixam de vender o leite por alguns dias depois de aplicar veneno nas vacas, alias a cadeia do leite está mais preocupada com as células somáticas e os micróbios, e com alguns adulterantes (ureia, formol...), que com os venenos, que talvez, sejam tão ou muito mais perigosos para a saúde pública, já que nem a pasteurização do leite a 142ºC eliminam estes componentes nocivos.
Será que os diversos venenos que estão aparecendo no seio de mulheres brasileiras estão vindos de onde? Da lua é que não! Devem estar vindo "de brinde" na alimentação (hortaliças, verduras, frutas, leite, carnes, água...).
Alias, quando fazem por aí, campanhas de combate a violência feminina, por sinal muito oportunas e legitimas, não se esquecem de considerar o uso dos venenos como uma das maiores agressões que se comete na nossa região envenenada, com o mundo feminino, pois atingem mulheres grávidas, ou que amamentam, e isto é doença premeditada.  Dificilmente, em épocas de aplicação de veneno, que milhares de agricultores fazem ao mesmo tempo, vê-se a retirada deste meio contaminante, das mulheres gestantes e que estão amamentando. Isto é doença premeditada.
E, as crianças escolares não estarão recebendo nutrição escolar com resíduos microbiológicos (usa-se estercos como adubos de hortaliças), resíduos tóxicos, como venenos, antibióticos, hormônios? Usa-se muito veneno, antibióticos, antiinflamatórios, hormônio de crescimento e reprodutivo em vacas leiteiras, além de um arsenal químico em produtos vegetais.  Alguém controla isto?
E, as pessoas que tem o costume de aplicar venenos nos cães e logo após convivem com estes pequenos seres é bom terem mais cuidados, pois o veneno aplicado no animal pode ser absorvido por pessoas da família. Aplicar Piretróide, Fipronil, Clorpirifós no cão e, os familiares pegá-lo no colo, acariciá-lo, tocá-lo, beijá-lo não é atitude salutar, isto é burrice que pode gerar doença braba.
A Emater do governo atual, que não depende da venda de químicos, (imagina só as outras instituições que dependem da venda dos venenos), fala muito "da boca prá fora" em sustentabilidade, mas trabalha pouco na prática, com propostas de diminuir químicos, a não ser com iniciativas e trabalhos de uma minoria de extensionistas que não tem medo de pressão, a exemplo de muitos ex-colegas, e de mim, que estive lá por 34 anos criando e efetivando propostas de produção limpa de leite com uso de plantas medicinais, homeopatias, probióticos, prebióticos, enzimas, manejo sanitário, bem estar animal, normas de produção orgânica, pastoreio rotacionado (o qual introduzimos na região, em 1998, em 5.000 propriedades rurais).
Recentemente, continuamos a fazer o trabalho educativo, (embora sentindo o desdém, a desvalorização, ou desprezo gerencial da Emater Santa Rosa por este trabalho), para o controle biológico do carrapato a exemplo de retirar com a mão, a fêmea do carrapato de cima da vaca (que parece um grão de feijão ou de mamona), queimar ou enterrar, com isto a fêmea não cai na pastagem, não bota ovo (uma fêmea bota em média três mil ovos), não nasce larva, limpa a pastagem, não dá carrapato na vaca e não precisa usar veneno na vaca e aí não sai veneno no leite. Entenderam? Pois, isto é mais velho que minha avó Pina, que com sua sabedoria me ensinou e, que as faculdades modernas cheias de doutores e diplomas, não têm competência para ensinar para seus alunos. E isto é tecnologia simples, barata, sustentável e que não contamina. Por que então o sistema de produção não adota isto com mais intensidade?
Enfim, é preciso que a ciência privada ou pública (é bom que a EMBRAPA, A FEPAGRO saiam da toca e digam para que vieram), se aprofunde em pesquisas, mas de forma mais rápida e não na forma atual que é no andar das tartarugas, criando tecnologias mais limpas, disponibilizando a uma grande parcela dos nossos agricultores, para que estes diminuam os venenos, tenham maior consciência de seus perigos, e consigam manter a natureza, especialmente o ar, a água e a terra livres destas contaminações, podendo com isto,  produzir alimentos mais limpos, orgânicos, não só para os que têm poder maior de compra, mas para todos, que merecem manter seu corpo, sua mente e suas emoções de uma forma mais saudável e sustentável.
*Médico Veterinário



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