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Suicídio: uma ameaça nem sempre invisível

14/10/2016 - Por Jornal Semanal
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A cada dia, 32 pessoas colocam fim à vida no Brasil. Para a Organização Mundial da Saúde, 90% dessas mortes poderiam ser evitadas, se os sinais não fossem banalizados 
No mundo, mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio, ou seja, uma morte a cada 40 segundos, sendo uma das principais causas de morte no mundo. No Brasil, são 32 mortes diárias. O Rio Grande do Sul lidera os registros no país, com 10,4 casos a cada 100 mil habitantes - dobro da média nacional. O suicídio mata, a cada dia, três gaúchos. Por ano, são mais de mil pessoas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, 90% dessas mortes poderiam ser evitadas. As razões para o suicídio podem ser diversas. Conforme dados de um estudo realizado pela Unicamp, 17% dos brasileiros já pensaram em dar um fim à própria vida em algum momento, e 4,8% destes chegaram a elaborar um plano para isso.
O suicídio é um gesto de autodestruição, realização do desejo de morrer, e esta escolha tem graves implicações sociais. Conforme informações do Centro de Valorização da Vida (CVV), de cada suicídio, de seis a dez outras pessoas são impactadas diretamente, sofrendo consequências difíceis de serem reparadas.
Pensar em suicídio faz parte da natureza humana e é estimulada pela possibilidade de escolha. O impulso também é uma reação natural, mas é mais comum nas pessoas que estão exaustas e emocionalmente fragilizadas diante de situações que despertam possibilidade de suicídio.
Para estimular a prevenção das mortes por suicídio, foi criado o Setembro Amarelo. No país, a campanha foi iniciada em 2014 pelo Centro de Valorização da Vida, pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Brasileira de Psiquiatria. A cada ano o movimento cresce, difundindo o slogan 'Falar é a melhor solução'. Por mais difícil que seja enfrentar a questão, estudiosos do assunto têm convicção de que o estigma é um dos principais obstáculos à prevenção.

'Não sei de onde tirei forças para superar a perda de dois filhos'
Célia Maria Espanhol, de 46 anos (foto abaixo) de Três de Maio, enfrenta um trauma diário. Mãe de seis filhos, ela perdeu dois por suicídio. O primeiro foi em 2010, quando seu segundo filho, na época com 17 anos, tirou a vida com um tiro. Cinco anos depois, em setembro do ano passado, uma filha, então com 23 anos, morreu após se jogar do nono andar de um prédio em construção na cidade.
Segundo Célia, o jovem era alcóolatra. Como a situação estava passando dos limites, a família queria interná-lo para tratamento, mas ele não aceitou. "Queríamos preservar a vida dele. Ele disse várias vezes que se mataria caso o internássemos", relembra a mãe.
No dia em que o jovem tirou a própria vida, ele estava trabalhando na construção da casa da família. "Naquele dia, ele havia bebido, e também portava, sem nosso conhecimento, uma arma. À tardinha, ele me chamou na rua e disse que queria falar comigo. Então, ele disse, antes de puxar o gatilho: 'mãe, estou cansado'. Eu pedi o que poderia fazer para ajudá-lo, e ele falou que ninguém poderia ajudá-lo. Meu filho morreu abraçado a mim, com um tiro na cabeça", recorda Célia. Para ela, o trágico momento jamais será esquecido. "Relembro tudo que aconteceu naquele dia. Não que eu queira, mas não tem como esquecer. Quando ele atirou contra a própria cabeça, foi como se tivesse me matado junto."
Cinco anos depois, em setembro do ano passado, outra filha de Célia também se suicidou. Com 23 anos, a jovem deixou uma filha, de seis anos. Conforme a mãe, assim como o filho, a filha havia demonstrado sinais e até falado que iria se matar. "Ela estava depressiva. Já havia ameaçado tirar a vida antes, mas sempre alguém chegava a tempo de socorrê-la. Para mim, ela não dizia o motivo, apenas que estava cansada da vida. A mãe conta que a filha não tinha problema com bebidas ou drogas. Certa vez, ela chegou a afirmar à mãe que 'o mano foi e vem me buscar'."
Célia admite que ainda é muito difícil assimilar estes fatos e lidar com as tristes lembranças. "Fica a pergunta: o que eu poderia ter feito para evitar isso?"
Ainda em 2010, debilitada com o suicídio do filho, Célia foi internada no hospital psiquiátrico de Campinas das Missões. "Eu estava desanimada, a ponto de largar tudo. Estava no fundo do poço. Lá, fiquei internada por 23 dias."
Célia perdeu um filho em 2010 e uma  filha  no ano passado. 
Os dois, vítimas de suicídio

No CAPS, o acolhimento necessário
Depois que recebeu alta, Célia começou a frequentar o CAPS local, ainda quando funcionava na Unidade Central de Saúde. Atualmente, ela frequenta dois grupos: às terças-feiras, em um grupo de mulheres, e às quintas-feiras, com o grupo misto. "Desenvolvemos diversas atividades, em oficinas de artesanato, aulas de educação física, caminhadas, entre outros. No CAPS encontrei mais pessoas com problemas, e assim compartilhamos as experiências. A equipe do CAPS representa muito na minha vida. Sozinha eu não conseguiria reverter a situação em que me encontrava."
Célia também é religiosa e frequenta a igreja. "Primeiramente, foi Deus quem me ajudou a sair daquela situação. Internada, eu pedia a Ele que me ajudasse, porque eu tinha minha família que precisava de mim. Acho que foi isso que me deu forças. Vou levando a vida. Tem dias que tenho um desânimo grande, mas no mesmo tempo eu penso 'para com isso'. A gente tem que se ajudar. De nada adiantariam remédios, médicos, se eu não me ajudasse. A força de vontade é minha. Dei a volta por cima desta fase triste da minha vida. Hoje tento me equilibrar, e, dentro das possibilidades, estou bem. É pela minha família que procuro me manter bem", conclui.

FOTOS: DIVULGAÇÃO/JAQUELINE PERIPOLLI

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