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Três-maienses em missão de paz no Haiti

20/02/2015 - Por Jornal Semanal
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Militares três-maienses relatam as primeiras impressões sobre o Haiti

Alexandre Lesses, João Paulo Oliveira e Matheus Zimmermann estão desde o dia 13 de dezembro na capital Porto Príncipe. Eles integram o Batalhão de Infantaria de Força de Paz do 21º Contingente Brasileiro (BRABAT 21)

  Há cinco anos, o Haiti foi devastado por um terremoto. Em 12 de janeiro de 2010, em apenas 40 segundos, uma nação inteira veio abaixo. Mais de 300 mil prédios ruíram, incluindo as instituições de governo e a sede das Nações Unidas. O terremoto de 7.2 de magnitude, que deixou mais de 200 mil mortos, foi o pior já registrado nas Américas.

  Com cerca de 10 milhões de habitantes, o Haiti é uma terra marcada pela diáspora, ou seja, pelo deslocamento de grande parte da sua população. Estima-se que mais de dois milhões de haitianos tenham deixado o país por causa das turbulências políticas, em busca de melhores ofertas de trabalho ou condições de vida. Após o terremoto, não foi diferente. Milhares de haitianos cruzaram fronteiras para recomeçar suas vidas em outros países, inclusive o Brasil. Pelo menos 30 mil deles chegaram ao território nacional desde 2010 levando memórias de um dia que mudou a história da nação caribenha.

  Pelas ruas de Porto Príncipe, capital haitiana, a destruição ainda é a principal marca. A reconstrução é lenta, mas conta com ajuda de civis, militares e a ajuda internacional, liderados pela Organização das Nações Unidas (ONU).

  Desde 2004, o Brasil comanda uma Missão de Paz no país caribenho, trocando a cada seis meses mais de mil soldados que mantém lá. A operação integra a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti - Minustah, que atualmente conta com mais de cinco mil militares de todo o mundo.

   A atuação das forças de paz contrasta com a miséria agravada pelo terremoto. E neste cenário, três jovens três-maienses integram o Batalhão de Infantaria de Força de Paz do 21º Contingente Brasileiro (BRABAT 21): Alexandre Lesses, João Paulo Oliveira e Matheus Zimmermann, que atuam como fuzileiros. Por meio das redes sociais, os militares relataram ao jornal Semanal as primeiras impressões que tiveram do país, em especial de Porto Príncipe, onde integram a missão desde o dia 13 de dezembro, com retorno previsto para o mês de junho.

"Apesar das dificuldades, povo haitiano é muito alegre"

Alexandre Lesses, 21 anos, confessa que a primeira impressão foi muito negativa. "O país vive em uma desordem enorme. Muita sujeira por todos os lados, muita criança brincando no esgoto e no lixo, comida sendo comercializada no chão ao lado do esgoto, um trânsito maluco e desorganizado. Mas, nesse pouco tempo que estou aqui, já pude notar que as pessoas são felizes mesmo assim, pois o país ja esteve muito pior a 10 anos antes da chegada das tropas da ONU aqui", conta.

Ainda, sobre o povo haitiano, ele assinala que embora as dificuldades, as pessoas estão sempre sorrindo, escutando música, cantando e conversando com os militares. "As crianças nos vêem e saem gritando e abanando. Os adultos nos tratam bem, mas tem uma visão diferente. Alguns olham pelo ponto político, acham que somos invasores e outros já acham que somos a salvação", avalia.

João Paulo Oliveira, 20 anos, reforça a opinião do colega. "É um país desestruturado, sem organização, um trânsito que ninguém entende", relata o jovem que conta uma curiosidade. "As pessoas, mesmo no meio de tanta pobreza, mandam seus filhos para a escola muito bem arrumados, é incrível. E também há muitas feiras ao longo das ruas onde se vende de tudo um pouco, é uma correria".

 
Alexandre Lesses, 21 anos                                               João Paulo Oliveira, 20 anos


"O Mercado Le Salines, em Porto Príncipe,
é um dos locais mais fétidos que já conheci"


Matheus Zimmermann, 22 anos, também enfatiza que o povo do Haiti vive abaixo do nível da miséria, não existe nem um tipo saneamento básico, esgotos correm a céu aberto e as pessoas moram em barracos feito de lona e zinco por consequência do terremoto.

Mas a pior impressão foi o Mercado Le Salines, em Porto Príncipe, que segundo o fuzileiro, é um dos locais mais fétidos que já conheceu. "Localizado na beira-mar e em frente ao porto do país, o mercado é frequentado diariamente por uma média de 10 a 15 mil pessoas, entre vendedores e consumidores de todo tipo de objeto, em especial, comida (frutas e verduras) e roupas usadas. Além do odor insuportável, porcos se misturam a seres humanos numa disputa constante por espaço e comida", diz o militar.

Para Matheus Zimmermann, 22 anos, apesar da pobreza e dos problemas sociais,
povo haitiano, principalmente as crianças, estão sempre sorrindo



"Nou you isit la nou pran swen pou shieldin nan yonmoun",
ou traduzindo, "estamos aqui, zelamos pela segurança de um povo"

Mesmo em meio a tanta miséria e sofrimento, os militares três-maienses resumem que  é muito gratificante participar da  missão  e que até o momento não vivenciaram nenhum tipo de situação perigosa.

João Paulo só lamenta a saudade da família. "A gente já sabia que não iria ser fácil. Mas  o bom é que  tem telefone fixo que dá para ligar para o Brasil. A internet também contribui  para matar a saudade", completa.

Ele descreve ainda o aprendizado que está tendo. "O povo haitiano é muito trabalhador e tem muita esperança que um dia o país mude para melhor ", diz o militar, citando uma frase no idioma do Haiti, o crioulo, língua baseada no frânces. "Nou you isit la nou pran swen pou shieldin nan yonmoun", que traduzindo para o português significa, "estamos aqui, zelamos pela segurança de um povo".

Matheus também destaca que se sente realizado, já que os haitianos gostam muito dos militares brasileiros.  "eles  nos chamam de 'Bombagai',  que significa  gente boa. Muitas crianças, falam português", conta. Alexandre, por sua vez, garante que não se arrepende de sua escolha e que até o momento houve poucos incidentes, pois o país está em uma fase de ambiente seguro e estável.

E nem tudo é só trabalho, pois os militares também recebem dias de folgas, quando podem  viajar para algum país vizinho. Alexandre revela que logo após a chegada, teve cinco dias de folga, quando ele  e mais alguns colegas viajaram para a República Dominicana. "Passamos os cinco dias em um resort em Boca Chica, na beira do famoso mar do Caribe. Também conhecemos a capital dominicana Santo Domingos", revela.

Em Porto Príncipe há muitas feiras ao longo das ruas onde se vende de tudo um pouco.
Trânsito é caracterizado pela desorganização e correria


A Missão de Paz
Nome - Minustah é Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (na tradução do frânces para o português).
Integrantes - São hoje 1.173 brasileiros, de um total de mais de 5 mil militares. Ainda há 2.425 policiais da ONU, 437 civis, 1.302 haitianos e 195 voluntários.
Objetivos - Estabilizar o país, favorecer eleições, fomentar o desenvolvimento e desarmar os milicianos.
Custo e retorno - O Ministério da Defesa informa que o Brasil investiu R$ 2,1 bilhões na missão e recebeu como retorno da ONU US$ 333,9 milhões.






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