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Caça às bruxas, a violência contra a mulher

31/03/2014 - Por Jornal Semanal
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 *Por Breno Rosostolato

Uma verdadeira carnificina em relação às mulheres acontece todos os dias. Uma em cada quatro mulheres sofre com a violência doméstica. No Brasil, entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil, ou seja, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma morte a cada 1h30. Os dados foram divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O que chama mais atenção, além da violência gratuita, é que em pleno século XXI, tenho a impressão que essas agressões, pela crueldade e com requintes de uma barbárie, são equiparadas a uma época em que conceitos arcaicos predominavam as mentalidades da sociedade, a Idade Média. Uma época que não se foi, em que o homem não tinha valor nenhum. Tempos difíceis em que pessoas não viviam, mas sobreviviam em condições desumanas. O poder da igreja buscava se consolidar através da teocracia e para tal baseava-se no controle da sexualidade para defender seus interesses pessoais, como propagar a ideia de "danação divina" caso as pessoas fossem contra os preceitos de Deus.

A caça às bruxas é um elemento histórico da Idade Média e que aconteceu entre os séculos XV e XVI. O prazer sexual sempre foi alvo de represálias da igreja e do ascetismo religioso que prega a concepção de que os prazeres mundanos devem ser aniquilados em prol da fidelidade e obediência à Deus. Ao corpo atribui-se o lugar do prazer maléfico, logo, tudo que levasse a pessoa ao prazer era considerado pecado. A negligência ao corpo era sinal de redenção e uma tentativa de livrar-se dos prazeres mundanos, com isso, as pessoas não se lavavam e se torturavam para que não fossem assombradas pelos desejos mundanos. Foi a Santa Inquisição que em 1233, através do papa Gregório IX, instituiu o Tribunal Católico Romano, também conhecido como Tribunal do Santo Ofício e que tinha o objetivo de terminar com a heresia e com os que não praticavam o catolicismo. Em 1320 a bruxaria e a antiga religião dos pagãos foram consideradas uma ameaça ao cristianismo, que inicia, portanto, a perseguição aos hereges. Este período de assassinatos e de feminicídios se estendeu até e durante a Renascença.

Uma vez descoberto algo que denunciasse "feitiçaria", a pessoa seria julgada e punida. Tudo serviria para incriminar uma mulher de bruxaria, desde sinais no corpo, considerados sinais demoníacos, ideias e reflexões que fossem intimidantes à igreja, posicionamentos sociais e políticos, pois, muitas mulheres participavam de revoltas camponesas, além do que mulheres parideiras e curandeiras eram acusadas de bruxaria por contrariar o poder médico que surgia. Mas nada foi tão culpado quanto a sensualidade das mulheres. Consideradas como amantes do diabo, o erotismo feminino foi considerado o grande malefício da sociedade. Muitas mulheres, inclusive, conduzidas à fogueira por despertarem o interesse sexual e acusadas de desvirtuaram os homens com atos libidinosos. Essas punições aconteciam em praça pública, para que todos pudessem ver e tinha pompas de um evento nefasto e mórbido, atraindo a atenção das pessoas.

Os crimes que presenciamos hoje contra as mulheres nos remete à idade das trevas, em que mulheres são tratadas como objetos e assassinadas porque não cumprem o papel retrógrado do passado, serem submissas e não contrariarem a posição arbitrária de seus homens. A "cultura do machão", sustentado pelo sistema patriarcal, criou conceitos e estereótipos dos papéis sociais de homens e mulheres. Responsável pela perpetuação da misoginia, ou seja, a aversão às mulheres. Os homens deveriam ser soberanos e comandar a família, ser fortes e não demonstrar fraquezas, para tal, devem se impor, nem que para isso utilizem da violência. Controlar a esposa era uma característica valorizada no machão, que enxerga a esposa como sua propriedade. Haja vista que para assegurar filhos legítimos, os maridos aprisionavam suas esposas em casa e restringiam a vida social delas. Uma maneira de coibir o adultério da esposa e garantir a legitimidade da paternidade. Mulheres subordinadas à dominação do marido é a regra básica do patriarcado que enaltece uma linhagem masculina.

O crime de muitos homens está associado ao medo das mulheres autônomas. Homens que são incapazes de lidar e compreender opiniões e ideias independentes ou contrárias às dele. Mulheres questionadoras e que não são subservientes. Mulheres que não se acovardam e enfrentam o mundo com determinação e aprenderam a dar vazão à seus desejos. Sentem prazer e não sentem vergonha ou culpa por isso. Homens preconceituosos que não sabem receber um "não" e que é a violência, evidência da inabilidade masculina de não renovar as mensalidades.

Muito embora esteja dando ênfase à violência física, refiro-me também a violência emocional e psicológica, aquela que possui como ingredientes gritos e xingamentos e ameaças constantes. Até mesmo uma "cantada" na rua como, "que gostosa" ou "eu chupo você toda", não pode ser considerado como um galanteio, pois é invasivo e agressivo. A questão é que, o homem disposto a bater numa mulher quer torná-la uma "não mulher". Este é o significado da violência, do estupro e dos assassinatos cometidos contra as mulheres. Os mesmos conceitos transmitidos nas punições às feiticeiras. Não seja feminina, não seja livre, não pense, não sinta prazer. Seja obediente e concordata.

Homens que cometem atos violentos contra uma mulher parecem ser guiados pelo Malleus Maleficarum, o temido "martelo das feiticeiras", livro que serviria como um manual básico de caça às bruxas, aterrorizando suas companheiras com questionamentos, vigiando e sufocando-as como forma de controle. Homens que agem como inquisidores ou "alfinetadores", carrascos que espetavam as mulheres para descobrirem marcas do diabo. Agulhas que são representadas através das ameaças, do medo e do abuso sexual, em que muitos homens se autorizam à vulgarizar uma mulher, simplesmente porque elas usam roupas curtas, coladas ao corpo ou porque acham que um decote é um convite para ela ser devorada. A divisão errônea da mulher em damas e feiticeiras, ou seja, Maria, a virgem santificada ou Eva, a eterna pecadora é demasiadamente, anacrônica.

A violência contra a mulher, doméstica ou não, diminuirá quando for revista a legislação que pune crimes deste tipo e denúncias acontecerem de maneira efetiva. Para se ter uma ideia, conforme ainda pesquisa do IPEA, 94% das mulheres conhecem a Lei Maria da Penha, mas apenas 13% sabem seu conteúdo. Talvez por isso um número irrisório de denúncias, a falta de conhecimento dos próprios direitos e como se defender desta violência. Ao primeiro sinal de comportamento hostil e agressão do companheiro, e, portanto, revelado o perfil agressor, a denúncia é imprescindível para coibir a violência. Quando a ideologia de dominação e opressão acabar, talvez tenhamos uma sociedade em que homens e mulheres consigam ser parceiros e aliados, e que o respeito prevaleça sobre a rivalidade.
 

  * Psicólogo e professor universitário




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