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A trabalho na China, três-maiense conta como é viver no país mais vigiado e populoso do mundo

06/09/2018 - Por Jornal Semanal
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Engenheiro de equipamentos da Petrobras Cristiano Reichert está no país asiático junto com sua esposa, Ana Carolina da Costa, desde o começo do ano, e ainda não tem data para retornar para o Brasil

Cristiano Adriel Reichert está na China desde o início do ano e, por ora, não sabe ao certo quando retornará para o Brasil. Ele foi ao país asiático a trabalho, acompanhado de sua esposa, Ana Carolina Lima da Costa.
Ele tem 29 anos, e ela, 28. Ana, que é de Santos, no litoral paulista, pediu demissão da empresa em que trabalhava no Brasil e, na China, aproveita o momento para aperfeiçoar o inglês e tem planos de iniciar um curso de mandarim na Universidade do Petróleo na cidade em que eles estão, Qingdao.
Natural de Três de Maio, Cristiano é filho de Iloiva Mallmann Reichert e Lúcio Reichert. Ele estudou na Setrem e se graduou em Engenharia Metalúrgica na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
Foi também na Capital que estagiou na siderúrgica Gerdau. Já em 2012, Cristiano foi morar no Rio de Janeiro, para trabalhar na Petrobras como engenheiro de equipamentos na área de inspeção de tubulações, tanques e vasos de pressão.
Em 2013, foi transferido para a unidade do pré-sal da Bacia de Santos, município em que, então, o profissional passou a residir. Lá, Cristiano passou a atuar principalmente em estaleiros no Brasil que estavam construindo plataformas para operar no pré-sal.

No país mais populoso do mundo
Então, no início deste ano, surgiu a oportunidade de participar da obra da plataforma P-70 em Qingdao, localizada na província de Shandong, no leste da China. "Qingdao é considerada uma cidade de porte médio na China, apesar de ter 9 milhões de habitantes. É chinês que não acaba mais!", brinca Cristiano, em depoimento por e-mail ao Semanal.
A China é o país mais populoso do planeta, com 1,379 bilhão de pessoas, e tem a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
E as posições poderão vir a se inverter daqui a alguns anos. Em seu informe anual sobre o país asiático, o Fundo Monetário Internacional registrou em julho que, "mesmo incluindo uma desaceleração gradual do crescimento, a China poderia se tornar a maior economia do mundo em 2030", veicula o site da revista Época Negócios.
Cristiano explica que a primeira impressão que tiveram de Qingdao foi de "uma cidade limpa, arborizada, extremamente segura e desenvolvida". Depois, "ao longo do tempo, fomos deparando com costumes locais e percebendo algumas coisas bem diferentes para nós, brasileiros", diz ele.
"E, enquanto o retorno não chega, estamos aproveitando as descobertas dia após dia e enchendo nossa bagagem de histórias e curiosidades sobre esse país tão distinto", analisa. Os costumes locais constatados e "algumas coisas bem diferentes para nós" são elencadas pelo engenheiro no final da matéria.

Câmeras por todo lado
Em seu depoimento ao Semanal, uma das questões mencionadas por Cristiano é o sistema de vigilância por câmeras existente no país - é o maior sistema do mundo na área. Ou seja, quem sai às ruas é permanentemente vigiado - é usado o reconhecimento facial para identificar os cidadãos, o que, ao mesmo tempo, contribui para a prisão de criminosos e suspeitos.
Bancos, aeroportos, hotéis e até mesmo sanitários públicos estão tentando verificar a identidade de pessoas, por meio da análise de seus rostos, diz publicação de janeiro do jornal americano The Washington Post.
Hoje, são 170 milhões de câmeras espalhadas pelas ruas e ambientes fechados. Até 2020, o governo planeja aumentar esse número para 570 milhões. As informações são da revista Superinteressante, que aponta, em matéria no seu site, que as câmeras do sistema de vigilância chinês "são ligadas a um sistema de inteligência artificial que consegue detectar idade e etnia, ler placas de carros e cruzar dados para saber onde você esteve, quais carros usou e quem encontrou".
Além disso, nos últimos meses, em pelo menos cinco províncias do país, mais de 30 agências militares e governamentais implantaram drones de monitoramento que se assemelham a pássaros, conta o site especializado em tecnologia Tecmundo.

País da política do filho único
O país também é conhecido pela política do filho único, imposta em lei no ano de 1979. Com a "lei do planejamento familiar", os casais passaram a ser proibidos de ter mais do que um filho.
Com baixa taxa de natalidade no país, o envelhecimento da população e a redução da população ativa obrigaram o governo a rever a lei para rejuvenescer a população e evitar problemas econômicos e sociais. Para reverter a situação, a partir de 2016, os casais passaram a poder ter até dois filhos.
Porém, em agosto, o governo chinês indicou que o item sobre o "planejamento familiar" poderá ficar de fora no novo Código Civil, que está sendo debatido pelos legisladores do Congresso Nacional Popular e deverá ser concluído até 2020. Contudo, ainda não está claro se a alteração na lei consiste num alargamento do número de filhos por casal ou na abolição completa da limitação.

Cristiano e Ana Carolina numa rua típica de Xangai

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O olhar de Cristiano Reichert sobre a China 
- CRENÇA CHINESA
Quando se entra num restaurante na China, a primeira coisa que lhe entregam é um copo com água morna, gratuitamente. A medicina chinesa acredita que todos os males são combatidos com um bom copo de água morna. Por este motivo, é possível ver um chinês com sua garrafa de chá a qualquer momento em qualquer lugar.
- AVERSÃO AO SOL
Os chineses simplesmente odeiam o sol. Nas ruas e nas praias, é possível ver inúmeras pessoas portando suas sombrinhas para se proteger do tal vilão. Inclusive, nas praias, usam roupas compridas próprias para o banho de mar, principalmente as mulheres, que não utilizam biquínis ou maiôs.
- COSTUMES 
Os chineses acabam pecando um bom tanto quando o assunto são bons modos. Para eles, é muito normal arrotar em locais públicos, cuspir no chão e até mesmo soltar flatulências próximo a desconhecidos.
- DIFICULDADES DE COMUNICAÇÃO
A comunicação acaba sendo uma das maiores barreiras, uma vez que nem letras eles utilizam para se comunicar. São utilizados ideogramas, e uma pessoa poderá ser considerada alfabetizada quando conhecer no mínimo 2 mil desses "rabiscos". Quando você diz ao chinês que não entende o que ele fala, acaba acontecendo algumas vezes de eles puxarem um papel e uma caneta e escreverem em chinês com a ilusão de que (aí sim!) estariam facilitando a comunicação.
- NEM TÃO COMUNISTA ASSIM
Apesar de terem um governo comunista, o capitalismo impera. Os chineses com maior poder aquisitivo adoram ostentar, seja nos bares, enchendo a mesa de garrafas e comida, seja nas ruas, desfilando com seus Porsches, Mercedes, BMWs (que não são poucas). Quando se trata de smartphones, vemos que, independentemente da classe social, este item é idolatrado por todos.
- O PAÍS DA TECNOLOGIA
Existe um aplicativo de smatphone com o qual é possível se fazer absolutamente tudo, desde se comunicar até pagar frutas em uma quitanda, pagar a conta em restaurantes, comprar uma moto, comprar passagens aéreas ou de trem, chamar um táxi, comprar ingressos, etc. Atualmente, quando saímos de casa, muitas vezes levamos somente o celular (carregado).
- TRANSPORTE PÚBLICO
O transporte é algo muito barato por aqui. O transporte num ônibus municipal custa aproximadamente R$ 0,50 e uma moto elétrica nova pode ser comprada por R$ 1.500. Se não bastasse, para pilotar este tipo de moto, não é necessário habilitação, nem pagar IPVA e DPVAT (talvez isso explique a grande quantidade de iPhones).
- TUDO E TODOS SOB VIGILÂNCIA DAS CÂMERAS
A China tem o maior sistema de vigilância por câmeras do mundo e um rígido sistema penal, tornando-se um dos lugares mais seguros para se viver. Um assalto a mão armada é algo que nem passa pela cabeça da população. As encomendas que chegam por meio dos "Correios" deles são abandonadas em frente às portas dos apartamentos e até mesmo na calçada em frente aos prédios que não têm acesso e ninguém pega a encomenda alheia.
- SEIS DIAS TRABALHADOS POR SEMANA
Os chineses no estaleiro em que eu trabalho têm cargas horárias diárias semelhantes às que temos no Brasil, com exceção do horário do almoço, que é de duas horas, tempo que muitos utilizam para tirar uma soneca. Além disso, os sábados são como qualquer outro dia de semana, restando para descanso apenas o domingo. Alguns contratos de trabalho estão vinculados à produtividade e, por isso, quando chove, muitos são dispensados do trabalho e ficam sem receber por estes dias.
- CONTROLE DO GOVERNO SOBRE USO DA INTERNET
O governo realmente controla (ou tenta controlar) tudo por aqui. Para termos acesso a Gmail, Google, WhatsApp, Facebook, Instagram, YouTube, Spotify, Netflix e alguns outros sites, é necessário utilizar uma VPN (uma rede privada virtual) que dribla a barreira imposta pelo governo. Praticamente não existe vida digital para um estrangeiro sem a VPN. Os chineses têm seus próprios aplicativos, a maioria disponível apenas na língua chinesa, mas muito úteis e eficientes.
- PAÍS SEM FUSO HORÁRIO
Mesmo sendo o maior país da Ásia Oriental, e o terceiro maior do mundo, o horário da China está unificado para todo o país. No verão, por exemplo, o sol em Qingdao, onde eu moro, nasce aproximadamente às 4h30min e se põe às 19h.
- FÃS DE KARAOKÊ
Em geral, o povo chinês é bem mais discreto que o brasileiro. Baladas são difíceis de encontrar na nossa cidade e nos poucos bares/baladas é possível encontrar pipoca, frutas e cartas de baralho se misturando a garrafas de cerveja nas mesas. Estabelecimentos com karaokê são algo bem comum. Posso arriscar em dizer que essa é uma das atividades de lazer preferidas pelos chineses.

Cristiano na famosa Muralha da China



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