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Ouvidos surdos para sofrimentos mudos

19/12/2014 - Por Arlete Salante
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Organizando materiais de estudo encontrei a monografia de graduação apresentada em 2000, o título é inspirado no poema de uma paciente.  Nestes momentos, tem-se a dimensão da dor e da delícia de se ser o que é. Na época universitária e estagiária do CAPS de Ijuí-RS, sofria ao ver e ouvir pessoas amordaçadas em seus sofrimentos, submersas em camisas de força psíquicas através da medicalização. Prática que só cresceu, inclusive para adaptar sujeitos saudáveis, à normose social. Segue algumas conclusões do estudo:

"Indiferente à subjetividade, o discurso médico, na sua objetividade científica, faz-se representar por ouvidos que se tornaram surdos em detrimento das pressões do método clínico. 
 
Os sujeitos inseridos no discurso, meramente medicamentoso, submetem-se ao poder da indústria de fármacos. São aqueles cujos gritos de dor são mudos, não conseguem se fazer ouvir a partir do lugar em que se encontram. O estado de objetalização, momento inicial do estágio do espelho, já fez sua inscrição na forma de alienação ao desejo do Outro, e enquanto se reconhece apenas o que é do outro não há espaço para o próprio desejo, não há voz por mais que se grite e o sofrimento permanece mudo. 

A busca de equilíbrio na química cerebral pode ser o alívio imediato permeado por uma promessa de felicidade, que corresponde ao ideal social, de que os indivíduos de uma sociedade se mantenham ajustados, dentro de seus padrões.
O sofrimento sem voz abafa o sujeito de desejo e o medicamento torna-se mais uma via de alienação, entre tantos caminhos alienados e fortemente inscritos em cada um que cai neste lugar de cisão."

Quatorze anos depois deste estudo os fármacos amordaçam crianças, serem em estruturação psíquica e em condição de não autonomia. Que adultos autônomos busquem uma dose que acalme a ansiedade, em vez de tornar consciente a origem do distúrbio, ou ainda, queiram sorrir com fluoxetina, enquanto a realidade está caótica, é uma escolha assumida. Mas e as crianças? Elas estão à mercê de adultos que as submetem a contextos adoecedores.

A população corrobora com a prática ao desqualificar o profissional da medicina, se este não lhe prescrever alguma receita que abafe as angústias. O caminho das soluções instantâneas para conflitos de anos empurrados para o inconsciente, depois se manifestam nas crianças, organismos em formação. Mas também, com sintomas  indesejáveis em adultos, denunciando-se em desordem psíquica.

"Quem olha para fora sonha. Quem olha para dentro acorda" Carl Gustav Jung




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