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DIA DO PROFESSOR: Elas acreditam que ainda vale a pena

21/10/2013 - Por Jornal Semanal
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Clélia Kaiser Bender, 57 anos, é professora do Curso Normal e uma das suas principais metas é despertar o interesse nos jovens que querem seguir a carreira do Magistério, mostrando que a profissão ainda vale a pena.

Mestres modernos
Educados em um sistema rígido, professores de hoje buscam estreitar relações com alunos

Fundamental para o rendimento dos estudantes e bom andamento das disciplinas curriculares, a relação entre professor e aluno é determinante para o sucesso no aprendizado dentro de uma escola. Diálogo, atividades variadas, bom humor e respeito são alguns dos fatores que facilitam e ajudam a tornar a convivência entre mestres e aprendizes a melhor possível.
Profissional que anteriormente possuía um perfil bem mais centrado na autoridade e disciplina, o educador de hoje não pode mais ser caracterizado com um único modo de agir, pois os professores atuais possuem diferentes formas de se expressar, exigir e se comunicar com seus alunos.

Menos autoridade, mais compreensão
Professora de Matemática que há 19 anos leciona no Colégio L'Hermitage Dom Hermeto, Eloisa Pozzatti Schwingel diz que não se vê trabalhando em outra profissão, porém, o seu aprendizado como aluna foi, pode-se dizer, bem tenso: "Eu aprendi matemática porque tinha medo da professora. Eu não me mexia". Segundo a educadora, antes não havia intimidade entre aluno e professor "o professor chegava finamente vestido e lá ficava, e os alunos do outro lado". "Na minha época era muito distante, a gente tinha medo do professor", reforça a professora de Português, Inglês e Literatura Adriana Marasquin Rodenbusch, há 23 anos docente no Dom Hermeto. Na antiga relação entre aluno e professor, as dúvidas dos estudantes muitas vezes acabavam sendo "abafadas" pela insegurança em ter que lidar com alguém tido por todos como uma pessoa autoritária.
Para Eloisa, trabalhar a educação não é apenas trabalhar com o conteúdo, mas também com o "pensar" do aluno. É verdade que hoje, com a perda do "medo" que acometia muitos estudantes em relação aos seus mestres, é necessário que o professor saiba quando exigir um comportamento mais disciplinado de seus alunos e também saber lidar com suas inseguranças. "Eu acho que este tempo que estamos vivendo agora é um tempo desafiador, porque você tem que ser professor, mãe, pai, tudo dentro da sala de aula. Eles (alunos) contam as coisas pra gente e a gente não pode se assustar porque senão eles não contam mais", informa a professora de Matemática.         
"Eu trabalho o que tem que ser trabalhado, mas sou muito espontânea com eles e vejo que dessa forma eles também têm mais abertura para perguntar, tirar dúvidas, até contar coisas da vida deles pra nós", ressalta Adriana, que lembra de situações nas quais alunos lhe procuraram para resolver assuntos não de aula, mas particulares: "...e hoje, com o Facebook e Twitter, a gente não se desliga nunca deles, a gente está sempre muito próximo".
 
Alto astral na sala de aula
Para ganhar a confiança dos alunos às vezes é preciso sair do papel didático e acrescentar uma dose de vivência pessoal ao conteúdo, pois, de acordo com Adriana, nada mais se cobra de forma totalmente voltada para a decoreba, que perdeu espaço para a interpretação.
Sobre aquilo que torna uma matéria atrativa para os alunos, a professora de Português Adriana menciona o próprio sistema de ensino utilizado pelo professor nas atividades e a sua motivação. Sobre sua disciplina Eloisa diz: "Em primeiro lugar a gente demonstra amizade, respeito pelo aluno, e aí eles notam uma segurança e aos poucos vão sabendo que a Matemática é uma ciência exata e uma coisa maravilhosa que eu amo tanto."

Caminho para o ENEM
Utilizado como requisito para aceitação de novos alunos por quase todas as instituições federais de ensino superior, o Exame Nacional do Ensino Médio é uma importante etapa na vida acadêmica e as disciplinas de Português e Matemática são dois dos pilares dessa prova.
Sobre a preparação dos alunos visando um bom desempenho no ENEM, Adriana e Eloisa destacam as atividades feitas no âmbito escolar no Dom Hermeto: "Temos uma prova interdisciplinar que é aplicada da 5ª série em diante e garante ao aluno uma visão do todo. Damos um título como, por exemplo, Copa do Mundo, e aí o aluno tem que fazer questões de matemática, física, de todas as disciplinas", diz Eloisa, que também destaca os desafios matemáticos feitos no final do ano, para desenvolver o raciocínio lógico dos estudantes. "Algo que nós temos aqui na Escola Dom Hermeto é que todas as áreas cobram a escrita e interpretação dos alunos, não só a área de Português. A gente acredita que todos têm que fazer sua parte de professor com os estudantes", acrescenta Adriana.

Gosto pela profissão
É com emoção que as duas professoras dizem que ser professor hoje é como ser um segundo pai ou mãe para os alunos e que não se imaginam fazendo outra coisa "quando chega dezembro estamos cansados, mas em fevereiro já estamos loucos pra começar", diz Adriana. "Estou aposentada no Estado, mas continuo aqui, porque pra mim isso é vida", finaliza Eloisa.

                                                                                                                            GENARO CAETANO

As professoras Eloisa e Adriana com os alunos da  1ª série do Ensino Médio


É preciso saber ouvir
Professor de Filosofia, Sociologia, História e Relações Humanas, Valsenio Gaelzer também é coordenador de Extensão e do curso de Licenciatura Plena em Pedagogia da Setrem. Atuante na Sociedade Educacional Três de Maio desde 1996, ele trabalha como professor há 18 anos e analisa o perfil do educador segundo três conceitos.
Embasamento teórico, expressão através da palavra e relação com o aluno são os três pontos que, para Valsenio, constituem o caminho que o educador deve percorrer em sua busca por um ensino de excelência.
Para o professor, a partir do embasamento teórico o profissional poderá se constituir na palavra, pois, à medida que o professor tiver o que falar, ele também terá mais ferramentas para se expressar com seus alunos, mas, ao mesmo tempo, o professor deve saber ouvir os mesmos, fazendo isso se reverter em uma atitude, e é exatamente a atitude que deve ser um dos pontos centrais nessa relação.

Educadores novos e antigos
"
Uma das grandes questões que nós perdemos enquanto professores é a questão da atitude. Nós não podemos cobrar dos alunos o que nós, professores, não somos capazes de fazer. Por outro lado, o professor antigo, em outros tempos,  tinha sim uma autoridade, que de fato era respeitada, por um aspecto teórico, da palavra e de atitude", diz Valsenio, que, ao falar sobre a mudança no perfil do educador, não deixa de mencionar a queda no índice de aprendizagem do RS em relação às décadas passadas. 

A prova
Ele também acrescenta que muitos dos professores de hoje, além de perder o respeito dos estudantes (o que dificilmente acontecia anteriormente), pecam em fazer uso de instrumentos que, antigamente, eram usados para "meter medo" nos alunos, como a prova. "Me parece que nós, professores da atualidade, precisamos estar focados no ato de ensinar, mas também na relação do ato de aprender, que diz respeito ao aluno. Essa relação precisa ser trabalhada e, por isso, muitas vezes, a prova torna-se um entrave na relação da aprendizagem".
Com isso o professor diz que, apesar de muitas vezes ser necessária, a prova é algo que deve ser aplicado no momento certo e de forma correta: "O professor do início do século passado é condenado por sua atitude autoritária, porém, muitos professores atuais usam a mesma prova que esse professor usou, então, essa utilização incorreta da prova é o calcanhar de Aquiles da nossa aprendizagem, pois nem todos os nossos professores têm uma preparação teórica adequada ou se constituem na palavra para saber como aplicar seu conhecimento."   

                                           


Exemplo de vida
Ressaltando que a grande dificuldade do professor de hoje é saber se comunicar, Valsenio finaliza dizendo que o professor, antes de tudo, deve ser um exemplo de vida para o aluno e, claro, saber ouvir, para conhecer as pessoas com quem vai trabalhar: "O que eu tenho percebido nesses 18 anos é que poucos professores ouvem os seus alunos e isso é algo que dificulta a aprendizagem. Uma boa parte dos professores precisa aprender a ouvir".

"Quando um professor consegue criar uma relação de empatia com seus alunos, os caminhos se abrem para o ensino e a aprendizagem"
O começo difícil não foi o suficiente para fazê-la desistir da profissão. Professora de Séries Iniciais em escola municipal do interior de Três de Maio, trabalhando com turmas multisseriadas, ela foi professora, merendeira, diretora e também realizava a organização e limpeza da escola. "Lembro sempre que, nessa época, os alunos e pais participavam e colaboravam em tudo para o bom andamento da escola. Foi a partir dessa experiência que descobri minha verdadeira vocação: ser professora".
A força de vontade e o amor à profissão já duram mais de 30 anos. Formada em Pedagogia, Clélia Kaiser Bender, 57 anos, é professora e atualmente leciona disciplinas de Formação Profissional no Ensino Médio, Curso Normal e Curso Normal- Aproveitamento de Estudos do Instituto Estadual de Educação Cardeal Pacelli. Ela ministra os Componentes Curriculares de Didática da Linguagem, Didática das Ciências Humanas e Estrutura e Funcionamento da Educação Básica para uma turma que totaliza em torno de 30 alunas.
Antes disso, trabalhou nas redes pública municipal e privada. "Todas as experiências foram muito importantes e significativas para mim. Cresci como pessoa e profissionalmente. Hoje posso afirmar que continuo apaixonada pelo que faço. Tudo é feito com muito amor, dedicação, responsabilidade e comprometimento. Quando se tem amor pelo que se faz, torna-se prazeroso", alega.
Agora, ela cumpre a difícil missão de despertar nos jovens o interesse pela profissão. É por isso que ainda continua em sala de aula, para estar em constante aprendizagem, ensinando e aprendendo junto com seus alunos, mediando conhecimento e ensinando para a vida.

Formando novos educadores
Clélia garante que, se Deus permitir, ela pretende trabalhar por muitos anos como educadora. E é essa determinação que a faz encarar o desafio de lecionar para futuros educadores. "Estamos nos mobilizando internamente no Pacelli, com nossos alunos e colegas professores, e também fazendo um trabalho de divulgação em escolas, tanto no nosso município como na região, sobre a importância do Curso Normal na formação de futuros profissionais da educação. Temos divulgado também nos meios de comunicação e nas redes sociais, esperando que mais jovens optem em frequentar as duas modalidades de Curso Normal que o nosso instituto oferece. Hoje o leque de oportunidades de trabalho está se ampliando, possibilitando atuar além do trabalho em escolas regulares em projetos como Mais Educação, PIM (Primeira Infância Melhor), entre outros", declara.
Para despertar este interesse nos jovens em ingressar na profissão, Clélia fala da importância de um bom relacionamento entre professor e estudante. "Quando um professor consegue criar uma relação de empatia com seus alunos, os caminhos se abrem para o ensino e a aprendizagem", orienta.

Os educadores na atualidade
Apesar das inúmeras mobilizações da categoria e a conquista de alguns benefícios na carreira, a professora ressalta que a categoria ainda luta pela melhoria da qualidade do ensino, das condições de trabalho e da remuneração digna para os profissionais de educação.
Para ela, um obstáculo a ser enfrentado pelos profissionais da área é despertar no aluno o prazer e o gosto pelo aprender. "Isso se tornou uma tarefa diária. Os professores são cobrados cada vez mais em áreas em que não possuem formação específica (psicólogo, assistente social, pai, mãe, mediador de conflitos, etc.) deixando de lado, por muitas vezes, a tarefa para a qual se preparou, que é ensinar", lembrando que o professor precisa investir muito na sua profissão. "Estudar, pesquisar, ouvir seus alunos, ser mediador da aprendizagem. Precisa também ter paciência, criatividade, humildade e ser carismático".
Aproveitando a oportunidade, ela agradece a todos os colegas professores, alunos, ex-alunos que passaram por ela. "Sou muito grata a todos. Todos fazem parte da minha história como educadora. Amo o que faço e sou muito feliz!", conclui.

                                                                                           ALINE GEHM

Para a professora do Curso Normal do Instituto Estadual de Educação
Cardeal Pacelli, Clélia Kaiser Bender, 57 anos, é preciso despertar  o
interesse dos jovens em seguir o Magistério para mostrar que ainda
vale a pena ser professor

Busca por licenciaturas cresce menos de 1%
A procura por cursos de licenciatura cresce em um ritmo muito lento no Brasil: o aumento do interesse na área entre 2011 e 2012 foi de apenas 0,8%. O baixo índice se reflete na educação básica da rede pública, que apresenta um déficit de 170 mil docentes. Os dados do Censo do Ensino Superior 2012, divulgados em setembro, mostram que, no mesmo período, a procura por bacharelados subiu 4,6%, enquanto a busca por tecnológicos, 8,5%. Do total, apenas 19,1% dos matriculados representam licenciaturas.
Para tentar melhorar a situação, o programa "Quero ser cientista, quero ser professor", do Ministério da Educação (MEC), oferecerá, a partir de fevereiro de 2014, 30 mil bolsas de R$ 150 a estudantes de Ensino Médio que se dedicarem à monitoria e pesquisa científica e tecnológica.

"Assumimos nosso papel de protagonistas de um novo tempo, de uma nova sociedade, de uma educação de qualidade"
Muitos são os desafios dos professores dos novos tempos. Ainda mais para aqueles que lecionam em comunidades e municípios do Interior, em escolas públicas onde muitas vezes falta pessoal, estrutura e equipamentos para dar condições adequadas ao processo de ensino-aprendizagem dos educandos.
Por isso é preciso atitude, inovação. E é isso que o professor Gelson Luís Filipin, 45 anos, atualmente na direção do Colégio Estadual Caldas Júnior de Alegria procura realizar na profissão. "A escola precisa ampliar sua inserção na comunidade contribuindo no processo de desenvolvimento. Isto compromete, dá trabalho, mas, assim, assumimos nosso papel de protagonistas de um novo tempo, de uma nova sociedade, de uma educação de qualidade".
Este é o diferencial do colégio Caldas Júnior, que conta com Ensino Fundamental e Médio, 11 funcionários e 29 professores. Neste ano letivo, 343 alunos estão matriculados na Educação Básica e mais 50 alunos em grupos do Programa Brasil Alfabetizado, recém iniciado.
Para integrar a comunidade escolar com a comunidade alegriense, o educandário realiza inúmeros projetos, entre eles as Salas Ambiente, Escola Sustentável, Escola Aberta para a Cidadania, Mais Educação e as parcerias com a Universidade Federal de Santa Maria, Sindicato Rural de Três de Maio/Senar RS, e também conta com apoio do comércio local, pais e mães de alunos.
Filipin é educador há 28 anos. O incentivo pela profissão veio da mãe dele, que também é professora. Nestes anos de carreira, ele declara que a cada dia aumentam as expectativas em relação ao trabalho promovido pela escola e isto aumenta o comprometimento dele com o Magistério e o torna cada vez mais apaixonado pela profissão.

                                                                                                              FOTO DIVULGAÇÃO

Diretor Gelson Luís Filipin e alunos do Colégio Caldas Júnior de Alegria, em perfeita sintonia

Papel de semear a esperança
Para o educador, o maior desafio dos professores é engajar-se em um projeto novo de sociedade capaz de garantir oportunidades a todos. "Temos o papel fundamental de semear a esperança e transformar o ser humano e a comunidade em que vivemos. De maneira franca e determinada, temos de  propor e acolher iniciativas buscando avançar no processo de tomada de decisões".
Por outro lado, ele argumenta que está na hora da sociedade compreender que não se constrói uma grande nação sem professores valorizados e bem pagos. Ele lamenta a falta de interesse dos jovens em seguir o Magistério, porque ser professor não é considerado profissão de sucesso. Mas assegura: "poucas profissões realizam tanto e tem tanto significado para as novas gerações como ser professor".
O respeito pela dedicação e a empatia que exerce na comunidade são aspectos que Filipin também leva em consideração para continuar seguindo em frente. "Pretendo lecionar enquanto conseguir mobilizar as energias dos meus alunos, da comunidade escolar, do grupo a qual pertenço, pois assim acredito que estarei criando espaços de aprendizagem".
Sobre a relação dos alunos e professores na atualidade, o diretor declara que a relação mudou. "Antes a autoridade do professor era o que mantinha o respeito em sala de aula. Hoje a relação é horizontal e democrática. Isto coloca alunos e professores na condição de construtores de uma escola capaz de oferecer o conhecimento como ferramenta de luta por um mundo mais humano, mais fraterno e sustentável", conclui.

                                                                                                              FOTO DIVULGAÇÃO

Educandário realiza inúmeros projetos, entre eles, Escola Sustentável e Horta Comunitária







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