Quarta-feira, 18 de setembro de 2019
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Por um mundo com mais amor

18/04/2019 - Por Yara Lampert
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Estamos vivendo mais uma Semana Santa. Tempo de reflexão, oração, fé, renovação, perdão e esperança. Precisamos, urgentemente, parar de medir forças com quem quer que seja. Em vez de rancor, inveja e ressentimentos, precisamos, incondicionalmente, propagar o amor. Confira a entrevista com o padre Edegar de Matos, pároco da Igreja Matriz Católica Nossa Senhora da Conceição, de Três de Maio

Por que tanto desamor no mundo?
É uma pergunta interessante que já, antes de Cristo, se fazia. O amor é tido como uma fraqueza do ser humano que quer sobreviver. Ilude-se o humano que o ódio, a violência e toda forma truculenta de viver é o jeito do que sobrevive. Pois a competição e seus frutos faz com que as pessoas voltem ao estado de animal, de irracionalidade. Somente a solidariedade, que vem do amor, nos humaniza de fato. Jesus foi até o fim agindo de forma não violenta e sempre amorosa, apesar de todas as provocações dos violentos. Entrada em Jerusalém em cima de um jumento (montaria do povo) significa que ele não quer tomar nossos corações com a força, no modelo dos antigos conquistadores, mas arrebatar-nos pela ternura, pelo amor, pela não violência. 
Pessoas não cristãs, como Gandhi foi um pacifista que lutou pela independência da Índia, sem nenhuma violência. Luther King, nos Estados Unidos, uniu o povo negro contra a segregação racial, sem revidar com violência a violência dos brancos. 

O que leva os jovens a praticarem atos violentos?
Diria que é a falta de referência pacífica na sociedade. O Brasil é um país violento (60 mil homicídios anualmente), alto índice de feminicídio, além da violência contra a mulher, entre tantas situações. 
Para reverter essa situação será com a educação e com condições de vida digna para as pessoas em vulnerabilidade social, a fim de que as crianças não cresçam pensando que é certo o roubo, o tráfico de drogas, a prostituição e mesmo a morte das pessoas. O que pode mudar o "destino" dessas pessoas é a educação de qualidade. 
Precisamos lembrar, também, que os pais abandonam seus filhos, terceirizando às empregadas, creches e mesmo para os games (esses últimos com ações de morte o tempo todo). 

Como podemos vencer a maldade, o egoísmo, a intriga, a fofoca e a inveja?
Com novas pessoas. Com pessoas convertidas - no sentido de acreditarem no amor, no sentido da vida, no respeito e cuidado com o outro. A espiritualidade pode ajudar muito. Nem sempre a religião. Têm religiões ou igrejas em que a pregação é a de um se colocar contra o outro. Achar-se melhor que o outro. Esse tipo de igreja pode ser uma "gasolina" para o incêndio da maldade. 

A falsidade ronda nossas casas e nossas amizades. Como reverter e tornar o amor nosso bem maior?
Verdadeiras amizades encontramos nos tempos difíceis da nossa vida. Vivemos num mundo de competição, de "o mais forte vence" e assim por diante. A partir disso, tudo se define. As pessoas não são irmãs nossas, mas objetos de uso e de abuso. 

Existe uma razão para tantos males?
O mal não tem razão! A autossuficiência humana, que pensa ser um deus, faz com que tanta coisa ruim aconteça. O ser humano que se coloca como um deus é um deus mau. Pensa só em si, ou de forma egoísta, fechada. Esse pensamento egoísta se estruturou em forma de leis, de nações, governos, etc. Podemos pensar um pouco na relação dos países ricos com os países pobres. Não se partilha nada com os mais pobres. Recentemente houve um desastre natural em Moçambique, onde 400 mil pessoas morreram e ainda continuam morrendo. Ninguém ajuda aquele povo, a não ser a iniciativa de algumas igrejas. Mas para reconstruir Notre Dame em Paris, em menos de um dia foram arrecadados em torno de três bilhões de reais. Esse dinheiro salvaria milhares de vidas. Não tiro a legitimidade de reconstruir a Igreja de Paris, mas primeiro os seres humanos. Ou seja, dinheiro, recursos temos, o que falta é amor ao próximo, ao que não nos pode dar nada de volta, a não ser um sorriso de obrigado. 

Como a fé pode nos ajudar?
A fé verdadeira deve nascer da decepção, do não milagre, das pancadas da vida. A fé em Deus que é solidário com o ser humano, a ponto de morrer como tantos, sem ninguém os defender, nos dá uma esperança e ao mesmo tempo nos autoriza a lutar pelos outros. A fé que não nos leva a fazer algo pelos outros, é morta (dizia São Tiago em sua carta). É uma mentira dizer que amamos a Deus, mas não amamos nosso semelhante que está ao nosso lado. 

Estamos no período que antecede a Páscoa. Ressurreição, perdão, esperança e vida nova. Como colocar estes sentimentos para o nosso irmão e semelhante?
Diria que tudo isso não devem ser sentimentos, mas atitudes. Perdoar é uma atitude de quem quer viver melhor, viver feliz. Quem não perdoa é como uma pessoa que toma veneno pensando em matar o inimigo. Embora perdoar seja uma das atitudes mais difíceis do ser humano, buscamos em Deus a força para tanto. 
Esperança é própria do cristão. Uma atitude nobre. Mas não é algo ingênuo (tudo vai dar certo), mas de pé bem firme no chão, olha a realidade tal como é, e além do que se apresenta, e luta para torná-la melhor pela sua ação e dos seus. Isso para mim é esperança. 
Ressurreição é a ação de Deus. Deus não deixa assim a morte do inocente. Ele ouve o gemido do injustiçado e age. Portanto, a ressurreição de Jesus foi o prêmio pela total disposição dele realizar a vontade de Deus. Por isso vida nova. 

Mensagem
"Os tempos são difíceis. Não podemos simplesmente pensar que os melhores vencerão. Não é assim que pensa um cristão. Devemos, todos juntos, sair dessa situação de crise, buscando alternativas onde todos possam estar incluídos. 
Ressurreição é olhar para as marcas do Cristo, que não as perdeu com a glória e, sem ressentimentos mas responsáveis pelo que fazemos, buscarmos acertar nossos caminhos, seja como humanidade, como povo brasileiro, como povo gaúcho ou povo três-maiense". 



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