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Ser professor

14/10/2013 - Por Jornal Semanal
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Gustavo Griebler*
Quem é professor muito provavelmente já ouviu bastante a seguinte pergunta: "Professor, o senhor só dá aula? Não trabalha?". Quando me fazem esta pergunta, a reação instantânea é raiva. Pô, dar aulas não é trabalhar então? Enfrentar diariamente turmas com 10, 20, 30, 40, 50, 60 alunos não é trabalhar? Ensinar a eles conceitos que utilizarão na vida dita profissional não é trabalhar? Passar horas, dias, semanas, meses, anos estudando conteúdos e depois corrigindo trabalhos e provas não é trabalhar? Participar de reuniões, escrever e publicar trabalhos, participar de eventos, orientar alunos, ler, responder e-mails, alimentar blogs e portais educacionais não é trabalhar?
De repente, nos dias de hoje, para essas pessoas que fazem esta pergunta irritante, trabalhar seja tão somente acordar de manhã, ir para o escritório, bater o ponto, "trabalhar" no seu computador, bater o ponto, almoçar, bater o ponto, "trabalhar" no seu computador, bater o ponto, ir embora. E no outro dia repetir tudo. Nada contra com quem faz isso, mas eu não conseguiria. Até já tentei, mas não consigo mais. Para mim é necessário ter uma emoção diferente. Um contato com um aluno. É necessário pensar uma nova solução para o mundo com uma pesquisa. É preciso dar esperança para alguém com alguma coisa que você escreve. É descobrir algo novo conversando com um colega ou um aluno.
Mas, pensando bem, creio que quem faz aquela pergunta do início do texto talvez esteja com a razão. Professor não trabalha mesmo. Trabalhar para mim, e tomando por base o conceito de trabalho como sendo a atividade repetitiva e alienante nas fábricas dos séculos XVIII e XIX, passa longe da profissão de professor. Ele não está ali pelo salário, ele está ali porque ama tudo isso. E não trocaria por outra coisa. O dinheiro é uma complementação para ele de tudo o que ele faz. Porque com seu salário ele se veste melhor para ir dar aulas, ele compra um carro para ir mais ligeiro ao trabalho, ele viaja para contar as experiências posteriormente aos alunos, ele compra livros para se atualizar, ele assina televisão a cabo para ter maior cultura para passar aos estudantes. Enfim, no fundo as coisas são feitas voltando-se à aprendizagem.
Outro ponto que vale ser destacado é o horário do professor. Ser professor tem algumas peculiaridades quanto a este ponto. Enquanto você está em uma noite de domingo corrigindo provas e trabalhos ou preparando aulas, ou escrevendo um artigo para aquele evento científico de sua área, muitas das pessoas estão na televisão, nas ruas ou no computador passando o tempo. Então você termina suas coisas e não tem aula numa segunda de tarde, por exemplo, ou em uma quarta de manhã. Você aproveita para ir ao supermercado ou ir a alguma loja. As pessoas logo perguntam se você está de férias, de folga. Professor muitas vezes não trabalha das 8h às 12h e das 13h30min às 18h. Trabalha de repente das 14h às 2h da manhã do outro dia e fica descansando durante a manhã.
Como professor de ensino superior em uma instituição particular, confessional e voltada aos interesses da comunidade regional, tenho notado e aprendido sobre muitas necessidades dos alunos que aqui vem estudar. Muitos deles exercem suas atividades profissionais durante o dia, vindo à noite para a faculdade. O papel dos professores nestas faculdades não é o derramamento de teoria e mais teoria. Esses alunos querem entender o que acontece nas suas empresas e propor melhorias para as mesmas. Dessa forma, o professor dessa faculdade deve ajudar ao aluno a fazer crescer a sua empresa. A teoria é de suma importância até certo ponto, de forma a de repente conduzir novas pesquisas no futuro, no entanto a aplicabilidade de tudo o que estamos falando é de fundamental necessidade para os alunos verem onde poderão encaixar aquilo que você está ensinando. Enfim, a adequação do professor às realidades que lhe são apresentadas também é algo necessário.
Eu escolhi não trabalhar durante a minha vida. Eu escolhi ser professor.
* Mestre em Educação nas Ciências.
Professor de Ensino Superior da Setrem.



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