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O Carnaval de Arthur

08/04/2016 - Por Jornal Semanal
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Gustavo Griebler*
Ele saía sexta de carnaval, após o expediente na repartição, não dizia para onde ia, com quem ia, mas na quarta-feira de cinzas ao meio-dia retornava para casa, pois, como bom servidor público que era, para entrar no serviço às 14h. Saía somente com a roupa do corpo. Voltava com a mesma roupa que fora, como se recém a tivesse colocado. Mais próxima a data chegava, mais alegre ficava. Na quarta-feira de cinzas, voltava realizado, como guri que ganha cueca nova.
Roberta imaginava onde Arthur ia todos os carnavais e seus pensamentos eram dos mais terríveis com relação a isso, mas fora um pedido que ele havia feito a ela. Pedira cinco dias livres no casamento no carnaval, das 18h de sexta-feira até às 12h de quarta-feira de cinzas. Há 10 anos era assim. E a realização do homem era algo inimaginável depois do evento e a ansiedade positiva dele igualmente quando o evento se aproximava a cada ano.
Até que no 11º ano de casados, Roberta não mais aguentou tudo isso e contratou um detetive para seguir Arthur quando este saiu. Chegou a quinta-feira anterior ao carnaval e Arthur já começou a mostrar sinais de felicidade estampadas em seus olhos e boca. Como sempre ele comunicou Roberta dos cinco dias longe dela, mas que na quarta-feira de cinzas estaria de volta. Roberta tentava disfarçar o ciúme em conjunto com a desconfiança, mas que neste ano iria verificar in loco a situação, se condizia com os seus terríveis pensamentos.
Na sexta, como de costume a cada carnaval, Arthur despediu-se com um longo e demorado beijo na boca de Roberta, seguido de um "Eu te amo". Roberta, como de costume, retribuiu com seu olhar de ciúmes que Arthur já se acostumara, no que ele sempre dizia "Não se preocupe, querida. Estarei de volta logo logo".
Ao bater a porta na saída, Roberta saiu em disparada para o telefone para avisar o detetive. Este já estava de prontidão na esquina da casa de Roberta e somente seguiu o Gol Branco que acabara de sair da frente da casa. Seu Malaquias, o detetive, chegou, observou, passou a noite inteira de butuca no lugar que Arthur estava, e ao amanhecer dirigiu-se para casa. No dia seguinte, repetiu o mesmo itinerário e depois e depois, até a quarta-feira de cinzas.
Como de costume, Arthur chegou radiante em casa ao final do quinto dia de carnaval. Roberta se mordia toda em ciúmes e ansiedade. Mas sua espera estava chegando ao fim. Naquela tarde mesmo, quando Arthur iria para a repartição, ela receberia a visita do detetive que lhe contaria tudo o que se sucedera naqueles longos cinco dias de carnaval que a faziam remoer por 11 anos a mesma cena.
Qual não foi a surpresa de Roberta ao escutar de Malaquias, o detetive, que 10 homens mais Arthur se reuniam em um clube, mais especificamente em uma cabana escondida e retirada do referido clube, no qual durante cinco dias os onze homens se vestiam de mulher e ficavam dançando, comendo churrasco e bebendo cerveja de noite e de dia. Sem mulheres, sem traição, sem nada. Somente festejando, onze homens, uma caixa de som, carne e cerveja. Festejavam de noite, dormiam um pedaço do dia, meio amontoados em três quartos da cabana, mas só isso, nada demais. Todos com aliança na mão esquerda. Todos fazendo nada demais. Só festejando a vida, festejando a festa da carne com carne. Carne de vaca, de porco e de galinha. Só isso.

*Mestre em Educação nas Ciências. Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico e Coordenador Geral de Ensino Substituto do Instituto Federal Farroupilha - Campus Avançado Uruguaiana



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