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O sorvete de Libres

01/02/2019 - Por Jornal Semanal
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Compramos recentemente um pote de sorvete no mercado. Chocolate Branco. Senti o gosto de tudo, menos de chocolate branco. Depois daquilo, reafirmei minha frase de que o que comemos é gelo doce com leite composto de água oxigenada. E não me venham com contestações. Leite mesmo é aquele que você pega diretamente no teto da vaca e sorve. Todo o mais é leite com químico. A corrupção é uma palavra que me veio à cabeça em meio a tudo isso. Colocar água no leite também é uma forma de corrupção. Amaciante na carne é a mesma coisa. Alterar um produto natural de forma a obter qualquer benefício é corrupção.
Em Uruguaiana, costumeiramente atravessamos a ponte internacional para ir à cidade vizinha argentina, Paso de los Libres. Uma cidade menor, mas com uma boa estrutura. Compramos algumas coisas no comércio deles e, antes de retornar, paramos em uma das diversas sorveterias. Eu peço sorvete com duas bolas (!), geralmente chocolate branco e doce de leite. Nos sentamos e degustamos. Aquilo é sorvete, aquilo é leite, aquilo é chocolate, não enganação. Degusto geralmente olhando para o lado brasileiro e me perguntando porque a Lei de Gerson ainda tem força, porque a corrupção ainda vinga, por mais combate que tenha sido feito a ela. A corrupção é uma metástase, a conclusão a que chego. E ela não tem cura. Sorvo pela última vez o sorvete e entristeço.
Em uma de minhas últimas viagens à Argentina, fui participar de dois eventos, um em Rosário e outro em Concepción. Um amigo castelhano levou-me para conhecer outra marca de sorvete, tão gostosa quanto a de Libres. Fomos a churrascarias e mais gratas surpresas na qualidade da carne, sem amaciantes, nem nada. Estradas então. Sem buraco algum. Conto a ele as coisas do Brasil, e ele não acredita muito, mas entende a situação, contrariado.
O sorvete, a carne e as estradas são exemplos. Pequenos, mas notáveis. Sei que o Brasil é grande, e a variedade cultural é imensa. Vários Brasis dentro do mesmo país. Mas o desejo de justiça é de todos. O desejo de uma nação melhor é de todos. Os incomodados que se mudem. Não penso em me mudar. Por mais que tenhamos problemas, é um bom lugar. Um lugar para acreditar, desenvolver e se desenvolver. Mas reflexões acerca dos múltiplos problemas e do pensar uma solução para eles têm de ser práticas do dia a dia. Eu quero algum dia não precisar atravessar uma ponte, fazer imigração para degustar um bom produto. Quero isso em casa, quero isso no mercadinho da esquina. E quero mais: quero regra, não quero exceção. Quero.

Gustavo Griebler
Doutorando em Educação em Ciências - UNIPAMPA. 
Professor do Instituto Federal Farroupilha - Campus Avançado Uruguaiana



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