Terça-feira, 12 de dezembro de 2017
Ano XXIX - Edição 1487
(55) 3535-1033
jsemanal@jsemanal.com.br
diagramacao@jsemanal.com.br

A educação, as religiões e escola confessional

10/08/2012 - Por Yara Lampert
Tweet Compartilhar
Nesta edição a entrevista é com Arnaldo Érico Huff Júnior, Dr., em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora , com estágio doutoral no Departamento de Antropologia da Universidade Livre de Amsterdam. Atua na área de Ciência da Religião, com foco no protestantismo e ecumenismo. É professor no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião e no Bacharelado Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora. Dono de um currículo incontestável, ele aborda com muita propriedade o tema RELIGIÃO.
OBS:  A entrevista foi concedida a esta colunista na oportunidade em que, Arnaldo ministrou um curso aos professores da Setrem.


O que é pluralismo nas religiões?

O pluralismo religioso é um fenômeno social recente. Significa basicamente o aumento no número das religiões disponíveis, entre as quais as pessoas podem optar mais ou menos livremente. No Brasil, a principal característica é a diminuição da hegemonia do Catolicismo e o aumento do número de seguidores de outros grupos como o Pentecostalismo, o Espiritismo e os sem-religião.


As religiões evangélicas estão crescendo diante da religião católica. A que isso se atribui?

Aqui é preciso considerar algumas coisas. Primeiramente, quando se fala de evangélicos e católicos, é mais correto usarmos o termo denominações ao invés de religiões, uma vez que se trata de manifestações de uma mesma religião, o Cristianismo. Em segundo lugar, dentro do mundo chamado evangélico é possível distinguir entre os protestantes (Luteranos, Presbiterianos, Metodistas, Batistas, Anglicanos, etc.), os pentecostais (Assembleia de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular, etc.) e os neopentecostais (Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Mundial do Poder de Deus, etc.). Quem cresce nesse meio são os pentecostais e neopentecostais. Em comparação com eles, os protestantes crescem pouco ou quase nada. O crescimento pentecostal se deve a fatores complexos, de ordem religiosa, cultural, política e econômica. Poderíamos dizer, de um modo geral, que as pessoas têm buscado no mundo pentecostal algo que não encontram nas igrejas católicas e protestantes tradicionais.


No mundo contemporâneo, a fé, a ciência e a religião estão interligadas? Como?

A ciência divorciou-se crescentemente da religião a partir do século XVIII, principalmente na Europa. Pensava-se que a ciência poderia responder a todas as questões humanas e ela tornou-se para muitos uma nova forma de religião. Ao longo do século XX, porém, fortaleceu-se a ideia de que a ciência moderna não podia alcançar a todas as expectativas que se colocava sobre ela.
Passaram a surgir questões como: afinal, somos assim tão racionais? A racionalidade científica pode atribuir sentido à existência? Perguntas dessa ordem têm conduzido hoje a uma nova percepção da religião e da ciência, como esferas do saber humano que podem dialogar frutiferamente. Todavia, grupos religiosos que tiverem muitas respostas prontas encontrarão um lugar menor nesse debate, ao passo que aqueles que se permitirem pensar sobre o significado da vida humana, a partir de suas tradições, mas de modo aberto e generoso, terão maiores chances de contribuir significativamente.


Católicos e evangélicos são a maioria, mas muitos destes frequentam outros grupos religiosos, porém não assumem. Por quê?

Esta é, na verdade, uma característica muito marcante e antiga do mundo das religiões no Brasil. Desde o período colonial, houve sempre alguma mistura entre as tradições cristã, africana e indígena, com um trânsito mais ou menos livre por parte os adeptos. Por outro lado, há também no Brasil uma tradição de relações hierárquicas, ou seja, ao menos formalmente, é preciso respeitar quem manda. Assim, para não contrariar padres, pastores e líderes religiosos, os adeptos tendem a omitir ou disfarçar esse trânsito que aqui sempre existiu entre as tradições religiosas. Tal trânsito, todavia, é exercido atualmente de modo cada vez mais livre e criativo. Ou seja, o medo da represália social por motivos de adesão religiosa é cada vez menor, e é bom que assim o seja.


A diversidade brasileira das religiões cresce dia após dia. Quantas há catalogadas e como são classificadas?

O Brasil ainda é um país majoritariamente cristão. Conforme o senso de 2010, se somadas, as denominações cristãs compõem 86,8% da população, ou seja, 145 milhões em um total de 190 milhões de habitantes no país, sendo 123 milhões de católicos e 42 milhões de evangélicos. Se adicionarmos os quase 4 milhões de espíritas, que também possuem em Jesus Cristo uma referência central à sua fé, a porcentagem sobe para 88,8%. A grande novidade da diversidade religiosa brasileira é o grupo dos sem-religião, que já soma mais de 15 milhões de pessoas, ou seja, perto de 8% da população. Por sua vez, os adeptos de religiões e religiosidades afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, representam, conforme o senso apenas 0,3%. Mas aqui é preciso lembrar que em função do trânsito religioso, como já mencionamos acima, muitos dos frequentadores destas tradições podem identificar-se ao senso, por exemplo, como católicos. Se estes fossem contabilizados, a porcentagem dos adeptos das tradições afro-brasileiras aumentaria consideravelmente. O restante da população divide-se, principalmente, entre adeptos do Judaísmo e do Islamismo (que junto do Cristianismo formam o tronco monoteísta das grandes religiões), de antigas religiões orientais (como o Hinduísmo e o Budismo), de novas religiões orientais (como o a Igreja Messiânica Mundial e a Seicho-No-Ie), de tradições indígenas, e de uma miríade de novas expressões religiosas (como o Santo Daime, por exemplo).


Diante desta diversidade de religiões, qual o papel da escola?

Creio que o papel principal da escola é proporcionar aos educandos o acesso às tradições religiosas da humanidade, bem como a novas possibilidades de convivência humana fraterna. Ou seja, algo que vá além de preparar para o mercado. Assim como o aluno deve ter acesso através da escola à musica de Tom Jobim ou de Bach e à poesia de Drummond  ou de Neruda, por exemplo, assim também a escola deve oportunizar o acesso à religião, entendida como saber tradicional da humanidade. Aqui, veja bem, o ensino religioso não pode ser proselitista ou conversionista, especialmente na escola pública, mas desejavelmente também as particulares e confessionais. Esse seria talvez o papel das religiões, mas não o da escola. Por outro lado, o ensino religioso também não deveria ser confundido com o ensino de valores, o que muitas vezes acontece, e frequentemente de forma moralista. O ensino de valores éticos é uma tarefa conjunta de toda a escola, não apenas da professora de ensino religioso. Nesse sentido, ensinar religião, isto é, oportunizar o conhecimento do que as religiões comportam em termos de suas crenças e rituais, ideais éticos e comportamentais, mitos e visões de mundo, teologias, filosofias e textos sagrados, das luzes e das trevas das religiões, pode ser um processo criativo e vivo que, por um lado, abra novos horizontes de significação da vida, das relações, da sociedade e do mundo e, por outro, aponte novas possibilidades de convivência respeitosa e amorosa com o outro, com aquele que é diferente.


As escolas devem primar por sua confessionalidade?

A confessionalidade é o que uma instituição educacional religiosa tem de mais seu. E veja bem, a confessionalidade não é novamente algo que diz respeito apenas ao ensino religioso, mas à escola toda. Trata-se de sua base mais fundamental. Os clubes e associações diversas ou mesmo os governos podem oferecer aulas de violão, ballet, computação ou atividades esportivas de modo provavelmente mais eficiente que a escola confessional. Sua confessionalidade, porém, é o bem mais precioso que ela possui. Ser confessional, todavia, não deve ser confundido com uma profissão de fé a um conjunto de fórmulas racionais petrificadas, estabelecidas há séculos e, portanto, em outros contextos. Reinterpretar sempre novamente a tradição religiosa à qual pertencemos é uma condição necessária à sobrevivência dessa própria tradição. Se não for assim, ela caducará, perderá o sentido e morrerá. E se uma determinada forma de pensar a religião não mais servir para a humanização do homem, sua emancipação, ela deve mesmo ser abandonada e será melhor assim. Por outro lado, uma confessionalidade viva e aberta, que se posicione no centro de uma determinada tradição religiosa, mas disposta ao mesmo tempo a repensar de modo aberto e crítico a vida presente e o mundo atual, tal confessionalidade será sempre necessária, como um sopro do espírito a nos lembrar que um outro mundo é possível.


Como mediar educação e religião na escola?

Para responder essa questão é preciso fazer sempre novamente outra pergunta: que educação e que religião queremos? Para mim, a educação e a religião que apontarem para a liberdade, a amorosidade e a emancipação humana estarão sempre de mãos dadas e serão sempre bem-vindas.



Indicar a
um Amigo

Comentários

Deixe a sua opinião

Veja Também

08/12/2017   |
01/12/2017   |
24/11/2017   |
17/11/2017   |
10/11/2017   |
03/11/2017   |




Todos os direitos reservados - Jornal Semanal - Três de Maio - RS