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A luta diária pela vida e pela sobriedade

22/02/2013 - Por Jornal Semanal
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Grupo de AA comemora 30 anos em Três de Maio, cumprindo com a missão de auxiliar na recuperação de alcoólicos

Uma luta diária. Ficar 24 horas na sobriedade é uma batalha pessoal que muitos alcoólicos enfrentam para sobreviver.
"Por muitos anos convivi com o alcoolismo do meu pai. Mais de 20 anos entre recaídas e recuperações. Há muitos anos, ele fez um longo tratamento em uma clínica distante daqui, e ficou cinco anos totalmente sóbrio. Mas, depois teve recaídas mais frequentes, a cada três ou quatro meses. Desde a última recaída faz quase um ano que ele está sóbrio". O depoimento é de uma jovem que convive com o drama do alcoolismo dentro de casa.
Problemas familiares, financeiros, de relacionamento ou de saúde, ressentimentos pessoais, traumas de infância e até predisposição genética. São incontáveis os fatores que podem levar ao alcoolismo. No Brasil, estima-se que existam, pelo menos, 30 milhões de pessoas em vários estágios da doença. O Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, aponta que o álcool é o campeão na mortandade: em média, ocorrem no país oito mil óbitos por ano.
Para se livrar do vício, o primeiro passo é o desejo de parar de beber. O segundo, é buscar apoio e participar das reuniões dos Alcoólicos Anônimos (AA).
O A.A. é uma irmandade, surgida nos Estados Unidos (em Akron, Ohio) em 1935, com o encontro de Bill W., um corretor da Bolsa de Valores de Nova Iorque, e o Dr. Bob, um cirurgião. Ambos haviam sido alcoólicos desenganados.
Alcoólicos Anônimos é um grupo formado por homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperar do alcoolismo. O grupo não está ligado a nenhuma religião, partido político, organização ou instituição. O propósito primordial é manter os participantes sóbrios e ajudar outros alcoólicos a alcançar a sobriedade.

AA em Três de Maio
Em Três de Maio, o grupo de Alcoólicos Anônimos (AA) foi fundado em 6 de fevereiro de 1983. Este ano, comemorou 30 anos de história. As reuniões se realizam todas as terças e quintas-feiras, nas dependências de uma sala ao lado da gruta da igreja católica, na Rua Padre Cacique, 438.
Segundo um representante de serviços gerais do AA local, o qual nesta reportagem terá o nome fictício de José,  muitas pessoas já passaram pelas reuniões do grupo. Atualmente, são em torno de 50 membros assíduos. O grupo trabalha com seriedade, pois conforme o frequentador, o alcoolismo não é brincadeira. "É uma doença incurável e pode matar".
Nas reuniões são trabalhados  Os Doze Passos e os três legados: 1 recuperação, 2 unidade e 3 serviço.  "Sem este tripé, a recuperação não funciona. Dificilmente a pessoa fica em sobriedade. Outro fator importante é a espiritualidade. Se vim para o AA e não ter uma crença, que existe um poder superior a ti, não vai funcionar".
José está em sobriedade há seis anos, o mesmo período que procurou o AA. "Quando entrei no AA, estava alcoolizado, no fundo do poço. Numa depressão e encontrei a mão estendida para superar o vício".
Conforme o alcoólico, o principal é evitar o primeiro gole. "Sem ele, não tem o segundo, o terceiro gole. Podemos fazer tudo, ter uma vida normal, mas sem ingerir bebida alcoólica. Nunca podemos dizer que estamos curados. O alcoolismo não tem cura. Porque sempre há o risco da recaída".
Ele explica que o grupo é autossuficiente, graças as suas próprias contribuições. Não há necessidade de pagar taxas ou mensalidades. "Temos a sacola da gratidão, um tesoureiro que faz a coleta, e não obrigamos ninguém a nada, quem quiser fazer sua colaboração, pode fazer. O valor que puder".
Os frequentadores são das mais diversas idades, raças, credos e classes sociais. Todos os participantes são iguais dentro do grupo. Para os familiares dos alcoólicos, existe o grupo Al-Anon, onde os parentes e amigos compartilham as experiências a fim de solucionar o problema do alcoolismo.
Sobre a participação de jovens, o representante do AA lamenta que muitos procuram o grupo, participam de algumas reuniões e acabam desistindo. "Muitos não assumem que tem o vício. E infelizmente sabemos que o álcool é a porta de entrada para outras drogas".
Para José, o alcoolismo é um problema de saúde pública, que envolve toda a sociedade. "O alcoólatra atinge a família, os amigos, a sociedade. São afetadas 100 pessoas diretamente. Indiretamente, o número é muito maior. Por isso a família é muito importante, tem que ajudar. Não adianta tapar o sol com a peneira. Tem que encarar a realidade e lutar contra o vício".

"Vivíamos em pânico"
"Meu pai frequenta o grupo de Alcoólicos Anônimos de Três de Maio, mas não com tanta frequência como antigamente. Como houve várias recaídas, a cada recuperação era um reingresso. O primeiro ingresso foi há aproximadamente 20 anos.
Nossa vida era terrível quando estava alcoolizado. Quando ele saía para buscar mais bebida, não sabíamos o que poderia acontecer, nem se voltaria vivo. Ele não atendia o telefone e saíamos pela cidade a sua procura. Vivíamos preocupados, noites sem dormir, dias em pânico pensando no que poderia acontecer, não tínhamos sossego. Esse processo aconteceu inúmeras vezes durante nossas vidas.
Sabíamos que ele havia bebido quando voltava tarde do trabalho, sua face avermelhada e o cheiro de álcool confirmava o que havia acontecido. A partir daí, ele passava os dias em casa, trancado no quarto bebendo, faltava o trabalho, saía apenas para comprar mais bebida. Às vezes, desaparecia sem dar notícia, pois de tanto beber não conseguia retornar para casa. Quando o corpo já não suportava mais a falta de alimento, enfraquecido pela expulsão do que restava em seu organismo, gemendo de dor dia e noite a fio, sem condições de sair comprar mais bebida, insistia para que minha mãe fosse fazendo chantagem emocional. Daí ele aceitava fazer o tratamento apenas quando já estava quase agonizando.
Por isso não devemos julgar o próximo, pois só quem passa por essas situações conhece o verdadeiro amargo da vida e o que é a doença do alcoolismo. Agora, há um ano em sobriedade, nossa vida mudou sim, para melhor. Mas depois de tantas recaídas, ainda temos receio de que a qualquer momento isso volte a acontecer".

Depoimento de uma jovem de 21 anos, filha de um dependente alcóolico

"Faço planos para 24 horas"
"Alcoólatra é quem ainda tem o vício e faz uso do álcool. Alcoólico é quem está se recuperando, e mantendo-se em sobriedade. Sou um alcoólico, que durante anos fui alcoólatra. Bebia porque estava feliz e até quando ficava triste. Eu sempre tinha uma razão para beber. O álcool é um momento. É como uma droga, que dá uma sensação boa, naquele instante. Mas depois vem a depressão, a ressaca. E a única saída é voltar a beber de novo.
Se não tivesse parado de beber, eu teria perdido a minha família. Conheço companheiros que depois de 30 anos  de sobriedade tiveram recaída. Outros, foram à ruína e perderam tudo, família, emprego, dinheiro. Alguns chegaram ao fundo do poço, decaíram e tiraram a própria vida. É muito triste conviver com o alcoolismo.
Considero que o maior problema é ter o vício e não admitir. Eu não admitia. Todo o alcoólatra não aceita isso.
Depois de seis anos de sobriedade, hoje comemoro uma nova vida. Não tem coisa melhor que chegar em casa após um dia de trabalho e a minha família me esperar de braços abertos. Vejo minha esposa e meus filhos felizes. À tardinha faço chimarrão e ficamos conversando, tomando mate. E percebo hoje o quanto meus colegas de AA sofrem como eu sofri, por isso fico no grupo para ajudar a eles. Fazemos planos para 24 horas. A meta é manter a sobriedade dia após dia. Juntos, lutamos para ver as pessoas longe do álcool".

José, frequentador do AA de Três de Maio





FOTOS: ALINE GEHM



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