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Luta Antimanicomial

23/05/2014 - Por Jornal Semanal
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Sexta-feira, dia 16, aconteceu o evento "Saúde Mental: como é o cuidado que dá certo?". Gostaria de deixar aqui o prazer que foi participar. Diferente de tudo que eu já havia participado, não haviam profissionais enfatizando seu discurso de como promover um cuidado e defendendo sua área...linha teórica...metodologia. Haviam sim usuários do sistema de saúde, mais precisamente dos CAPS da região, falando sobre a sua própria experiência.

Do meu ponto de vista a palavra que marcou o evento foi desinstitucionalização. Algo que estudamos muito enquanto estudantes e depois como profissionais, mas que por vezes, na prática, encontramos dificuldades de realizar.

Podemos escutar pacientes, familiares, aprender que não devemos prender a loucura, mas dar voz a esta, que devemos cuidar da doença mental dos nossos usuários bem como ajudá-los a promover a sua saúde mental, dois termos tão parecidos, doença mental e saúde mental, que devem ser pensados de forma conjunta, aonde um vem complementar o outro.

Um CAPS, assim como os outros serviços voltados para a saúde mental, que mantém suas portas fechadas nada mais é do que um 'manicômio' remodelado, fechado ao discurso de seus usuários, fechado a participação dos familiares e da comunidade, fechado a crenças e métodos ultrapassados. Se quisermos fazer diferente temos que fazer juntos. Temos um recurso potencial a nossa disposição, que é a comunidade e os familiares como nossos parceiros, trazê-los para mais perto, a fim de que formem-se novas redes, e se fortaleçam as já existentes.

A saúde mental é algo imprescindível para a integridade do ser humano. Ver usuários formando uma associação chamada Casa AMA (Auto mútua ajuda) foi realmente fantástico. Ver que com um trabalho essas pessoas podem virar PROTAGONISTAS (palavra usada pelos próprios usuários). Como uma usuária mesmo disse ter vontade própria.
 
Gostaria de destacar algumas falas. Primeiramente a usuária Sirlei, quando disse que descobriu que no CAPS ela cuidava da sua doença mental e que no AMA ela cuidava da sua saúde mental. É muito importante termos claro que não existe tratamento de doença, seja ela qual for sem visarmos também à saúde. Será que ela teria os mesmos resultados se priorizasse somente a doença? Escutar ela dizer que 'despertou o seu querer', que ela havia encontrado um lugar onde poderia falar, ou simplesmente silenciar-se se essa fosse sua vontade. Foram os usuários que conquistaram este espaço, que o fizeram, com muita luta. Volto a usar as palavras da usuária, um lugar A MAIS!

A Dona Marisa, falando sobre seu filho, que tem síndrome do pânico. Que por vezes ela procurou tratamento para o filho, que muitos profissionais lhe diziam o que fazer, mas nenhum explicava como fazer. E foi no CAPS que ela descobriu que pouco adiantava tratar o filho sem tratar a família também.

Seu Vilmar e sua esposa, uma luta que dura mais de 31 anos. Ele, alcoólatra, destacou que, se antes ele BEBIA PARA NÃO FALAR, hoje ele FALA PARA NÃO BEBER. Incrível escutar ele se denominar F10.2(síndrome de dependência) e F31(transtorno afetivo bipolar) de acordo com o CID 10 (classificação internacional de doenças), mais entendido que muitos profissionais por aí. Sua esposa quando diz que a sociedade vê o álcool como algo 'bom', que te deixa mais leve, mas que foi esta mesma sociedade que os excluiu quando necessitaram de ajuda. E foi no AMA que ambos puderam resignificar sua história, dando a ela um novo fim.

O que eu, e acredito que as demais pessoas puderam perceber é que temos, ainda hoje, que pensar na loucura, formar redes a ponto de se conseguir promover um tratamento de qualidade. Como diz o Doutor Sixto Bombardelli, a loucura já nos é tão formal, está instituída dentro de nós, o CAPS por vezes é tão formal, tem um trabalho tão burocrático, tentemos ser menos formais, realizar um trabalho de forma mais leve, chamando os pacientes e usuários a pensar com nós, a trabalhar com nós.
Promover um desmame, segundo ele. Desmamar as pessoas deste sistema, dos profissionais que ali trabalham. Promover esta desinstitucionalização, onde os usuários tenham como base sim bons profissionais, mas que também sejam donos das suas próprias vidas, PROTAGONISTAS!
Tamara Fim - Psicóloga CRP 07/22155



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