Domingo, 30 de abril de 2017
Ano XXIX - Edição 1454
(55) 3535-1033
jsemanal@jsemanal.com.br
diagramacao@jsemanal.com.br

Rádio e Jornalismo: histórias e sonhos

30/09/2013 - Por Jornal Semanal
Tweet Compartilhar
Nesta quarta-feira, dia 25 de setembro, comemora-se o Dia Nacional do Rádio. Profissional habilitado para trabalhar com os vários aspectos que envolvem a produção e conteúdo para o referido meio de comunicação, o radialista também pode ser alguém que assume funções específicas, como a locução, apresentação, técnica, reportagem, etc.
Entre tantas faces que o rádio possui, uma delas carrega grande diversidade de histórias, que quebram as barreiras da empresa e abrem as portas do rádio para o povo, além de promover a realização de sonhos e metas. Essa face é a do rádiojornalismo.

Participação popular
A atuação do profissional por trás do microfone definitivamente ultrapassa as fronteiras do estúdio e, às vezes, não apenas influencia os acontecimentos como também até gera a própria notícia. Como repórter da Rádio Cidade Canção FM de Três de Maio, Antônio de Oliveira vivenciou momentos nos quais a relação rádio/ouvinte foi determinante em situações de risco.
Uma história marcante para o radialista ocorreu no dia 15 de junho de 2005, quando o município de Crissiumal foi atingido por um forte temporal de granizo, que arrasou cerca de 2mil residências: "Abri a rádio naquele momento, por volta de 6h, e recebi a ligação do prefeito Walter Heck e ele concedeu entrevista, solicitando ajuda, muito emocionado e, com o passar do dia, se percebeu que os estragos realmente eram de grande monta. As rádios locais estavam fora do ar e a emissora na qual trabalho levou informações e solicitou donativos para a comunidade regional", diz Antônio, ressaltando o caráter social do rádiojornalismo e sua capacidade de auxiliar as comunidades em momentos de tragédia.
Outro caso lembrado por Antônio é mais recente. Ocorreu no dia 5 deste mês de setembro, quando a Polícia prendeu homem que havia furtado uma moto em Boa Vista do Buricá: "tão logo aconteceu o furto a reportagem teve acesso, foi divulgado e um ouvinte viu a moto, ligou para a Brigada Militar e, sem seguida, o rapaz acabou sendo preso".
Esse é um dos principais motivos pelos quais Antônio considera o jornalismo uma ferramenta que se destaca no âmbito do rádio, pois, dessa forma, é possível informar e cumprir uma função social ao mesmo tempo.

Diferencial para as emissoras
Para o jornalista Alexandre de Souza, 38 anos, funcionário da Rádio Colonial AM de Três de Maio, a busca pela implantação do jornalismo foi e continua sendo o grande diferencial para as emissoras de rádio: "o jornalismo tem qualificado a programação das rádios, porque, com as inovações tecnológicas dos últimos tempos, as pessoas têm tido mais acesso a músicas, por exemplo, e isso mudou o perfil das emissoras, já que agora há outras fontes de conteúdo além do rádio e por isso o investimento no jornalismo tem feito a diferença."
Descrevendo a arte de fazer jornalismo como um desafio, principalmente em cidades do interior, Alexandre ressalta a necessidade de equipe e profissionais qualificados, fatores que fazem os empresários pensar bem e planejar antes de embarcar nesta empreitada.
O fator local também é citado por Alexandre, ressaltando que, hoje, praticamente cada cidade possui sua emissora(s), que constrói uma identidade com o público local e, através disso, se fortalece: "as pessoas querem ouvir o cotidiano, aquilo que diz respeito à vida delas". Ele também destaca a proximidade entre profissional e ouvinte que o rádio no interior proporciona. "As pessoas querem emitir a opinião delas, elas comentam que ouviram alguma notícia e isso mostra que essa interatividade com o público não está restrita só a internet, e o rádio também deve tentar aperfeiçoar esse lado de não só emitir informação, mas também tentar aprimorar esses canais. Aqui em Três de Maio nós percebemos que há essa interação".

Dia do Rádio

O dia 25 de setembro foi escolhido como Dia Nacional do Rádio porque foi nesta data que nasceu Edgard Roquette Pinto (1884-1954). Considerado o pai do rádio brasileiro, ele foi médico legista, professor, escritor, antropólogo, etnólogo, ensaísta e membro da Academia Brasileira de Letras.
Personagem fundamental para a radiodifusão no Brasil, Roquette Pinto teve a inspiração para implantar uma estrutura radiofônica no Brasil em 1922 (primeiro centenário da independência brasileira), quando ocorreu a primeira transmissão de rádio no Brasil, em uma exposição internacional onde empresários norte-americanos demonstraram a novidade, transmitindo discurso do presidente Epitácio Pessoa.
A partir daquele momento Roquette Pinto iniciou sua trajetória com objetivo de implantar o rádio no seu país. Em 1923 ele convenceu a Academia Brasileira de Ciências a comprar equipamentos que permitissem o surgimento da primeira emissora de rádio do Brasil: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.
Nessa época, para ser um ouvinte, além de adquirir o equipamento, era necessário se cadastrar na emissora. Os aparelhos de rádio começaram a ser vendidos em larga escala a partir de 1936. A indústria do rádio no Brasil foi consolidada na década de 50 e evoluiu para o que hoje é um meio de comunicação que, após décadas, segue acompanhado por um público fiel, mesmo que diversas inovações tecnológicas surjam a todo momento.

TRANSMISSÃO SEM FIO
Muito antes da criação da Rádio Sociedade do RJ, o padre Roberto Landell de Moura construiu o primeiro transmissor sem fio para emissão de mensagens, em 1892, conseguindo, em 1894, realizar transmissão por ondas herzianas entre o alto da Avenida Paulista e o alto de Sant'Anna, em São Paulo, cobrindo uma distância de 8km, antes mesmo do italiano Guglielmo Marconi, que, na mesma época, desenvolvia o sistema de telegrafia sem fios que lhe rendeu o Nobel de Física em 1909. O fato de ser membro da comunidade científica internacional foi o que mais contribuiu para o reconhecimento imediato do trabalho do italiano.

Sonho realizado

Paralelo a vocação, o interesse pelo rádio também pode vir através de referências, como pessoas famosas que acabam se tornando inspiração para jovens talentos. O gosto pelo rádio e pelo jornalismo esportivo fez com que Kelvin Morais, 21 anos, resolvesse trilhar o mesmo caminho que consagrou grandes nomes do rádio, como Haroldo de Souza.
Funcionário da Rádio São Luiz AM, de São Luiz Gonzaga, e acadêmico do curso de Comunicação Social, Kelvin concilia o trabalho de cabo do Exército com o de repórter esportivo, tendo já realizado cobertura de vários jogos da AGSL, equipe de futsal de São Luiz que disputa o Campeonato Estadual Série Ouro.
O interesse pelos jogos e narrações esportivas contribuiu para que Kelvin admirasse o trabalho de Haroldo, profissional que narrou jogos da Copa do Mundo de 1970 pela Rádio Itatiaia (MG), posteriormente transferido para a Rádio Gaúcha (onde permaneceu por 17 anos, narrando as copas de 78 e 90) e, após, para a Rádio Guaíba (1991 até 2010).
A história que aproximou Kelvin de seu ídolo começou quando Haroldo deixou a Guaíba e foi para a Rádio Bandeirantes. Engajado na política desde 1998, Haroldo concorreu para vereador de Porto Alegre em 2012, mas não foi eleito e, logo em seguida, foi demitido, sendo contratado pela Rádio Grenal, jovem emissora da Capital pertencente a Rede Pampa.
O acadêmico, que acompanhava Haroldo pelo Facebook, resolveu entrar em contato com o radialista: "Ele estava triste com a demissão sofrida na Bandeirantes e então resolvi escrever no perfil dele uma mensagem de apoio. A forma que eu escrevi era parodiando com as palavras a forma como ele tradicionalmente abre as jornadas esportivas. E qual foi minha surpresa quando, na sua estréia na Rádio Grenal, ele lê na íntegra o que eu tinha escrito e me agradece (...). Foi então que eu percebi que tinha encontrado um meio de contato direto com meu ídolo."

Oportunidade
Haroldo seguiu na rádio Grenal e Kelvin continuou acompanhando o seu trabalho, até que chegou o mês de março de 2013 e, com ele, a final da Taça Piratini, onde o Internacional decidiria o título do Primeiro Turno contra o São Luiz de Ijuí, um evento que movimentou toda a região Noroeste.
Como toda a imprensa gaúcha da Capital estaria em Ijuí (a pouco mais de 100km de São Luiz Gonzaga), Kelvin pensou em ir na excursão dos colorados de São Luiz para Ijuí, porém, todos os ingressos já estavam esgotados "Resolvi escrever para o Haroldo e ele me orientou para que tentasse me credenciar na ACEG (Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos), mas acabei não conseguindo. Parecia que tudo tinha acabado ali, eu não quis mais escrever, pra não ser apelativo, muito menos chato", conta o estudante.

O encontro
Apesar de estar sem ingresso e credenciamento, Kelvin partiu pra Ijuí: "Peguei o dinheiro que eu tinha guardado para o ingresso e outros gastos e abasteci o carrinho velho da família, que não me dava garantias de chegar até lá. Mesmo assim arrisquei, percorri todo o trajeto angustiado, imaginando o que faria quando chegasse lá".
Chegando ao Estádio ele encontrou o veículo da Rádio Grenal e falou com um funcionário da emissora, que lhe disserak que Haroldo estava chegando: "Haroldo vinha ironicamente no meio do povo que ele tanto alegra nas narrações. Eu me aproximei e ele prontamente me reconheceu, nos cumprimentamos e ficamos ali em frente ao estádio, e eu contando minhas histórias para ele. Depois de alguns minutos ele me disse que tinha que subir para a cabine e me convidou para ir junto, mas, por não ter ingresso, fui barrado. Ele ainda tentou sem sucesso me colocar pra dentro do estádio."
Mesmo tenho conseguido cumprimentar e falar com Haroldo, Kelvin sentiu que faltava algo: "Eu ainda queria estar na cabine. E também queria uma fotografia, pois, na emoção, esqueci disso. Tinha comigo um gravador que havia levado e uma câmera, então tive a idéia de me passar por profissional de imprensa. O estádio possui um portão grande por onde entram os ônibus e eu esperei a entrada do ônibus do Inter, com toda aquela movimentação de jornalistas e torcedores. Ainda fui parado por um senhor, mas mostrei a ele meu gravador e disse que era da rádio e ele me deixou passar". Chegando na cabine de Haroldo Kelvin foi recebido com um sorriso e, mais do que uma foto, teve a oportunidade de transmitir o jogo ao vivo com o renomado radialista.
Como fã do rádio, Kelvin ressalta a emoção de estar ao lado de alguém que lhe serve como inspiração: "falar do Haroldo é difícil, porque sou um fã, movido pelas emoções, mas, me atendo aos fatos, ele representa a história do jornalismo esportivo gaúcho. Paranaense vindo pra cá em 1974, tendo servido aos mais importantes veículos de comunicação do Estado, contou a história do futebol gaúcho e todas as copas do mundo de lá para cá. Ao longo destes 39 anos de carreira criou bordões que estão incrustados na memória gaúcha e emocionou milhões de ouvintes. Acho que isso basta para torná-lo um ícone do nosso rádio gaúcho."

Nova fase para o rádio
Considerando o desligamento do sinal analógico de TV aberta, que deve ocorrer nos próximos anos, o Ministério das Comunicações encaminhou à Casa Civil do Governo Federal minuta de decreto referente à migração dos canais de rádio AM para a faixa FM. O decreto deve passar por análise técnica para depois ser assinado pela Presidente Dilma.
O plano é que, até 2018, o sinal analógico seja desligado em todo o Brasil, inserindo-se o sinal digital e a tecnologia de internet 4G. Esse desligamento deverá ser feito de forma gradual (atingindo primeiros os grandes centros urbanos) até que o prazo chegue ao fim.

OPINIÃO

Para radialistas da região Noroeste entrevistados pela reportagem do Jornal Semanal, essa mudança é tida como um benefício para as rádios AM, que, por utilizarem um canal mais antigo, enfrentam problemas com ruídos, enquanto na faixa FM a transmissão é considerada mais "limpa".
Alguns também destacam que, em grandes emissoras, é utilizado tanto o sinal AM quanto o FM, enquanto rádios do interior "penam" por não ter essa alternativa. Outros, por outro lado, querem esperar antes de comemorar essa migração, considerando que pode haver altos custos de adequação envolvidos. Em relação ao alcance, um os radialistas entrevistados diz não se preocupar com isso, pois, hoje, o público das rádios se concentra nas comunidades e, por essa razão, mesmo que o alcance das AMs seja maior, não haverá grande prejuízo. 

FOTOS: GENARO CAETANO / ARQUIVO PESSOAL


Fotos



Indicar a
um Amigo

Comentários

Deixe a sua opinião

Veja Também

13/04/2017   |
31/03/2017   |
03/03/2017   |
17/02/2017   |
17/02/2017   |
10/02/2017   |




Todos os direitos reservados - Jornal Semanal - Três de Maio - RS