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Como abordar com as crianças e adolescentes as grandes tragédias que dominam o noticiário?

22/03/2019 - Por Jornal Semanal
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A escola deveria ser um local seguro, pois é nela que são dados os primeiros passos para a evolução de uma sociedade. Porém, na semana passada, uma escola, no município paulista de Suzano, foi palco de um massacre. O que situações como esta trazem à cabeça de crianças e adolescentes e como os pais de jovens estudantes devem buscar proceder?

O massacre ocorrido em uma escola estadual de Suzano (SP) na última semana dominou o noticiário e causou comoção nacional. E, além de uma situação como esta acender em pais o sinal de alerta sobre a segurança física de seus filhos no ambiente escolar, entra em jogo, também, um aspecto emocional trazido pelo caso.
Como abordar com os filhos as grandes tragédias que dominam o noticiário, de forma que, ao tomar conhecimento delas, crianças e adolescentes que também frequentam o ambiente escolar não passem a ser dominados por temores, apreensão ou até mesmo desespero?
O assunto (bem como o papel das escolas na discussão do tema com seus estudantes) é abordado pelo Semanal em entrevista com a psicóloga 
Lao Tse Maria Bertoldo, que também é docente do curso de Psicologia da Setrem.
E, dentro disso, uma outra questão: os pais devem buscar evitar que os filhos tenham acesso a notícias sobre a tragédia? Isso é possível e recomendável?
"Não é possível poupar as crianças da realidade que vai acessá-las de algum modo, mais cedo ou mais tarde", analisa Lao Tse, que é especialista em Clínica pelo Conselho Federal de Psicologia, mestre em Educação e doutoranda em Psicologia Clínica. Ela deixa seu e-mail, laotsebertoldo@yahoo.com.br, à disposição da população que queira contatá-la.
Realizado por dois ex-alunos da instituição, que tinham 17 e 25 anos, o ataque à escola estadual Raul Brasil ocorreu no último dia 13, quarta-feira, pela manhã, e deixou um saldo de dez mortos (incluindo os dois autores) e 11 feridos.

Importância de acompanhar o desenvolvimento emocional dos filhos
"Antes da preocupação com a atitude frente aos filhos (em relação a como abordar com eles as grandes tragédias exibidas no noticiário), cabe uma reflexão por parte dos adultos sobre as determinações desta tragédia. Existe um único motivo para a situação? É possível acharmos um único fator relacionado? Culpa da tecnologia? Culpa dos pais? Culpa da conduta da escola? A questão é bem mais complexa.
A metabolização de situações vividas pelo ser humano desde a mais tenra idade vai determinar fortemente suas ações na vida adulta em relação a si próprio e ao convívio social.
O acompanhamento do desenvolvimento emocional da criança e do adolescente por parte de adultos é um dever, pois, por mais adultos que possam parecer nos dias de hoje, realmente não conseguem sozinhos ter condições de se responsabilizar exclusivamente por aspectos de seu desenvolvimento.
A compreensão disso em relação ao cognitivo já é instituída (é consenso que crianças frequentem escolas e sejam estimuladas e monitoradas em seu processo de aprendizagem) mas, em relação ao acompanhamento emocional, parece que a criança precisa dar conta sozinha de lidar com suas questões sem o devido olhar do cuidador, passando muitas vezes por negligência emocional.
Isso não é intencional, obviamente, mas a forma como ocorre o funcionamento social na priorização do trabalho, do sucesso social e do acúmulo de recursos materiais lança o olhar do adulto para fora das experiências vinculares com a criança, e as experiências de trocas afetivas fundamentais para o processo de constituição ficam fragilizadas, desligando esse ser humano da importância da relação com o outro."

Para a construção emocional dos filhos, é preciso dedicar um tempo maior a eles
"O pouco tempo que se tem para a dedicação a atividades com as crianças e adolescentes é muitas vezes utilizado pelos membros da família em atividades individuais e de descanso, frente à sobrecarga da rotina, muitas vezes autoimposta.
Neste momento, a tecnologia é uma grande fuga e depósito de tensões para os adultos, além de formadora de subjetividade para as crianças, forma 'autorizada' e muitas vezes não supervisionada pelos pais.
É importante os pais se conectarem mais com seus filhos e aprender a ouvir suas necessidades para manejá-las adequadamente. Algumas dicas são: sentar com os filhos depois do trabalho, desligar o celular, olhar nos olhos e buscar saber como as crianças e adolescentes estão compreendendo as experiências que vivem.
Mesmo que por um tempo de meia hora, uma hora por dia, essas práticas já têm um impacto muito positivo na construção emocional.
Buscar ouvir as crianças e adolescentes e não apenas frisar o que é certo é uma dica. Pedir primeiro para a criança falar como ela vê determinada situação é uma forma de mostrar que valorizamos suas perspectivas e expectativas e compreendemos a emoção que está sentindo.
Depois disso, é possível nomear, explicar o sentido dessa experiência, sempre valorizando a versão apresentada pela criança ou adolescente. Aprender é melhor quando nos sentimos valorizados no ponto positivo que construímos, mesmo que este sofra algumas críticas e alterações."

É possível privar os filhos do conhecimento sobre grandes tragédias? E como abordá-las com eles?
"Não é possível poupar as crianças da realidade que vai acessá-las de algum modo, mais cedo ou mais tarde. O ideal é explicar o ocorrido frisando para as crianças que estas são situações atípicas e que possivelmente os jovens envolvidos na situação estavam adoecidos, sem assistência necessária à sua saúde mental.
Os pais devem explicar que, quando ocorre algum sentimento de raiva, frustração ou tristeza, sempre terá alguém interessado em ouvir e ajudar e, deste modo, a criança não precisa ficar com emoções ruins guardadas dentro dela.
Para isso, obviamente é necessário que os cuidadores (pais, professores ou demais adultos responsáveis) de fato estejam atentos às vivências das crianças e disponíveis para ouvir e ajudar.
Em relação à tecnologia, não se trata de proibir completamente o acesso, mas de dosar, manter o equilíbrio e não permitir que o papel das experiências familiares seja suprimido por este recurso.
A tecnologia deve ser apenas mais um recurso e não a maior fonte de alimentação psíquica das crianças, até porque não é possível poupar as crianças ou adolescentes de todas as influências perigosas do mundo. A única forma é ensiná-los a olhar, compreender e agir de uma forma responsável, visando ao bem comum."

Como as escolas devem abordar o assunto com seus alunos?
"Talvez a medida mais correta seja não entrar em negação.
Falar em sala de aula ou na escola sobre o ocorrido permite liberar a carga de medo e tensão ligada às percepções geradas pela tragédia.
Falar aos alunos e permitir que falem libera a carga de frustração muitas vezes represada e contida no dia a dia atarefado do ambiente escolar, ainda muito voltado para as questões de vestibular e mercado de trabalho e com pouca pauta para o impacto das vivências emocionais.
Apesar de sofrermos forte impacto das emoções em todos os setores da vida, ainda há negação e falta de conhecimento sobre o mundo dos sentimentos."

Jogos violentos podem influenciar na formação da personalidade?
"Dentro da mesma linha de raciocínio de que não é possível preservar os filhos de todas as influências que em algum momento chegam a eles, os jogos e o celular são brinquedos que hoje fazem parte das opções do contexto.
As crianças, ao brincar, elaboram e extravasam aquilo que vivem. Brincar é uma forma de fazer o psiquismo da criança se desenvolver, tamanha a importância dessa atividade.
Brincar com uma arma de plástico, por exemplo, não quer dizer que a criança se tornará um adulto violento; pode estar dizendo apenas de algo que a criança precisa vivenciar de forma lúdica sobre aspectos de sua agressividade, justamente para não atuá-la no mundo. Se a criança tem o acompanhamento de um adulto, os significados dados às coisas da vida são mais seguros.
Assim como alimentamos o corpo, o que assistimos e jogamos, lemos ou vivemos acaba sendo um alimento psíquico.
Como não permitimos que a criança coma o que bem desejar, pois vai passar mal ou prejudicar o seu desenvolvimento, os 'alimentos psíquicos' também devem ser observados e controlados. Se a criança se alimentar apenas de jogos, especialmente os de matar ou violentos, isso terá um efeito negativo em seu desenvolvimento, sim!
As maiores fontes de alimentação psíquica para um desenvolvimento saudável devem ser as experiências de trocas com pais, coleguinhas, as aprendizagens na escola, o tempo livre do brincar com os brinquedos não virtuais, jogar um jogo em família, ir ao parque, fazer uma viagem com a família e até assistir a um vídeo no YouTube juntos, se for o caso.
A criança pode e deve ter seus momentos de solidão, mas deixá-la à mercê de jogos e do mundo virtual por horas e horas só pode resultar em uma 'congestão psíquica', com vários danos e prejuízos para muitos aspectos do desenvolvimento emocional, social e físico, principalmente."

Maior necessidade de olhar para as relações humanas e de saber lidar com sentimentos como raiva e frustração
"Aceitar que o mundo que nos cerca também é responsabilidade das atitudes que temos e da forma como pensamos, apesar de sofrido e assustador, pode ser um caminho para mobilizar uma cultura mais atenta com nossas necessidades humanas de respeito, consideração e afeto, tão esquecida na correria dos dias.
A triste situação de Suzano nos ensina como é necessário olharmos mais para nossa experiência de relações humanas, como precisamos mais do que nunca lidar de forma saudável com as emoções como a raiva e frustração aprendendo a endereçar em palavras, em vez de ações, as dores sentidas, para que haja uma nova chance.
O desfecho da tragédia, que envolveu o suicídio dos autores, mostra que por detrás de brutalidades como essa há também sofrimento e desesperança. Afetos tristes que todo ser humano pode vivenciar em algum momento, mas que podem ter outro destino se culturalmente aprendermos a olhar para o aspecto emocional como absoluta prioridade."
A psicóloga Lao Tse Maria Bertoldo



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