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Uma tragédia anunciada - Gustavo Griebler / Assassinamos nossos filhos - Isabel Cochlar

01/02/2013 - Por Jornal Semanal
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Uma tragédia anunciada

Gustavo Griebler*

Nunca perdi um ente querido em alguma tragédia. As pessoas próximas a mim somente morreram por ocasião de doença, algo que já as acometia há um tempo. Não me recordo de alguém próximo a mim com quem eu tenha falado em um dia estando perfeitamente bem e no outro por ocasião de algum acidente já não mais, por estar em uma melhor. Claro, queremos estar em uma melhor algum dia, mas queremos postergar ao máximo este tempo, aproveitando ao máximo nossa vida terrena.

Faço esta introdução, após algumas reflexões, por não saber como eu me comportaria se alguma tragédia fizesse com que alguém de meu círculo de relacionamentos falecesse, tragédia esta sendo causada por descuido e/ou irresponsabilidade de alguém com relação a alguma coisa. Indignação, revolta, tristeza, esses poderiam ser alguns dos sentimentos que poderiam tomar conta de mim. Mas não tenho certeza. Talvez nunca perdoasse o responsável pela tragédia, talvez perdoasse, mas não olhasse mais em sua cara.

Fato é que a tragédia de Santa Maria ocorrida no último final de semana de janeiro é algo que nos leva a pensar sobre algumas condutas humanas. Em primeiro lugar, nunca tinha ouvido falar de shows pirotécnicos em ambientes fechados. Isso é uma irresponsabilidade. Se em ambientes abertos já ocorrem problemas com fogos imaginem vocês em ambientes fechados. Tragédia anunciada. Em segundo lugar, uma única saída para um lugar superlotado é o segundo ponto de uma tragédia anunciada.

O que espero e creio que muitos me acompanham nesse pensamento é que daqui em diante legislações sejam cumpridas. Parece que mortes têm de ocorrer para que medidas sejam tomadas, numa total falta de planejamento. Se o alvará da casa de shows está vencido, não se fazem mais shows na mesma; se o lugar comporta mil pessoas, no máximo mil pessoas têm de estar lá dentro; se o exigido por lei é a existência de tantas saídas de emergência, tantas saídas de emergência têm de existir. E se houver descumprimento da legislação, multa. E pesada.

    Talvez algumas dezenas de palavras não sejam o bastante para confortar as pessoas próximas dos falecidos com a tragédia, mas deixo a minha manifestação de condolências, torcendo, por mais utópico que isso possa parecer, para que essa tenha sido a última. Além do mais, exigimos fiscalização, e rígida. Não queremos mais notícias desse tipo povoando noticiários.

* Mestre em Educação nas Ciências.
Professor de Ensino Superior da Setrem




Assassinamos nossos filhos

Isabel Cochlar*

Tragédia, além do luto,  o final dos sonhos de 235 jovens que perderam suas vidas no incêndio da Boate Kiss, na madrugada de sábado, na cidade de Santa Maria. Desespero inominável de cada família, cada amigo, cada um de nós que sente, na perda de cada vítima, uma lesão maior à humanidade como um todo.

Indesculpável a ação dos seguranças em tentar barrar os garotos para que não saíssem sem pagar. Imperdoável a ausência de sinalização das saídas de emergência que condenaram vários a morrer intoxicados nos banheiros. Impossível adjetivar a conduta do(s) proprietário (s) que abriu o lugar sem o alvará válido.

Mas, como em todos os episódios trágicos, desesperador, para nós pais de adolescentes é verificar a falha do poder público na  fiscalização deste estabelecimento.  A constatação de que não existe serviço público eficaz a prevenir tais tragédias, pela  ausência de condições  de segurança de tais locais e de fiscalização efetiva da permissão de funcionamento,  nos leva a concluir que somos todos, por omissão, assassinos dos sonhos de nossos filhos.

Choraremos longamente a falta de cada um, nos solidarizaremos com cada família, mas, infelizmente, ainda assim, não aprenderemos a lição de exigir a prestação pública eficiente para evitar novas tragédias. Aguardaremos a prestação jurisdicional para a condenação dos culpados e a indenização pelos danos materiais e morais sofridos pelos familiares, inclusive contra o órgão público responsável, mas, como sempre, seremos sempre surpreendidos por fatos como esse pelo simples fato que não aprendemos a ser cidadãos exigentes de nossos direitos.

E assim, seremos sempre culpados por cada filho nosso perdido!

*Advogada




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