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Em tempo de isolamento social, vizinhos fazem serenatas nas sacadas e janelas em prédios de Três de Maio

27/03/2020 - Por Jornal Semanal
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Moradores do centro da cidade usam a música para amenizar a solidão e o distanciamento entre as pessoas durante a quarentena 

A música como alternativa para amenizar o isolamento social. A iniciativa do professor de música e empresário Elisandro Weise vem mobilizando vizinhos de prédio, nas proximidades do Clube Buricá, e contagiando moradores de outros edifícios no centro da cidade. 
Tudo começou quando no sábado à noite, 21 de março, quando Elisandro decidiu ir para a sacada do apartamento, no quarto andar, tocar seu violão. "Tudo foi muito espontâneo, não foi nada planejado. Saí na sacada e acabei encontrando meu vizinho Marlon Ludwig, que mora no mesmo prédio, no terceiro andar. Ele toca gaita, então sugeri para tocarmos, cada um da sua sacada, às 20h. Pensei, todo mundo está em casa, quieto, em meio a esse ambiente pesado, sem saber o que ainda vai acontecer. Vamos tirar esse sentimento negativo e vamos tocar", conta. 
Elisandro e Marlon foram para a sacada e lembraram de outro vizinho (em um prédio), Diego Eichelberger, que toca violão. Logo, os três - cada um da sua sacada - começou a entoar a música e, em seguida, Oséias Chrischon (morador de outro edifício), também se juntou a "banda", com sua gaita. 
O som contagiou e mais pessoas foram para suas sacadas, e nas casas dos arredores, para ver o que estava acontecendo. "O pessoal começou a interagir, bater palma, pedir música, cantar junto. Fizemos o hino do Rio Grande do Sul e foi um momento muito emocionante, de arrepiar. O nosso hino nos traz algo especial, um alento. Faz parte da nossa cultura e tem um significado muito forte; fala de luta, do gaúcho que ergue a cabeça e vai em frente", afirma o professor, recordando que o hino ecoava em meio aos prédios; "foi sensacional".
Já no segundo dia, outros moradores - de prédios até mais distantes - se integraram à banda, que agrada a todos estilos musicais, desde o rock, sertanejo, mas especialmente as músicas nativistas e gaúchas.
"A ideia deu tão certo que começamos a fazer lives na internet. Daí o pessoal de toda parte do mundo, até da Alemanha (uns amigos meus de lá), de Porto Alegre, mandando mensagem, assistindo, pedindo música. Uma coisa que foi totalmente espontânea e foi crescendo". 
Por noite, são em torno de 45 minutos de música. Na quarta e quinta, não houve serenata, mas Elisandro garante que nesta sexta-feira, 27, vai ter uma programação especial. "Vai ser bem animado, divertido. Tipo um baile na sacada. Para fazer que a sexta seja um dia especial, pois geralmente as pessoas se reúnem nas casas ou nos bares; vamos fazer música e junção nas sacadas, separados por um motivo, mas juntos pela música." 
O empresário revela que a iniciativa tendo boa aceitação (incluindo vários comentários e postagens em redes sociais) porque faz com que as pessoas esqueçam de todo esse caos que está acontecendo no mundo. "Nada melhor que a música para acalmar o espírito e os corações e nos trazer alegria e descontração num momento tão difícil, de um inimigo invisível, que não sabemos ao certo as consequências disso tudo. Esse 'encontro' de música prova que o ser humano não consegue viver sozinho. Teve que acontecer toda essa situação, esse isolamento, para cada um ficar na sua casa e olhar para fora da janela e conhecer seu vizinho. Essa carência, de estar em casa, encerrado, abre outra visão, de enxergar o vizinho que mora no prédio do lado, porque o ser humano é sociável por natureza, não consegue viver sozinho. Acredito que isso vai mudar muitos hábitos e muitas coisas na vida de todos nós", finaliza Elisandro.

Professor de música e empresário Elisandro Weise

Marlon Ludwig

OPINIÕES DE ALGUNS VIZINHOS
"Uma atitude digna de um reconhecimento indescritível, é muito agradável ao final do dia ouvir uma música boa que acalma a alma. Dia inteiro em casa, fechados e ao abrir uma janela ver e ouvir que nesse mundo ainda tem pessoas que se preocupam com o bem-estar social. O bom também é que conseguiram integrar 'as janelas e sacadas'; um pede uma música e ela sai... Obrigada por nos presentear com seus dons e vozes", diz a professora Stel Máris Teixeira, moradora do prédio do Banrisul

"Estamos vivendo um momento delicado não só no Brasil, mas no mundo todo. Momentos como estes onde podemos desfrutar de uma serenata pela vida - digamos assim - vem em boa hora, pois além de passar uma energia positiva, demonstrar que somos solidários e que o mundo ainda tem jeito se tiver esse espírito de fraternidade entre nós seres humanos. Entendemos que este é o momento de deixar de lado credos religiosos, times de futebol, ideologias político partidárias e unir forças e esforços pois todos temos um só inimigo, que atende pelo nome de coronavírus (Covid-19). Força, fé e foco, que em breve a vida voltará ao normal", afirma o casal de moradores do prédio da São João, Leandro e Rose Maehler

"A música, como uma expressão artística, tem o papel de reflexão, alegria e união. Cantar e tocar na sacada têm sido uma experiência de conexão entre vizinhos, para deixar os pensamentos mais alegres e positivos", destaca Diego Eichelberger, morador de prédio na Rua Santo Ângelo


Iniciativa vem conquistando o mundo
Elisandro e Marlon são professores na mesma escola de música e estão atendendo aos alunos em aulas on line, cada um de seu estúdio em casa.  
As apresentações na sacada reforçam a coletividade, principalmente em tempos de incertezas proporcionadas pela pandemia. Para os músicos envolvidos, o período de isolamento pode ser transformador, de pensar na coletividade; e a música é um elo entre as pessoas, traz sentimentos positivos, de esperança e felicidade. 
Os músicos de Três de Maio não são os únicos a adotarem essa ideia. Em várias cidades brasileiras as serenatas entre vizinhos também estão ocorrendo, a exemplo da Itália e em outros países atingidos pela pandemia do coronavírus, músicos profissionais ou que tocam por hobby têm ido às janelas de seus apartamentos para fazerem apresentações improvisadas aos vizinhos. Às vezes, um outro morador próximo se soma, com seu instrumento ou voz, e está formada uma banda. Ou, também, um vizinho manda o seu som na sequência. 




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