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Geração NEM-NEM: um dilema familiar e social

27/02/2015 - Por Jornal Semanal
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Em todo o país, cresce o número de jovens que não estudam, nem trabalham. Estudo aponta que 3,2 milhões se encontram na situação denominada como "nem-nem"

Você certamente conhece ou ouviu alguém dizendo: aquele menino (ou menina) não estuda, não

trabalha, não faz nada. De certa forma, é comum encontrar jovens e até pessoas não tão jovens assim nesta situação.

Mas dificilmente eles assumem esta condição e falam abertamente sobre o assunto.

Durante algumas semanas, tentamos contato com vários jovens que por opção, ou por qualquer outro motivo, abandonaram os estudos, estão sem trabalhar, e no momento, estão literalmente, sem fazer nada, de 'pernas pro ar'. Muitos admitem que não se interessam por nada, outros dizem que são muito jovens para trabalhar, e ainda, tem aqueles que não sabem qual rumo seguir. Temporária ou permanente, a situação destes jovens é preocupante e faz parte de um universo que ganhou até uma denominação: geração nem-nem.

Um estudo da pesquisadora Joana Monteiro, da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV), com base nos dados de 2011 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que dos 19 milhões de pessoas de 19 a 24 anos, 3,2 milhões ou 17% estão na situação denominada como nem-nem, o que pode significar perda de produtividade do mercado de trabalho nos próximos anos. Desses, um milhão tem o ensino fundamental incompleto e 1,5 milhão pertence a classes de renda mais baixas da sociedade, cujas famílias vivem com até dois salários mínimos.


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Dos 19 milhões de pessoas de 19 a 24 anos, 3,2 milhões ou 17% estão na situação denominada "nem-nem".
Desses, 1 milhão tem o ensino fundamental incompleto e 1,5 milhão pertence a classes de renda mais baixas da sociedade, cujas famílias vivem com até dois salários mínimos.

No Brasil, existem gerações sucessivas de 'nem-nem'. Ou porque pararam de estudar e não têm condições de cursar uma universidade ou porque estão desalentados ou porque, no caso das mulheres, engravidaram cedo ou ainda porque estão no trabalho informal.

Outro fator é a vulnerabilidade a que esses jovens "nem-nem" estão suscetíveis, incluindo a criminalidade.

Há dois perfis dentro desse grupo. O primeiro formado por aqueles em que a inatividade é temporária, não havendo com o que se preocupar já que provavelmente serão inseridos no mercado de trabalho ou na escola em pouco tempo. O segundo é formado por aqueles em que a situação pode se tornar permanente e irreversível, jogando contra o desenvolvimento do país.
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Confira nesta reportagem, o que a psicóloga, especialista em Psicoterapia (consultoria psicológica individual e empresarial), Arlete Salante tem a dizer sobre o assunto. Veja se em sua família ou no seu círculo de amizades existem jovens que se enquadram neste perfil e quais as dicas para ajudá-los.

JS - Quem são os jovens da geração nem-nem?
Arlete Salante -
Os jovens que nem trabalham e nem estudam compõe a dita geração nem-nem. Os pesquisadores fazem um discernimento de dois perfis dentro desse grupo. O primeiro formado por aqueles em que a inatividade é temporária, não havendo com o que se preocupar já que provavelmente serão inseridos no mercado de trabalho ou na escola em pouco tempo, e o segundo por aqueles em que a situação pode se tornar permanente e irreversível, jogando contra o desenvolvimento do país. A situação nem-nem é transitória em grande parte dos casos. Em três meses, por exemplo, se percebe que 27% dos inativos de 17 a 22 anos começam a entrar na População Economicamente Ativa (PEA) e 8,5% voltam a estudar. É um intervalo em que o jovem está pensando no que fazer, conforme afirmação de Naercio Menezes, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Instituto de Estudos e Pesquisa (Insper).
 
JS - Na sua avaliação, porque ocorreu o surgimento dessa geração nem-nem?
Arlete Salante -
O problema não é isolado de um país ou outro, é um fenômeno que ocorre também na Europa e faz refletir sobre as mudanças comportamentais das sociedades e o atraso no modelo de educação, mas vou me deter em modelos afetivos impressos na educação familiar: Há anos se fala de uma adolescência prolongada porque os pais querem seus filhos próximos, então nas últimas décadas é comum jovens adultos permanecem na casa dos pais ou dependerem deles economicamente por mais tempo. Esta mudança se deu a partir das décadas 70/80, com este modelo de hiperassistencialismo afetivo.
Quando os adultos de referência, sejam pais, parentes ou professores, investem no jovem para torná-lo conforme lhes convém, ou seja, querem fazer o jovem para si ou para compensar seus próprios fracassos, ocorre uma distorção, porque preparam o jovem para ficar junto a si como dependente ou ainda para concretizar o que eles próprios não conseguiram. Assim, vejo muitos jovens que dos 16 aos 26-27 anos despreparados, inseguros, sem rumo, alguns usando a máscara da superioridade, outros da rebeldia como ponto de apoio.
 
JS - Conforme a pesquisa, existem jovens nem-nem em todas as classes sociais, mas especialmente nas classes mais baixas. Não deveria ocorrer o contrário, onde o jovem mais carente deveria ir em busca de estudo e emprego para melhorar suas condições de vida?
Arlete Salante -
Na vida destes jovens há uma falta de pessoas a se espelhar. A falta de uma figura paterna, ou de orientação familiar que incentivo desde cedo à criança a se desenvolver cognitivamente, somado a baixa qualidade de muitas escolas públicas, configuram para o jovem um desânimo, afinal ninguém que ele conheça mostra que é importante estudar e fazer suas conquistas. Muitas vezes não faz parte do mundo dele, há um sentimento de impotência e ele não acredita que possa melhorar suas condições, então porque se sacrificar?
Há também o problema do hiperassis-tencialismo aos mais pobres, o que inverte a hierarquia: não são mais importantes aqueles quem trabalham, produzem, aprendem para dar mais aos outros. Forma-se uma cultura de privilegiar os pobres que "devem" ganhar sem dar contrapartida e pior, ainda culpando e penalizando quem tem mérito pelo próprio sacrifício, quem emprega pagando altos impostos.
Outros aspectos desta mesma cultura assistencial são:
- a permissividade que exalta a antecipação da sexualidade nos jovens;
- a gravidez na adolescência que leva evasão escolar;
- o modo de ensino pouco atrativo.
Mas, nada disso impede um futuro melhor para aqueles que decidiram assumir a responsabilidade da própria vida a conquistar seus objetivos fazendo os sacrifícios necessários.
 
JS - Nesta faixa etária dos 18 aos 24 anos, no seu entendimento, o jovem ainda não tem maturidade para fazer escolhas, por isso opta em "não fazer nada"?
Arlete Salante -
É uma fase de escolhas e como se observa nos dados, 27 % tomará um rumo. A maturidade para escolhas é resultado de orientações nos anos anteriores. O tal "desalento" que os pesquisadores falam traduz-se em desânimo e acomodação porque não tiveram uma educação familiar e escolar que primasse pela autenticidade, ou seja, que provocasse despertar as suas competências. Muitos se desencantam com a escola, onde encontraram uma realidade maçante, muitas vezes com professores despreparados e desmotivados.
Além disso, não podemos esquecer que há muito vitalidade física. Quando esta vitalidade não está direcionada para algum objetivo, é suscetível a consumir-se em relações afetivas cada vez mais cedo, sexo, bebida, drogas. Basta ouvir os estilos musicais mais tocados no Carnaval e nas rádios para perceber a exaltação do biologismo, com produções musicais que destacam o sexo como ato mecânico mostrado nas coreografias repetidas por jovens entorpecidos com este consumismo em si mesmos.
 
JS - Qual a orientação para o jovem que está no momento sem perspectiva de vida, desmotivado por não ter emprego ou não estar estudando?
Arlete Salante -
Antes de tudo a consciência e responsabilidade sobre si. Esta consciência deve produzir ações que mudem a própria realidade. A ação é o que muda o rumo da sua vida. As ideologias, as fantasias e os amores passam. Todo o resto é transitório, só a inteligência permanece se for bem usada. Todos vão envelhecer num piscar de olhos, e para que não haja arrependimentos é preciso enxergar as oportunidades e agarrá-las, ser humilde em aprender fazer alguma coisa bem feita, querer servir, ser útil, fazer bem feito hoje para colher amanhã. Se quiserem ser líderes devem trabalhar e estudar mais do que os outros.
A seguir a compreensão da reciprocidade, ou seja, se é amado deve amar, se ganha também deve dar. A família ou o Estado não tem obrigação de mantê-los, protegê-los e poupá-los dos sacrifícios necessários para bom aprimoramento das competências. Quando o jovem neste período aproveita sua força, colherá bons frutos mais tarde, não há imediatismo ou saltos na vida, isso muitos jovens não aceitam.
 
JS - E qual o papel dos pais e da escola?
Arlete Salante -
Os adultos de referência podem orientar desde criança uma educação que mostre a lógica das consequências de suas escolhas. Cada escolha precisa ser responsabilizada, sem economizar dor. Crescer dói para muitos, porém quando o percurso é direcionado traz crescimento.
Considero a educação que prima pela autenticidade o caminho não aumentar estas estatísticas de jovens em desalento. A palavra educar na sua etimologia - educare - significa nutrir, alimentar, conduzir fora o valor intimo do educando. Esta educação é de casa, a escola tem função de ensinar e a família de educar, a escola deve dar sequencia conduzindo para aprimoramento cognitivo e apresentando caminhos, conforme talento de cada aluno.

JS - Como os pais devem agir diante dos filhos que não tem interesse em estudar ou buscar uma colocação no mercado de trabalho?
Arlete Salante -
Fazer assistencialismo não educa para vida. É importante conduzir o jovem para um julgamento concreto de si: o que gosta de fazer? O quanto sabe fazer? Do que precisa abrir mão para obter qualificação? Além disso, a educação financeira mostra à realidade da vida em sociedade e desperta a inteligência. O mundo move-se pela energia monetária, ou seja, se eu tenho dinheiro posso se não tenho não posso. Logo, para ter o que se quer é preciso produzir, conquistar, merecer, não apenas ganhar. Vemos pais reféns de filhos tirânicos, pais que abrem mão de projetos pessoais para dar tudo aos filhos, formam indivíduos incapazes de enfrentar os desafios cotidianos, em vez de conduzi-los a produzir o próprio ganho.



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