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Professor não erra, professor se engana

09/10/2015 - Por Jornal Semanal
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Gustavo Griebler*
   Começo esta homenagem aos professores neste mês de outubro, lembrando de uma situação cômica vivenciada por mim em uma aula do mestrado há um tempo atrás. O professor em suas reflexões altamente filosóficas por ora disse uma informação de maneira incorreta, no que foi corrigido por algum colega mestrando. De pronto, falou que professor não erra, se engana. Ele, por trás dessa expressão, quis dizer muita coisa, mas eu captei que ele não queria descer do seu púlpito reconhecendo seu erro, o que, nos dias de hoje, está totalmente errado. Professor tem de juntar-se aos alunos, talvez dar um tapinha nas costas e ver se está tudo bem, perguntar como está indo o aprendizado, etc.
   Em outro momento, comigo na condição de professor, em uma explicação, com a turma barulhenta em uma sexta à tarde, esqueci de colocar um símbolo matemático que resultou em um resultado incorreto. A turma chiou. Perguntei para a turma o que fazer quando erramos? Procuramos o erro, corrigimos e nos desculpamos.  Eles me aplaudiram depois. Professor não ensina somente conteúdos, professor dá conselho. Professor desce do seu púlpito e reconhece seus erros.
   Mas neste ano em que escrevo para os professores, gostaria de dedicar algumas linhas para dois alunos com quem tive e tenho o prazer de conviver. Eles se chamam Kevin e Renato. São adolescentes como outros de sua idade. Ouvem música, mexem no computador, conversam com seus amigos. Uma coisa os torna especiais em relação aos outros de sua idade: Kevin é cego e Renato enxerga muito pouco. Kevin tem um irmão gêmeo que enxerga perfeitamente, enquanto ele perdeu a visão com o tempo e me relatou que enxerga em torno de 6%. Renato relatou-me que enxerga um pouco mais, em torno de 20%, mas mesmo assim isso o limita em muitas coisas e precisa de acompanhamento constante utilizando um software especial para aprendizado, no qual nós professores temos de passar material adaptado.
   No final de 2014 eu já sabia que daria aula para estes dois meninos. Algo totalmente novo e diferente para mim. Mas encarei. Passei boa parte de janeiro e fevereiro estudando os conteúdos e pensando nas formas de adaptação para estes alunos. Chegou março, e o ano letivo iniciou. Lá estavam os dois, sentados bem à frente, somente ouvindo, não vendo meus gestos, não vendo eu andar de um lado a outro, mas sentindo quando eu me aproximava, encostava a mão em seus ombros e lhes pedia se estava tudo bem com o conteúdo, se estavam conseguindo acompanhar, enfim, se o aprendizado estava sendo realizado. Um detalhe que fez eu pensar bastante foi a questão de como matérias totalmente visuais, que eu explicava apontando no quadro, eu transformaria em acessíveis para alunos com problemas visuais. Nada que uma boa conversa com os alunos não resolvesse. Inclusive um dos alunos desenvolveu um sistema para me ajudar a trabalhar com eles com base no modelo de aprendizado que apresentei a ales no início do semestre.
   Experiências novas e desafiadoras fazem parte da rotina escolar dos professores e cabe a eles encarar este desafio. Afinal de contas, me remeto a uma imagem da profissão docente muito significativa que diz que para uma seleção justa uma turma deveria escalar uma árvore. Detalhe: a turma era composta por macacos, elefantes, pássaros, peixes e pinguins. Ou seja: nunca teremos uma turma uniforme no aprendizado, sempre teremos o aluno que aprende em dois segundos e o que leva duas aulas. Educação é isso.
* Mestre em Educação nas Ciências. Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico e Coordenador Geral de Ensino Substituto do Instituto Federal Farroupilha - Campus Avançado Uruguaiana




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