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Uso desenfreado das redes sociais: o que há por trás da autoexposição?

30/08/2016 - Por Jornal Semanal
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Para psicóloga, 'vive-se esta cultura da celebridade a qualquer custo, que reflete uma enorme carência de si mesmo, falta de autorrealização, uma busca desenfreada por ser alguém reconhecido, escravo do olhar dos outros sobre a sua vida'

As redes sociais estão presentes no nosso dia a dia. Seja nas relações pessoais ou profissionais, ocupam um espaço considerável na vida de muitos, encurtando distâncias e facilitando o acesso e a troca de informações de forma quase instantânea. Não se pode negar que as redes sociais têm muitas contribuições. Mas há o lado questionável. Será que isso não acaba se tornando um problema na vida dos usuários devido à forma de uso dessas redes?
Para responder a este questionamento, o Jornal Semanal entrevistou Arlete Salante, psicóloga, psicoterapeuta, consultora, docente e doutoranda em Psicologia na UCES - Buenos Aires - Argentina, MBA Business Intuition na Antonio Meneghetti Faculdade - Recanto Maestro - R; especialista em Psicologia Clínica pelo IGTB- Brasília-DF e especialista em Política e Gestão de ONGs pela UNB- Brasília - DF.

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Entrevista com 
Arlete Salante

Jornal Semanal: O que há por trás da grande autoexposição que se vê hoje nas redes sociais?
Arlete Salante: Percebo que vivemos uma dinâmica social que fomenta a exposição. A ilusão está em ser popular. Instituições e empresas premiam as pessoas que têm mais curtidas em suas postagens. Chegamos a este ponto de valorização da popularidade. Lembro-me dos filmes americanos para adolescentes que fazem de tudo para ser popular; essa cultura está se tornando mundial. 
A popularidade nas redes sociais tornou-se um vício para algumas pessoas, uma forma de existir pela imagem, pela forma sem precisar de conteúdo ou de ação para ser reconhecido. Inclusive, deixa-se de reconhecer quem tem algo a dizer para enaltecer o exibicionismo. Vive-se a falsa sensação que todos podem ser celebridade instantânea. A fantasia do momento está na busca pelo reconhecimento fácil.
No livro 'A civilização do Espetáculo', Vargas Llosa aponta que quando jogadores de futebol, atores e modelos ganharam grande presença midiática, tornando-se referência de consumo e comportamento, passando a influenciar, ditar moda, mesmo sem nada útil a dizer, as profissões antes em destaque, por pensarem a sociedade, como filósofos, professores, intelectuais e cientistas, foram substituídos por ideais de beleza e consumo.

Há pessoas que usam as redes sociais como um diário: tudo é compartilhado e visto em um mundo virtual. Por que as pessoas sentem tanta necessidade de se expor, compartilhando cada passo de suas vidas?
Vejo as redes sociais como uma excelente ferramenta para o contato entre as pessoas. Mas é perceptível que falta, para algumas pessoas, o critério, a medida e bom senso do que será exposto e do excesso.
As redes sociais, como já diz o nome, conectam as pessoas, formam redes de relacionamentos pessoais e profissionais de forma pública. Assim, pela rede nos tornamos pessoas públicas. O que destoa, e é uma grande exposição, da vida privada no espaço público.
Vive-se esta cultura da celebridade a qualquer custo, que reflete uma enorme carência de si mesmo, falta de autorrealização, uma busca desenfreada por ser alguém reconhecido, escravo do olhar dos outros sobre a sua vida. 

Muitas pessoas vivem uma vida virtual, geralmente muito diferente da vida real. Tudo o que fazem 'precisa' ser postado nas redes sociais. Em qualquer evento, lá estão os smartphones, seja para registrar fotos ou utilizar os aplicativos. O que buscam essas pessoas? 
Viver uma vida virtual ou construir uma vida pautada em aparências é responder ao mundo externo encobrindo suas faltas reais. Serve para evitar suas verdadeiras angústias, insatisfações ou falta de rumo na vida. Viver de aparências sempre existiu. Acontece que agora, com a tecnologia atual, cada pessoa pode se autopromover. 
 O 'preciso' postar pode ser lido como a necessidade permanente de aprovação, que também está implícita em que expor social é algo fixo na mente de muitas pessoas, mesmo que digam "não estou nem aí para os outros" estão escravizadas por quem curtiu ou deixou de curtir suas publicações. Há uma escravidão pela aprovação, os modelos 'copiados', ou seja, a pessoa sendo popular é reconhecida, tem uma breve sensação de satisfação, de estar aprovada neste aspecto da sua vida. Consomem imagens e se deixam consumir por elas.

Estamos vivendo em uma era de mudança de comportamento das pessoas?
O mundo está sempre mudando e os comportamentos acompanham os estímulos de cada momento. Os fatores de mudança são diversos. Atualmente, a grande influência está por conta da inserção da tecnologia e o acesso ao consumo. 
Há alguns anos, e nem se pode dizer antigamente, o registro de momentos felizes, eventos, encontros, festas, só ocorria se alguém portasse uma máquina fotográfica e revelasse o filme. Nessa época, pouco além da tecnologia ser menos desenvolvida, exigia mais recursos financeiros. Então, o que antes era luxo de alguns, hoje está disponível a todos. Muda o acesso aos bens de consumo, muda o comportamento. 
Porém, a exposição em excesso das banalidades do cotidiano ou da própria intimidade já são reguladas pelo mercado de trabalho. Ao receber os currículos de candidatos a trabalho, os empregadores visitam as páginas e compreendem, muitas vezes, o perfil da pessoa pelo tipo de postagem.

Falando especificamente de crianças: quais os riscos desta exposição desenfreada?
Agora entramos no aspecto polêmico que merece atenção. Se na rede tudo é público, será que não estamos colocando em risco as crianças e as famílias? Algo a se pensar. Primeiro no aspecto da segurança: sequestros e assaltos são favorecidos pela ganha de informações fornecidas na rede gratuitamente. Depois, existem os pedófilos e outros maníacos que estão disfarçados de 'amigos'. Basta lembrar que de tempos em tempos pessoas são flagradas assediando ou aliciando menores para o mercado sexual. 

Qual seria a ideal para a criança criar uma conta no Facebook, por exemplo?
O correto é seguir o que o Facebook determina: 13 anos de idade. É preciso que a criança aprenda com seus pais o cumprimento das regras sociais. Como esperar que as crianças aprendam limites e respeitem regras e leis se os pais são coniventes em burlar a norma da idade para o Facebook? Da mesma forma, quando comerciantes e promotores de festas vendem bebida alcoólica para menores.
Sei que o tema gera contrariedade em muitos pais, cada um encontra uma justificativa por ter, digamos, 'mudado a lei para benefício do seu menor', mas é preciso falar dos efeitos dos comportamentos dos adultos na conduta das crianças. Percebe-se que os pais se deixam seduzir por apelos dos menores e até chantagens das crianças que fazem imposições: "a mãe da fulaninha deixou, todo mundo têm Face, só eu não tenho."
A realidade que vejo no consultório é que os pais não querem ser 'atrasados' ou 'por fora', logo, acabam cedendo. Mas sabemos que a sequência de descumprimentos das normas em pequenas situações do cotidiano, dentro da família, pode gerar, mais tarde, comportamentos que a sociedade condena. Na cultura do 'todos podem tudo', crianças ou adolescentes que se julgam superiores aos adultos podem tornar-se tirânicos com os pais e avós, que se sentem escravizados pela falta de limites e descumprimento da ética e da boa conduta social. 

Qual o papel dos pais neste contexto? Devem monitorar o que os filhos acessam e com quem trocam informações?
O papel dos pais é sempre fundamental, é a palavra aliada ao exemplo. Charles Melmann, um renomado psicanalista francês, aponta que é pelo exemplo que se educa. Só a palavra é vazia, porque a força está no exemplo, é isso que faz verdade na criança. Precisamos de pais saudáveis, conscientes das suas responsabilidades e coerentes para dizer não e colocar limites quando necessário. Os valores éticos se constroem na família e depois se perpetuam na sociedade. Se vivemos uma crise ética na sociedade, precisamos nos questionar sobre a origem, sobre a parcela de cada um que forma o conjunto social. 
Oriento que os pais ou cuidadores devam estar próximos dos seus filhos menores em tudo, mas sem invadi-los. Cada criança é um novo projeto que a vida coloca, logo, devem ser respeitadas na sua autenticidade, incentivadas a conhecer a si mesmas e instruídas a compreender as regras e normas sociais para viver bem com o todo. Sugiro aos pais, professores e cuidadores, acompanhar os vídeos da Dr.ª Estela Giordani no Facebook, que nos diz o seguinte: "Supervisionar para que não entrem em real perigo, e intervir apenas quando se percebe que o que está fazendo resultaria em um erro grave contra si mesmo."

Arlete Salante

FOTOS: DIVULGAÇÃO / NAIR E VERÔNICA LOTTERMANN





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