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Carrinho de madeira

21/12/2012 - Por Jornal Semanal
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Leopoldo E. Arnold*
Conheci o Papai Noel quando eu tinha cinco anos. Ele estava na carona de uma Brasília estacionada perto de casa. Estranhei a condução, eu imaginava trenó e renas, mas era ele mesmo, meu instinto de criança dizia isso. Quando o assunto é sério, criança não se engana. Foi incrível. Fiquei tão impressionado ao ver o Papai Noel, que meu pai me levou até a janela do carro para conversar com ele. Um pouco assustado, mas completamente fascinado, eu lhe disse o meu nome, a minha idade, que eu tinha me comportado, ia à escola e, por fim, o mais importante, o que toda criança deseja responder: o que eu queria de Natal.

A resposta estava pronta havia semanas. Expliquei que era um carrinho de madeira, não de puxar, mas desses que a gente senta em cima para dirigir e outra pessoa empurra. Ele disse que eu ganharia, e dois dias depois, no Natal, o brinquedo amanheceu na sala de casa, carregado de chocolates. 

Quando criança, a gente acredita em Papai Noel sem esforço, naturalmente, porque nada teria sentido sem ele. A bondade e a felicidade são coisas óbvias, e o mal é uma fantasia que só existe nas historinhas contadas. Mas aí a gente cresce, a maturidade mostra o seu preço, as máscaras sociais vão caindo e acreditar na magia do bom velhinho passa a ser uma necessidade, um refúgio, uma esperança, um mundo para o qual fugimos sempre que a vida aperta demais. É quando acreditamos em Papai Noel quase que por desespero, cada um ao seu jeito, é a alma da pessoa que define qual o seu melhor Papai Noel e o presente que mais lhe alivia as tristezas e as desilusões dessa vida de gente grande.
Sair da infância é se despir da pureza humana, se desfazer do que a vida tem de melhor. É, de certa forma, seguir no sentido inverso ao da felicidade. Todo adulto é uma criança brincando do que não gosta, um corpo crescido cuja alma ficou se divertindo em algum bom lugar do passado. A gente cresce contra a vontade, por isso Deus colocou a infância logo no início da nossa existência, justamente para que ela sirva de energia e inspiração para todo o resto dos anos. A infância é o Natal da vida. 

Natal é bom, é um suspiro da alma, uma trégua para as sensações negativas, uma breve amostra de que as pessoas podem ser e viver melhor, mas é uma pena que, ao contrário das crianças, o espírito natalino de gente grande dura tão pouco: um só dia. São algumas horas em que temos mais disposição para a solidariedade e a compreensão, e o restante do ano marcado por indiferenças, individualismos e banalidades. Afinal, qual é o verdadeiro ser humano, o desarmado e receptivo que se emociona e se permite tocar no período de Natal, ou aquele insensível e apressado que deixa a sociedade mais fria e artificial durante os outros meses?

De qualquer forma, ainda que breve, a emoção do Natal é preciosa demais para não se aproveitar. Com ou sem Papai Noel, na magia ou sem ela, é o melhor momento para se lembrar da infância, de quando ainda éramos puros e leais à vida e havia beleza e verdade em tudo, de quando a gente amava porque simplesmente não sabia ser diferente. Natal é mais uma chance de buscar na própria infância o que nos falta no presente. O meu carrinho de madeira, por exemplo.




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