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Tanatologia

20/06/2014 - Por Yara Lampert
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Nesta edição, a entrevistada é a Psicóloga Aline Griebler, formanda em Tanatologia e Pós-graduanda do curso de Problemas do Desenvolvimento na Infância e Adolescência - Abordagem interdisciplinar. Aline realizou um período de estudos de um ano na Universidade do Porto - Portugal, ampliando seus conhecimentos na área clínica.

Nesta entrevista, ela aborda o tema "Tanatologia", tira dúvidas e trata sobre o momento de intervenção.

O que é Tanatologia?

Tanatologia é o estudo da morte a partir da ótica da vida. É uma ciência que estuda o fenômeno da morte e dos processos emocionais e psicológicos do indivíduo e suas reações à perda e ao luto.

Como surgiu o teu interesse?
Desde a graduação, quando tive uma disciplina de Tanatologia, a temática começou a me interessar. No ano em que morei em Portugal participei do 1º Congresso sobre o Luto em Portugal, que aflorou novamente o meu interesse. Posteriormente, de volta a Três de Maio, participei de uma palestra e uma vivência realizada pelo Psicólogo e Tanatólogo Aroldo Escudeiro (coordenador da Rede de Tanatologia no Brasil) na semana acadêmica da minha faculdade, surgindo então a possibilidade de fazer uma formação na área.

O que lhe habilita para atuar como tanatóloga?
Uma formação em Tanatologia que é ministrada pela Rede Nacional de Tanatologia, da qual hoje faço parte como Coordenadora Operacional e professora de um dos módulos apresentados. É uma formação teórica que auxilia o profissional no diagnóstico e intervenção correta nos processos de luto.

Em que momento é necessário à intervenção de um profissional na terapia do luto?

Vejo como fundamental a procura de uma terapia voltada ao luto em dois momentos, primeiramente quando a pessoa sente-se fragilizada  com a perda e sente necessidade de expressar suas emoções diante do luto e não tem um espaço para isso e, principalmente, quando ela não está conseguindo retomar as suas atividades normais devido ao sofrimento.

Como os familiares podem ajudar neste processo?
É fundamental que a família acolha a pessoa que está em sofrimento, proporcionando um espaço aonde ela posso se expressar e falar sobre o assunto. Também deve ficar atenta a intensidade e duração das reações e sentimentos diante da perda, principalmente na readaptação cotidiana sem a pessoa perdida, pois o luto pode vir a complicar-se quando não for elaborado.

Em que momento pode-se perceber que o luto está finalizado?
Quando a pessoa que perdeu seu ente querido consegue retomar as suas atividades e fazer novos investimentos na sua vida, ela então internaliza a pessoa perdida, lembrando da mesma com tranquilidade.

Fale um pouco da Rede Nacional de Tanatologia...

A  Rede Nacional de Tanatologia é a pioneira na divulgação e na formação de profissionais, ofertando cursos presenciais e à distância, na modalidade de workshops e formações. É uma rede de relacionamentos, pesquisa e ensino em Tanatologia que procura difundir e promover discussões entre estudantes, pesquisadores e interessados pela área.
Em nosso site (www.redenacionaldetanatologia.psc.br) estão disponíveis informações sobre nossos cursos, bibliografias, artigos, filmes e os livros da rede, que também podem ser adquiridos comigo.

Como e onde acontecem as formações?
As formações acontecem em todo Brasil e também na América Latina, nos países como Colômbia e Argentina. Na nossa região iniciou no mês passado a segunda turma em Santa Rosa, neste mês a primeira em Santo Ângelo e em breve será lançada a segunda turma em Três de Maio (interessados podem me procurar).

Cada pessoa vivencia o luto de forma diferente. O que você pode falar sobre isso?
Os sentimentos e reações diante de uma perda são sempre subjetivos e envolvem vários fatores como o grau de relacionamento com a pessoa perdida, como foi à morte, quais os papéis que eram desempenhados por essa pessoa, entre outros.

Crianças, adolescentes e adultos reagem de forma diferente em relação à morte ou a perda?
Sim, principalmente na Infância. Temos que ter um cuidado com a forma que falamos da morte, pois a compreensão da criança vai se limitar ao período cognitivo em que se encontra. É importante que não seja utilizado metáforas como "a vovó virou uma estrelinha" e ou "está no céu", típicas de nós adultos, pois a criança entende de forma literal. É fundamental falar com clareza para criança o que está acontecendo, salientando as suas dúvidas e afirmando que a pessoa não irá voltar.
Já na adolescência e na adultez cognitivamente já existe a compreensão da morte, porém os adolescentes muitas vezes emocionalmente não estão preparados para enfrentar uma perda, como acontece também com muitos adultos.

Não necessariamente, a perda real como a morte, causa dor.  Perdas simbólicas, como mudanças de escola, separações, perdas de trabalho ou mesmo, perdas financeiras, geram sofrimento. O que pode falar sobre isso?
O processo de luto não acontece somente na morte, mas nas diferentes perdas cotidianas que vivemos no decorrer de nossas vidas. O final de uma relação amorosa, a separação dos pais, as perdas simbólicas vivenciadas pelos adolescentes, a perda de um emprego. Em todos os âmbitos, aonde existe um investimento de energia psíquica e emocional que não dá certo existe um processo de luto que quando não vivenciado e/ou elaborado corretamente, pode anos mais tarde se apresentar através de distúrbios depressivos, ansiedade, síndrome do pânico, etc.

Existe alguma diferença no atendimento psicológico e o atendimento em Tanatologia?
Sim. Enquanto que a maioria dos atendimentos psicológicos acontecem em um setting terapêutico e o paciente vai até o consultório, na Tanatologia o profissional pode e deve se dirigir quando for necessário até aonde o seu paciente está, seja em casa, no hospital ou nos mais diversos locais.

Quais são suas ponderações finais aos nossos leitores?
Para finalizar quero salientar a importância do auto conhecimento e da busca  de uma ajuda profissional nos momentos de dificuldades com quais nos deparamos durante a vida. Lembrando que não é um sinal de fraqueza, muito pelo contrário, feliz quem consegue perceber-se e estender a mão para que outro alguém a possa segurar e auxiliar na travessia desse percurso tão difícil, como a perda de algo ou alguém que nos é significativo. Como disse Pablo Picasso: "A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos..."




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