Domingo, 30 de abril de 2017
Ano XXIX - Edição 1454
(55) 3535-1033
jsemanal@jsemanal.com.br
diagramacao@jsemanal.com.br

Uso de agrotóxico triplica em uma década no Brasil

15/10/2012 - Por Jornal Semanal
Tweet Compartilhar
O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos de todo o mundo. Entre 2000 e 2008, a comercialização do produto movimentou valores de quase U$ 50 bilhões. Com o crescimento da agricultura, na última década, a venda desses produtos no país aumentou 190%, enquanto a taxa mundial de consumo cresceu 93%.
De acordo com a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, 14 agrotóxicos vendidos no Brasil já estão proibidos em outros países porque são suspeitos de causar doenças, inclusive o câncer. A utilização do produto na agricultura no Rio Grande do Sul foi discutida na semana passada no Encontro Gaúcho Agrotóxicos, Receituário Agronômico e Alimento Seguro evento promovido pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (CREA-RS) e realizado no Teatro Dante Barone, da Assembleia Legislativa do Estado, em Porto Alegre.
Segundo a biomédica da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz-RJ), Karen Friedrich, foram abordados os efeitos dos agrotóxicos nos alimentos, na saúde humana e no meio ambiente. "Cerca de 80% da venda de agrotóxicos é destinada para a produção de soja, milho, cana-de-açúcar e algodão. As grandes commodities são as responsáveis pela maior utilização de agrotóxicos no Brasil", afirmou Karen.
Baseando-se em diversas pesquisas acadêmicas, a biomédica também falou sobre como os agrotóxicos afetam a saúde das pessoas. "Os efeitos podem ser agudos - aqueles constatados logo após a exposição aos produtos - como alergias, vômitos e dor de cabeça, e crônicos, que aparecem muito tempo depois do contato, como câncer, desregulação do sistema hormonal, neuropatias e diminuição da fertilidade".
Karen também chamou a atenção para a presença de agrotóxicos nos alimentos como carnes, frutas, legumes, processados e até no leite materno. "A água também pode ser fonte de contaminação, mas o monitoramento não é adequado no Brasil e não sabemos a qualidade da água que ingerimos", alertou.
Conforme dados do Sistema de Informações Tóxico-Farmacológicas, da Fundação Oswaldo Cruz, mais de 50% dos óbitos causados por intoxicação na região Sul do país são causados por agrotóxicos de uso agrícola ou doméstico.
O diretor técnico da Emater/RS, Gervásio Paulus falou do crescimento da utilização de agrotóxicos no país, que hoje é o maior consumidor mundial, passando de cerca de 600 milhões de litros em 2002, para 850 milhões de litros em 2011. "O aumento no consumo foi muito maior do que a expansão da área cultivada, ou seja, hoje o produtor está utilizando uma quantidade maior de agrotóxicos por hectare".
Paulus demonstrou que o uso de agrotóxicos no Brasil é maior em áreas de monocultura. "A Metade Norte do Rio Grande do Sul, onde se concentra a produção de grãos, é uma das regiões de maior consumo de agrotóxicos no país. O mesmo acontece nos estados do Mato Grosso, São Paulo e Paraná, onde a monocultura é intensa", ressaltou.
Para o diretor técnico da Emater/RS algumas medidas podem ser tomadas para a redução e até eliminação do uso de agrotóxicos como, por exemplo, o fomento à produção técnica e científica e o investimento em pesquisas na área da Agroecologia, a sensibilização de técnicos e produtores rurais para sistemas alternativos de produção, e o estímulo de práticas agrícolas sustentáveis.

Agrotóxico nos alimentos: pimentão, morango e pepino são os alimentos mais contaminados
Realizado anualmente, o PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos) da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) avalia a qualidade dos alimentos e os níveis de agrotóxicos nas amostras recolhidas no varejo.
O último levantamento é de novembro de 2011, referente ao ano de 2010. Ao todo, 2.488 amostras foram analisadas. Destas, 28% foram consideradas insatisfatórias por apresentarem resíduos de produtos não autorizados (em 605 amostras) ou acima do limite permitido.
Segundo o estudo, os alimentos que entram na estatística das amostras com níveis de agrotóxico acima do recomendando deixam evidentes práticas que estão em "desacordo com as determinações dos rótulos": maior número de aplicações, quantidades excessivas de agrotóxicos aplicados por hectare, por ciclo ou safra da cultura, e não cumprimento do intervalo de segurança (intervalo entre a última aplicação e a colheita).
Dezoito alimentos foram analisados: abacaxi, alface, arroz, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, feijão, laranja, maçã, mamão, manga, morango, pepino, pimentão, repolho e tomate, escolhidos com base em dados do IBGE sobre consumo.

Como consumidor, o que devo fazer?
- Opte por alimentos de origem identificada, o que contribui para a adoção de Boas Práticas Agrícolas.
- Quando possível, dê preferência às opções orgânicas, que não usam agrotóxicos. Ainda é mais caro comer de forma saudável. O benefício, no entanto, pode vir no longo prazo;
- Escolha produtos "da época", que não precisaram ser conservados por tanto tempo, portanto são mais frescos;
- Lembre-se de que lavar os alimentos ajuda a reduzir os resíduos de agrotóxicos, mas não os elimina.
- Mesmo que o resultado não seja 100%, lave bem os alimentos. De acordo com a Anvisa, não é comprovado que o uso de água sanitária na lavagem remove resíduos de agrotóxicos. A finalidade é matar agentes microbiológicos que podem estar presentes no alimento (essa higienização deve ser na proporção de uma colher de sopa de água sanitária para um litro de água).

O ranking dos alimentos mais contaminados

Pimentão        91,8%
Morango         63,4%
Pepino            57,4%
Alface             54,2%
Cenoura        49,6%
Abacaxi         32,8%
Beterraba     32,6%
Couve           31,9%
Mamão          30,4%
Tomate          16,3%
FONTE: ANVISA

Projeto que trata do controle de agrotóxicos é arquivado
Foi arquivado no fim de setembro, durante a reunião de líderes da Assembleia Legislativa do Estado, o projeto de lei 78/2012 que sugeria alterações na lei estadual que trata do controle de agrotóxicos. A proposta permitiria o consumo de produtos, hoje proibidos pela legislação gaúcha, mas vendidos no restante do país.



Indicar a
um Amigo

Comentários

Deixe a sua opinião

Veja Também

13/04/2017   |
31/03/2017   |
03/03/2017   |
17/02/2017   |
17/02/2017   |
10/02/2017   |




Todos os direitos reservados - Jornal Semanal - Três de Maio - RS