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O Mendigo...

16/12/2013 - Por Marcos Salomão
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Parei o carro próximo à barraquinha de cachorro quente, na beira da praia. Elis e os meninos desceram. Fiquei no carro. De repente alguém bate no meu vidro e, ingenuamente eu abro. Aparece um mendigo, destes moradores de rua. Jovem, com uns 30 anos, e poucos dentes. Ele diz:
- Aí, o Sr. é gente fina, baixou o vidro o carro.....porque "tens uns Ingnorantes" que nem baixam o vidro, tratam a gente que nem bicho....aí o Sr. é gente fina, AMÉM, AMÉM
(Pensei, por que baixei o vidro, que mancada....)
-Seguinte Dr. Eu não quero dinheiro...eu pudia tá matando, pudia tá roubando, mas to aqui, e to com fome, mas não quero dinheiro...o Sr. pudia me consegui um pão com manteiga...??
Não acreditei. Quantos anos sem falar com um morador de rua...Saí de Porto Alegre em 1997, conhecia vários. Vim para o interior, onde aqui, na região noroeste tem poucos ou quase nenhum. Senti um frio, parado olhando para ele, percebi o quando eu estava vulnerável. Como estou inocente, ingênuo, desatento. Abri o vidro do carro sem olhar, que estúpido....
-" Vou te arrumar um cachorro quente amigo. Espera aqui que farei sinal para minha esposa e ela trará..."
-"Amém, Dr... Amém Dr.... o Sr. é gente fina, não é que nem uns e outros por aí, que nem enxergam a gente...eu pudia tá matando, eu pudia tá roubando...."
-"Tá, tá, tá, já vou te arrumar o cachorro quente. Dois minutos. Aguarda aqui."
Fechei o vidro, coloquei o carro 2 metros para frente e tentei fazer sinal para a Elis. Ela não me viu. Puxa vida. Olhei para a calçada, dois garçons riam da minha situação. Que legal. Pensei: vou resolver naturalmente, óbvio, já lidei mil vezes com este tipo de situação...
-"Ooooo companheiro ! Vem cá ! A minha mulher não está me enxergando, então vou facilitar pra você. Toma aqui dois reais e compra um cachorro quente."
-" Dois reais Dr. ? O Sr. sabe quanto custa um pão com manteiga ali?  Dois e oitenta e cinco !!"
Não acreditei. Agora eu estava discutindo o preço de um pão com manteiga, ou de um cachorro quente com um morador de rua...que legal...passei a tarde com a cabeça enfiada em um relatório e agora estou debatendo a inflação na classe "Z". Que maravilha....
-" Espera aí. 1 minuto"- falei.
  Fechei o vidro e catei 3 moedas de 1 real cada. Olhei para o lado, já eram 4 os garçons olhando a cena, que droga. Abri o vidro de novo...
-"Aí companheiro, leva mais 3 contos pra comprar um completo !"
-"Bah Dr. não posso comer um completo não.. Olha aqui Dr, olha aqui...."
Ele levantou a camiseta e mostrou uma cicatriz no peito, tipo aquelas de filme, tipo uma facada. Pensei comigo: agora sim..além de discutir o preço do pão, estou analisando as marcas da vida do cidadão. Por que comigo?
-" então tá companheiro ! valeu ! capricha no lanche ! abração"-e fechei o vidro.
Elis e os meninos voltaram para o carro. Contei o episódio. Primeira reação da Elis :
-Como é que você abre o vidro? E se fosse um assalto ? E se fosse um sequestro ...e se...blá, blá, blá, bla´......
(alguns minutos depois)
-"Pai, como ele era? estava armado? como ele falava ? que tipo ele era? Que roupa ele usava"
Olhei para os lados e não vi mais o homem. Meu filho mais novo, Henry então disse:
-"Pai, mas se você deu o dinheiro para ele comprar algo para comer, ele não deveria estar ali, na barraquinha?"
E então ela finalizou......
-É que teu pai deu só R$ 5,00. O cachorro quente custa R$ 8,00...
Então, comecei o verão com fama de pão duro...

Acesse o site e saiba mais: www.marcossalomao.com.br
Oficial do Registro de Imóveis e Tabelião de Protestos 
Pós-Graduado em Direito Notarial e Registral



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