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Fantasma da inadimplência

01/04/2016 - Por Jornal Semanal
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  O fantasma da inadimplência ronda lojas, lojistas, grandes redes, enfim praticamente todos os setores. Segundo a Serasa Experian, o número de pessoas inadimplentes no início de 2016 erá de 59 milhões de brasileiros, um aumento de quase 5 milhões de pessoas, ou 9,1 %, em relação a janeiro do ano passado. Destes, 60% dos inadimplentes têm contas mensais a pagar que custam acima de 100% de sua renda mensal.

  A culpa não é dos consumidores de baixa renda, que chegaram recentemente ao mercado. Apesar de os especialistas convidados para as entrevistas afirmarem que falta educação financeira aos consumidores, especialmente aos mais pobres.

  Induzem ao erro, aparentemente sem má fé, os lojistas e gestores de redes que atendem grandes massas. Por que? Esses especialistas geralmente têm vínculos profissionais ou são oriundos de organizações financeiras focadas exclusivamente na oferta de crédito, sem se preocupar com a realidade dos clientes que assumirão as prestações.

  São profissionais treinados e incentivados a "alcançar metas a qualquer custo", sem nenhum constrangimento em "empurrar" o crédito, sem avaliar através de uma interação humana, as possibilidades de pagamento dos clientes.

Na agressiva oferta de crédito, os lojistas e até mesmo as grandes redes foram cooptados pelas principais instituições financeiras e se tornaram dependentes dessa relação.

  Além disso, se transformaram nos principais canais de aliciamento de consumidores com alguma saúde financeira, que estavam, como se diz, com o nome limpo.

  A agressividade dos predadores de crédito tornou inadimplentes mais de um quarto da população brasileira (57 milhões), em menos de uma década, conforme constatou o Serasa.

  Consequência da cumplicidade entre financeiras e lojistas que induziram, irresponsavelmente, os consumidores a assumir créditos com juros elevados e  embutidos nas famosas "dez prestações sem juros".

  Os consumidores, especialmente os de baixa renda, descobriram, intuitivamente, que foram induzidos a cair nos corredores poloneses do crédito imposto pela aliança entre as financeiras mais agressivas e as lojas ou redes, suas cúmplices.

  Caíram na armadilha quando consumiram para satisfazer a demanda altamente reprimida e até atingir os limites insustentáveis de inadimplência. Que incomoda tanto o lojista quanto o cliente.

  Mas após dez anos de consumo intenso a demanda reprimida está satisfeita. E coincide com a renda familiar superada pelo montante de dívidas contraídas. O que obriga esses consumidores, por pura necessidade, a priorizar o pagamento das prestações assumidas. Ou seja, a deixar para trás as contas que não cabem no orçamento mensal.

  O que fazer?

  É hora de humanizar, de novo, o relacionamento entre lojistas e clientes. E resgatar para a análise de oferta de crédito ferramentas que agilizam o processo mas que incorporem na decisão final as expertises humanas, com conscientização, integração e ajuste da oferta de crédito à real capacidade de pagamento das dívidas assumidas.

  O que levaria a incorporar na decisão final da oferta de crédito o ponto de vista (e os interesses) do lojista e das redes.   Ou seja, voltar ao básico de toda e qualquer venda: se lembrar sempre que estamos tratando com gente. Tanto do lado do lojista quanto do lado do cliente. E que a harmonia entre os dois interesses, intermediado pelas financeiras, é que garante os círculos virtuosos de nossa economia.

 

 

Celso Amâncio - especialista em concessão de crédito para o consumidor popular -- Foi diretor de crédito da Casas Bahia, de 1976 a 2005, durante a expansão da rede de 13 lojas para 500 lojas; 90% da expansão da rede foi garantida, nesse período, com a concessão do crédito e pela fiança emocional, desenvolvida por Celso Amâncio; que também criou  a metodologia com a garantia da inadimplência sustentável; sua experiência como diretor de crédito da Casas Bahia foi aproveitada negociando a aprovação do Banco Carrefour pelo Banco Central do Brasil. No Banco Carrefour acumulou a presidência e o cargo C&O dos serviços financeiros no Brasil




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