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O Mendigo...

14/01/2013 - Por Marcos Salomão
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Parei o carro próximo à barraquinha de cachorro quente, na beira da praia. Elis e os meninos desceram. Fiquei no carro. De repente alguém bate no meu vidro e, ingenuamente eu abro. Aparece um mendigo, destes moradores de rua. Jovem, com uns 30 anos, e poucos dentes. Ele disse:
- Aí, o sr. é gente fina, baixou o vidro do carro...porque "tens uns ingnorantes" que nem baixam o vidro, tratam a gente que nem bicho... aí o sr. é gente fina, AMÉM, AMÉM.
(Pensei, por que baixei o vidro, que mancada...)
- Seguinte Dr. eu não quero dinheiro... eu pudia tá matando, pudia tá roubando, mas to aqui, e to com fome, mas não quero dinheiro... o sr. pudia me consegui um pão com manteiga...??
Não acreditei. Quantos anos sem falar com um morador de rua... Saí de Porto Alegre em 1997, conhecia vários. Vim para o interior, onde aqui, na região Noroeste tem poucos ou quase nenhum. Senti um frio, parado olhando para ele, percebi o quanto eu estava vulnerável. Como estou inocente, ingênuo, desatento. Abri o vidro do carro sem olhar, que estúpido...
- "Vou te arrumar um cachorro quente amigo. Espera aqui que farei sinal para minha esposa e ela trará..."
- "Amém, Dr. amém Dr. o sr. é gente fina, não é que nem uns e outros por aí, que nem enxergam a gente... eu pudia tá matando, eu pudia tá roubando..."
- "Tá, tá, tá, já vou te arrumar o cachorro quente. Dois minutos. Aguarda aqui."
Fechei o vidro, coloquei o carro 2 metros para frente e tentei fazer sinal para a Elis. Ela não me viu. Puxa vida. Olhei para a calçada, dois garçons riam da minha situação. Que legal. Pensei: vou resolver naturalmente, óbvio, já lidei mil vezes com este tipo de situação...
- "Ooooo companheiro! Vem cá! A minha mulher não está me enxergando, então vou facilitar pra você. Toma aqui dois reais e compra um cachorro quente."
- "Dois reais Dr. ? O sr. sabe quanto custa um pão com manteiga ali?  Dois e oitenta e cinco!!"
Não acreditei. Agora eu estava discutindo o preço de um pão com manteiga, ou de um cachorro quente com um morador de rua... que legal... passei a tarde com a cabeça enfiada em um relatório e agora estou debatendo a inflação na classe "Z". Que maravilha...
- "Espera aí.,1 minuto"- falei.
     Fechei o vidro e catei 3 moedas de 1 real cada. Olhei para o lado, já eram 4 os garçons olhando a cena, que droga. Abri o vidro de novo...
- "Aí companheiro, leva mais 3 contos pra comprar um completo!"
- "Bah Dr. não posso comer um completo não... Olha aqui Dr., olha aqui..."
Ele levantou a camiseta e mostrou uma cicatriz no peito, tipo aquelas de filme, tipo uma facada. Pensei comigo: agora sim... além de discutir o preço do pão, estou analisando as marcas da vida do cidadão. Por que comigo?
- "Então tá companheiro! Valeu! capricha no lanche! Abração" - e fechei o vidro.
Elis e os meninos voltaram para o carro. Contei o episódio. Primeira reação da Elis:
- Como é que você abre o vidro? E se fosse um assalto? E se fosse um sequestro... e se... blá, blá, blá, blá...
     (alguns minutos depois)
 - "Pai, como ele era? Estava armado? Como ele falava? Que tipo ele era? Que roupa ele usava?"
     Olhei para os lados e não vi mais o homem. Meu filho mais novo, Henry então disse:
 - "Pai, mas se você deu o dinheiro para ele comprar algo para comer, ele não deveria estar ali, na barraquinha?"
     E então ela finalizou...
 - É que teu pai deu só R$ 5,00. O cachorro quente custa R$ 8,00...
    Então, comecei o verão com fama de pão duro...




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